Esposa de morto em operação no RJ contesta versão da PM: 'Jogaram granada'
Roberta Ferro Hipólito afirma que casal não foi feito refém e diz que único disparo partiu da polícia; Bope sustenta que houve confronto e seis criminosos foram mortos

A esposa de Leonardo Silva Souza, ajudante de cozinha morto nessa quarta-feira (18), durante a operação no Morro dos Prazeres, na Região Central do Rio de Janeiro, que deixou 8 pessoas mortas, contestou a versão da Polícia Militar, e disse que ela e o marido não foram reféns, e que diferente do que foi dito, o único tiro que teve no local foi o da polícia.
Roberta Ferro Hipólito relatou momentos de terror vividos dentro de casa durante a ação policial. Segundo ela, o casal dormia quando criminosos invadiram a residência.
Estávamos dormindo, por volta de 7h40, quando três meliantes invadiram a nossa casa. Eles abriram a janela, entraram no quarto e mandaram a gente ficar quieto. Disseram: ‘Tia, fica quieta que a gente não vai reagir. Se a polícia entrar aqui, a gente vai se entregar’
De acordo com Roberta, pouco tempo depois, policiais chegaram ao local. “Eles mandaram a gente sair, gritaram para sair para fora, mas ninguém respondeu. Em seguida, jogaram uma granada na porta.”
Segundo Roberta, a situação se agravou rapidamente.
Quando jogaram a granada, meu marido gritou: ‘Aqui tem trabalhador, aqui tem morador, por favor’. Quando ouvi o tiro, vi um pedaço da cabeça do meu marido em cima de mim
Ela afirmou ainda que não houve confronto dentro da casa. “Não houve troca de tiros em nenhum momento. Os bandidos não reagiram. Estávamos todos encurralados no quarto. Era só a polícia entrar e pedir para sair um por um, mas preferiram matar um inocente.”
Roberta também questiona a versão apresentada após a ação.
Quando saí, um policial disse: ‘Quem matou seu marido foi o bandido que estava na janela’. Mas como ele sabia disso, se só estávamos eu, meu marido e os quatro bandidos dentro do quarto?
A mulher lamentou a perda do companheiro e destacou que ele não tinha envolvimento com o crime.
Meu marido era trabalhador. Ele saía todos os dias para trabalhar. Ele não vai sair como bandido ou vagabundo
Abalada, Roberta afirmou que pretende buscar justiça.
Eu vou onde for para provar que a polícia matou um morador inocente. Sei que nenhuma justiça vai trazer ele de volta, mas quero que ele seja honrado como a pessoa trabalhadora que ele era
Um vídeo divulgado nas redes sociais flagrou o momento após a troca de tiros na casa de Roberta. Nas imagens é possível ver placas de sangue por diversos cômodos, além da marcas de fuzis nas paredes e uma grande quantidade de balas espalhadas pela casa.

Versão da PM e reféns
Diferente da versão apresentada por Roberta, o comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Marcelo Corbage, afirmou que a ação ocorreu após criminosos invadirem a residência e fazerem os moradores de reféns.
Trata-se de uma ação covarde. Eles entraram na residência e fizeram um casal de reféns. Quando adentramos o imóvel, iniciamos uma negociação preliminar. No momento em que buscávamos uma solução pacífica, houve disparos de dentro da residência, e o senhor Leandro acabou sendo atingido na região da cabeça
Segundo o comandante, a equipe reagiu após os tiros dos criminosos.
A nossa tropa respondeu imediatamente ao fogo, e houve a neutralização de seis criminosos
Corbage também destacou que Roberta foi resgatada na casa.
Conseguimos retirar a senhora Roberta em segurança, embora ela estivesse em estado de choque. Ela está sendo conduzida para prestar depoimento, para que a verdade seja esclarecida
Roberta também chegou a questionar sobre o número de criminosos dentro de sua casa. Ela afirma que eram quatro suspeitos e três morreram. Já a PM afirmou que seis criminosos invadiram a casa de Roberta e Leandro.
Após a declaração, Roberta foi ouvida pela polícia ainda no Instituto Médico Legal (IML). O caso agora é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC).
Morte de ‘Jiló dos Prazeres’
Além dos seis mortos dentro da casa de Roberta, um dos principais líderes do tráfico de drogas do Morro dos Prazeres e um dos mais antigos integrantes do Comando Vermelho (CV), conhecido como “Jiló dos Prazeres”, também foi morto durante a ação policial.
Cláudio Augusto dos Santos tinha 55 anos. De acordo com a Polícia Militar, ele chegou a ser socorrido e levado ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro do Rio de Janeiro, mas não resistiu aos ferimentos.

Segundo a polícia, “Jiló” era um dos criminosos mais antigos ligados ao Comando Vermelho e acumulava cerca de 135 passagens pela polícia, além de diversos mandados de prisão em aberto. Ele também é apontado como um dos envolvidos na morte do turista italiano Roberto Bardella, de 52 anos, em dezembro de 2016.
Represálias e fogo em ônibus
Também nesta quarta-feira (18), após a ação da PM, criminosos teriam reagido em represália à operação do Bope, principalmente pela morte de “Jiló”.
De acordo com relatos, sete ônibus foram interceptados. Os veículos tiveram as chaves roubadas e foram utilizados como barricadas. Um dos coletivos foi incendiado. Por causa da ação, ao menos 11 linhas de ônibus tiveram o itinerário alterado, além da via de acesso ao Túnel Rebouças ter sido interditada.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.
Diana Rogers tem 34 anos e é repórter correspondente no Rio de Janeiro. Trabalha como repórter em rádio desde os 21 anos e passou por cinco emissoras no Rio: Globo, CBN, Tupi, Manchete e Mec. Cobriu grandes eventos como sete Carnavais na Sapucaí, bastidores da Copa de 2014 e das Olimpíadas em 2016.

