Foguete da SpaceX está prestes a bater na Lua; veja o que se sabe
Astrônomos independentes usaram dados públicos para rastrear o estágio superior do Falcon 9 e confirmaram a rota de colisão

Uma parte de um foguete Falcon 9, da SpaceX, usado para lançar dois módulos robóticos de pouso lunar, colidirá com a Lua na madrugada desta quarta-feira (5). O segundo estágio do propulsor, que impulsionou os módulos em sua trajetória, entrará em rota de colisão com o satélite natural da Terra.
O foguete Falcon 9 foi lançado em 15 de janeiro de 2025, carregando o módulo de pouso Blue Ghost, da Firefly Aerospace, com sede no Texas, nos Estados Unidos, e o módulo Resilience, da Ispace, com sede em Tóquio, no Japão. Enquanto o Blue Ghost pousou com sucesso em março de 2025, o Resilience não conseguiu concluir o pouso em segurança meses depois.
O primeiro estágio do foguete retornou à Terra após a decolagem, mas o segundo estágio, ou estágio superior, do Falcon 9 atuou como motor de propulsão no espaço para impulsionar os módulos em direção à Lua.
Julianna Scheiman, diretora de Ciência da Nasa e dos Programas Dragon da SpaceX, explicou que, para missões em órbita baixa da Terra, a SpaceX costuma descartar o estágio superior, permitindo que ele queime na atmosfera. "Mas para missões de alta energia, precisamos realizar uma manobra diferente para garantir que o segundo estágio em si seja seguro, de acordo com as normas e regulamentações apropriadas", disse ela. Scheiman acrescentou que, neste caso, uma "combinação de atividade solar e forças gravitacionais" o colocou em trajetória para a Lua.
Astrônomos independentes usaram dados públicos para rastrear o estágio superior do Falcon 9 e confirmaram a rota de colisão com a Lua, informação também validada pela Nasa. O Centro de Estudos de Objetos Próximos à Terra da agência, responsável por rastrear rochas espaciais, também corroborou a trajetória de impacto.
A Nasa garantiu, em comunicado, que "não há perigo para a Terra". A agência continuará monitorando o foguete para fins de treinamento e observará o local do impacto posteriormente para análises científicas.
Astrônomos de toda a América, que terão a melhor chance de observar o impacto, previsto para as 2h35 (horário do leste dos EUA) desta quarta-feira (5), direcionaram telescópios para a Lua. O público em geral não poderá acompanhar o evento ao vivo, mas imagens deverão ser divulgadas posteriormente.
Cientistas veem o raro evento de um objeto artificial atingindo a Lua como uma oportunidade para aprender mais sobre o satélite natural e para preparar futuras missões, visando a proteção de astronautas e infraestruturas.
A Nasa planeja estabelecer uma presença humana mais duradoura na superfície lunar por meio do programa Artemis de exploração lunar. Contudo, com o aumento das missões lunares, o gerenciamento de detritos espaciais em órbita se torna um desafio crescente, visto que a Lua não possui uma atmosfera protetora como a Terra.
O estágio superior do foguete, com cerca de 4.000 quilogramas, deverá atingir a superfície lunar perto da Cratera Einstein. A previsão é baseada em um estudo preliminar de cientistas, incluindo pesquisadores da Nasa. O coautor do estudo, Darryl Seligman, professor assistente do departamento de física e astronomia da Universidade Estadual de Michigan, nos EUA, explicou que a pesquisa foi submetida ao periódico The Astrophysical Journal Letters e divulgada previamente para que astrônomos pudessem se preparar para a observação.
O impacto, no entanto, não será visível a olho nu e pode ser difícil de detectar até mesmo com telescópios. O clarão, no momento em que o foguete atingir a Lua a uma velocidade estimada de 2,43 quilômetros por segundo, durará no máximo um segundo.
"Se você imaginar a Lua como um relógio, ela vai marcar mais ou menos onde estaria o número 10", disse o Dr. Paul Wiegert, professor de astronomia e física da Western University em London, Ontário, no Canadá. Ele explicou que o brilho intenso do impacto será atenuado pelo próprio brilho da Lua, que estará iluminada na área. Contudo, a pluma de detritos gerada pelo foguete poderá ser iluminada pela luz solar, permitindo a observação por telescópios.
A sonda lunar Pathfinder, da Coreia do Sul, tentará capturar imagens do estágio superior antes do impacto. A sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, da Nasa, mapeará o local posteriormente. Cientistas estimam que a colisão criará uma cratera com um diâmetro de 20 a 30 metros.
Embora rochas espaciais colidam regularmente com a Lua – astronautas das missões Apollo e da tripulação da Artemis II já vislumbraram clarões – impactos de objetos artificiais, como este do Falcon 9, são raros, segundo o estudo.
O evento acontece em um momento de atenção para a SpaceX, que divulgou seu primeiro relatório de resultados trimestrais como empresa de capital aberto. As ações da companhia enfrentam oscilações desde seu IPO em junho. A empresa, conhecida por projetos ambiciosos como a Starship faz primeiro voo bem-sucedido, continua sendo um player chave na exploração espacial.
O aumento da exploração lunar sugere que mais detritos espaciais podem atingir a Lua futuramente. Diferente da Terra, a Lua não possui atmosfera para proteger sua superfície do impacto de lixo espacial. Wiegert ressaltou que não há um sistema formal de rastreamento de detritos espaciais além do planeta, sendo que a identificação de fragmentos ocorre em buscas por asteroides perigosos.
A dificuldade em rastrear objetos que colidem com a Lua torna este evento, com o estágio superior do foguete, uma importante fonte de dados para que cientistas obtenham informações sobre as propriedades da superfície lunar, conforme destacou Wiegert.
"O que acontece quando um objeto colide com a Lua? Sabemos que forma uma cratera e ejeta material, mas não entendemos esse processo em detalhes", questionou Wiegert. "Agora que temos mais espaçonaves e, em breve, astronautas na Lua, queremos realmente entender melhor esse processo", completou.
Estimativas indicam que o estágio do foguete pode lançar material rochoso a até 805 quilômetros do local do impacto. Wiegert alertou que um evento similar, com astronautas ou infraestruturas na zona de pouso, representaria uma ameaça significativa. "Os objetos são pequenas rochas viajando a velocidades muito altas, comparáveis a balas, então queremos entender esses processos para que possamos eliminar isso como uma fonte de risco", afirmou.
Pesquisadores buscam formas de diminuir as chances de futuras colisões. Scheiman expressou entusiasmo pela observação e destacou a colaboração com a Nasa e outras agências para definir o melhor caminho para o descarte de missões de alta energia no sistema Sol-Terra-Lua.
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