Vídeos detalham ação de bombeiro que matou policial em bar de BH; réu começa a ser julgado na sexta (14)
O policial penal Wallysson Alves foi mortos a tiros em um bar no bairro Santa Tereza, na região Leste de Belo Horizonte, em fevereiro de 2024; Naire é acusado pelo crime
O bombeiro militar reformado que matou um policial penal dentro de um bar em Santa Tereza, na região leste de BH, começa a ser julgado nesta sexta-feira (14). Naire Assis Ribeiro, de 61 anos, é réu pelo assassinato de Wallysson Alves dos Santos Guedes, crime acontecido em fevereiro de 2024.
A Itatiaia teve acesso a vídeos anexados ao inquérito policial que mostram a dinâmica do crime, quando Naire sai de casa para ir até o bar e volta para buscar a arma. Depois, é filmado atirando na vítima, voltando para casa e pegando uma mochila. Ele foi preso em flagrante pela PM enquanto manobrava motos na garagem de casa (assista ao vídeo completo).
Verônica Cardoso, irmã da vítima, faz um desabafo à reportagem. "Meu irmão era meu melhor amigo. Esperamos que o assassino do meu irmão seja condenado e perca a patente e todas as regalias que têm tido onde está preso, ou melhor, hospedado. Ele tem acesso a cardápio variado, suco, refrigerante light. Enquanto isso, eu e minha família estamos vivendo os piores momentos. Minha mãe está transtornada por ter perdido o filho mais velho, que era super carinhoso com todos. Estamos tirando dinheiro de onde não tem para pagar o tratamento psicológico", afirma.
Acusações
'Nessa primeira fase a gente espera que Naire seja pronunciado, ou seja, enviado a júri pelo homicídio com as três qualificadoras, por questão racial e o meio que impossibilitou a defesa da vítima, porque o Wallysson não teve a menor chance de defesa', disse o advogado da família da vítima, Rodrigo Nunes.
Acusação de racismo
O bombeiro reformado Naire Assis Ribeiro responde por crime de ofensa racial porque ligou para a polícia para tentar denunciar Wallysson, que havia se identificado como policial penal no bar. No diálogo, ele demonstra não conseguir acreditar que a vítima, um homem negro, poderia ser agente de segurança.
- Naire: ‘eu sou subtenente, eu estou com uma pessoa aqui falando que é militar aqui, eu acho que ele é haitiano, se identificando como militar, eu queria é…’
- 190: ‘Mas o que ele está fazendo?’
-Naire: ‘se identificando como militar e ele não é militar’
- 190: ‘Entendi, mas e aí senhor? Ele está mostrando distintivo? Ele está cometendo algum crime? Ele está fazendo algum mal para as pessoas?’
- Naire: ‘Oh minha querida, ele tá identificando como militar e ele não é militar, entendeu?’
Pouco depois, a atendente pediu para o bombeiro passar as características do policial. Naire voltou a fazer comentários racistas:
- 190: ‘Qual característica do indivíduo, senhor?’
- Naire: ‘É negro’
- 190: ‘A única característica que o senhor está me dizendo é que ele é negro?’
- Naire: ‘Lógico, ele é haitiano’
- 190: ‘Mas e aí senhor? Qual é o problema dele ser negro, haitiano? Eu não estou conseguindo entender’
'Em nenhum momento Naire diz que o Wallysson estava armado e apresentava qualquer ameaça. O que o processo comprova é que Naire não ficou satisfeito ou preferiu não acreditar que o Wallysson, uma pessoa negra, seria policial', ressalta Nunes.
Defesa do acusado
Em nota enviada à Itatiaia, o advogado de Naire, Audrey Silveira, afirmou que vai provar que os fatos narrados na denúncia não são verdadeiros.
‘É de se salientar que nenhuma testemunha ouvida no inquérito incriminou Naire. É absurda a acusação de racismo ser o motivo do crime. Naire é negro e é casado com uma mulher negra. Ele ligou para o 190, dizendo que a vítima estava em um bar, muito embriagado, com uma arma de fogo a vista de todos. A atendente pediu pata Naire descrever esta pessoa e ele respondeu que era um homem negro. A atendente disse: a primeira coisa que você vê em uma pessoa é que ela é negra? Só isto. A vítima estava tão embriagada que sua fala estava estranha, levando Naire e outras testemunhas a acreditar que ele falava com sotaque, por isto ele diz no 190 que tratava-se de pessoa estrangeira, de um haitiano. Por isto não poderia ser um policial'.
Relembre o caso
O crime foi registrado em um bar na rua Tenente Freitas no dia 26 de fevereiro deste ano. Testemunhas contaram que o policial e o bombeiro estavam bebendo juntos e que, em determinado momento, o bombeiro questionou o policial penal sobre a profissão. Naire duvidou da informação e teve início a discussão entre os dois.
Naire volta em casa para buscar uma arma, retorna ao bar e atira na vítima. A Polícia Militar (PM) foi acionada na rua Tenente Freitas, 258, e encontrou a vítima sangrando muito e ainda respirando. O policial penal foi socorrido para o Hospital João XXIII, passou por cirurgia, mas não resistiu aos ferimentos. O bombeiro foi preso em flagrante na garagem de casa enquanto manobrava duas motos e um jipe.
* sob supervisão de Enzo Menezes
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



