Brasileiros enfrentam milhares de ataques cibernéticos enquanto dados circulam cada vez mais
Especialistas alertam para os riscos da exposição de informações pessoais, explicam os direitos garantidos pela LGPD e dão orientações para reduzir a vulnerabilidade a golpes e fraudes

A cada cadastro em um aplicativo, compra pela internet ou acesso às redes sociais, os brasileiros deixam um rastro de informações pessoais. Nome, CPF, telefone, localização e hábitos de consumo são coletados diariamente por empresas e plataformas digitais. Em um cenário marcado pelo aumento dos ataques cibernéticos e dos vazamentos de dados, cresce também a preocupação: ainda existe privacidade na internet?
Os números reforçam o alerta. Os sistemas do Governo Federal registraram 6.774 incidentes cibernéticos até o início de junho deste ano, uma média de 45 ataques por dia. No setor privado, organizações brasileiras enfrentam mais de quatro mil ataques cibernéticos por semana, cada uma. Em junho, uma base monitorada pelo site Have I Been Pwned reuniu cerca de 124 milhões de registros de senhas únicas associadas a e-mails comprometidos.
Para quem convive diariamente com a tecnologia, a sensação é de insegurança. O pedreiro Daniel César Xavier acredita que os dados pessoais estão cada vez mais expostos.
"Hoje em dia muita gente coloca o CPF até como chave Pix. A gente recebe mensagens o tempo todo dizendo que o nome foi usado, que tem conta em aberto. Clonagem... Dá para fazer de tudo com os nossos dados", afirma.
O motoboy Daniel da Conceição Costa também se preocupa com a quantidade de informações solicitadas em situações cotidianas. "Hoje qualquer compra já pede o CPF. Com a internet, parece que tudo ficou muito público", diz.
Privacidade existe, mas exige conhecimento
O especialista em Educação e Inteligência Artificial, Tiago Belotte, explica que a privacidade absoluta praticamente não existe mais, mas isso não significa que o cidadão esteja completamente desprotegido.
Segundo ele, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) garante direitos importantes, como acesso, correção e exclusão de informações pessoais, além da possibilidade de contestar determinados usos dos dados.
"O problema é que existe uma distância entre o que a lei garante e o que as pessoas realmente exercem. Muita gente nem sabe que esses direitos existem", afirma.
Belotte compara a situação atual a uma casa de vidro.
"É como morar em uma casa de vidro onde podemos fechar as cortinas. Só que a maioria das pessoas nem sabe que essas cortinas existem, nem como utilizá-las. Hoje, a privacidade também se tornou uma competência que precisamos desenvolver."

Dados biométricos ampliam os desafios
A advogada especialista em Direito Digital, Aryell Lustosa, lembra que a LGPD estabelece responsabilidades para empresas que tratam dados pessoais, mas alerta para um novo desafio: a expansão da coleta de dados biométricos.
"Estamos começando a difundir cada vez mais dados biométricos, e eles exigem ainda mais cuidado. Diferentemente de uma senha, nossos dados biométricos são imutáveis."
Ela destaca que o risco não está apenas nos vazamentos. O cruzamento de informações permite criar perfis extremamente detalhados sobre cada usuário.
"Eles cruzam localização, tempo de uso, hábitos de consumo, pesquisas realizadas e diversos outros comportamentos. Criam um perfil tão completo que, muitas vezes, sabe mais sobre nós do que nós mesmos."
Consumidor não é obrigado a fornecer CPF para obter desconto
O advogado especialista em Direito do Consumidor, Daniel Rennó, chama atenção para uma prática cada vez mais comum no comércio: a exigência de dados pessoais em troca de benefícios.
Segundo ele, o consumidor não pode ser obrigado a fornecer informações pessoais para ter acesso a um desconto que já é oferecido ao público.
"Você não pode obrigar o consumidor a fornecer seus dados pessoais para obter um produto ou um desconto que já está disponível em outras situações", explica.
Como reduzir a exposição dos dados
Especialistas recomendam medidas simples para aumentar a segurança digital: revisar periodicamente as permissões concedidas aos aplicativos;
utilizar senhas fortes e diferentes para cada serviço; ativar a autenticação em dois fatores; evitar clicar em links enviados por desconhecidos;
desconfiar de mensagens que solicitem dados pessoais ou bancários; compartilhar apenas as informações estritamente necessárias.
Em um mundo cada vez mais conectado, proteger a privacidade deixou de ser apenas um direito garantido por lei. Também depende da atenção e das escolhas feitas diariamente por cada usuário.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



