Veja como agiotas agem para atrair vítimas em BH; taxa de juros passa de 140% ao mês
Reportagem da Itatiaia conversou com agiota colombiano que atua em Belo Horizonte

A proposta é tentadora: empréstimo rápido, feito de maneira virtual, sem burocracia ou comprovação de renda. É dessa maneira que quadrilhas de agiotas agem para atrair vítimas na Grande BH. Os cartazes com a promessa de empréstimo rápido estão afixados em postes e até em ônibus do transporte público metropolitano, como flagrado pela reportagem em um coletivo da linha 518R (Terminal Vilarinho / Cidade Industrial via Carlos Luz).
A Itatiaia se passou por "cliente" e ligou para o número do cartaz fixado no ônibus, que oferece R$ 300 para pagamento de R$ 400 em sete dias, taxa de juros de 4,76% ao dia ou 142,86% ao mês. A taxa média de juros do empréstimo pessoal cobrada pelos principais bancos brasileiros não chega a 9% ao mês. No caso do cheque especial, a taxa média registrada recentemente foi de 8% ao mês.
Do outro lado, atendeu um colombiano que, inicialmente, tentou encerrar a ligação pedindo para manter o contato por mensagens. No entanto, após insistência, deu informações sobre o negócio. "Não sou eu apenas. Tem dinheiro de outras pessoas. Tem mais pessoas envolvidas. Eu só faço o cadastro, mas o dinheiro não é só meu, não", disse.
A reportagem seguiu as orientações do agiota, enviou mensagem e recebeu a ficha de cadastro. Além de endereço completo, os agiotas exigem print do perfil do Instagram e um vídeo no qual a pessoa assume a dívida. Outros pontos chamam atenção na mensagem: multa de R$ 20 por dia de atraso e pagamento até as 20h.
Só R$ 300
Durante a conversa telefônica, o agiota informou ser possível emprestar valor acima de R$ 300, mas somente em empréstimos futuros, após a vítima pagar em dia o primeiro valor. "De início, a gente empresta R$ 300, porque eu não te conheço. Se você for bom para pagar, eu conseguirei mais para você", disse.
Em maio deste ano, a Polícia Civil prendeu 14 suspeitos (nove colombianos e cinco brasileiros) durante a Operação Capital Coativo, desencadeada para desmantelar um grupo de agiotas que atuava principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com foco em Contagem.
Em entrevista à Itatiaia, o delegado Raphael Boechat, responsável pelas investigações, explicou que há diferenças na forma de atuação entre os grupos.
Segundo ele, os colombianos chegam ao Brasil já integrados à organização criminosa e passam por uma espécie de hierarquia até assumirem posições de comando.
"O sistema deles é muito organizado. Eles vêm da Colômbia para trabalhar diretamente na cobrança e, com o tempo, passam a administrar grupos regionais", explicou.
Outra característica é a cobrança de juros diários, que, segundo o delegado, podem variar entre 6% e 20%.
Já os grupos brasileiros costumam agir em menor número, mas, segundo a investigação, empregam violência ainda mais intensa.
"Eles invadem residências, agridem vítimas com pedaços de pau e armas de choque, perseguem familiares, chegam a intimidar crianças nas creches e ameaçam parentes idosos. Geralmente usam armas de fogo e motocicletas para fugir", disse Boechat.
Seinfra e Sintram
Procurada pela Itatiaia, a Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) informou que não permite a afixação de cartazes ou qualquer outro material de divulgação no interior dos ônibus do sistema de transporte metropolitano sem a devida autorização.
“Assim que tomou conhecimento da presença de um cartaz no interior de um veículo da linha 518R, a Secretaria solicitou ao Consórcio Ótimo a retirada imediata do material”, diz trecho da nota.
A Seinfra também solicitou o reforço dos procedimentos de fiscalização e orientação às empresas.
Já o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) informou que o cartaz identificado no interior de um ônibus da linha 518R foi afixado de forma irregular, sem conhecimento ou autorização da empresa operadora, do Consórcio Ótimo ou do próprio Sindicato.
“O material não faz parte das comunicações oficiais do sistema metropolitano e não tem qualquer relação com os canais, serviços ou informações vinculadas ao transporte público. Assim que a situação foi identificada, foi solicitada a retirada imediata do cartaz.”
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