Professores contestam ação da PM dentro de campus do IFMG após abordagem de adolescente
Corporação entrou na escola após receber a denúncia de que alunos estariam com bebidas alcoólicas; estudantes e professores apontam que ação foi desproporcional e vexatória

Professores e estudantes contestaram uma ação da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) dentro do campus Ribeirão das Neves do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) envolvendo uma estudante menor de idade. A situação ocorreu na última sexta-feira (9) no município da Região Metropolitana de Belo Horizonte e motivou a divulgação de uma nota de repúdio pela comunidade escolar.
Em entrevista à Itatiaia, um professor do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), que pediu para não ser identificado, afirmou que a direção do Campus Ribeirão das Neves acionou e autorizou a entrada da Polícia Militar após receber denúncias de que estudantes estariam com bebidas alcoólicas nas mochilas.
Veja vídeo:
Professores contestam ação da PM dentro de campus do IFMG após abordagem de adolescente
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— Itatiaia (@itatiaia) July 14, 2026
Segundo o docente, os policiais entraram nas salas de aula, revistaram mochilas e pertences dos alunos e, em seguida, conduziram quatro estudantes para o pátio da instituição.
"Nós ficamos absolutamente contra a forma como a situação foi conduzida. Eram menores de idade sendo expostos, enquanto toda a escola assistia e apontava para eles", relatou.
Já o presidente do Grêmio Estudantil Sabotage, que falou em nome dos estudantes, afirmou à Itatiaia que a entrada da Polícia Militar no campus surpreendeu os alunos e gerou momentos de medo e insegurança.
Segundo ele, inicialmente ninguém compreendeu o que estava acontecendo e muitos acreditaram que a escola estivesse diante de uma ocorrência muito mais grave.
"No momento, a gente não estava entendendo a situação. Quando vimos a Polícia Militar entrando na escola, ficamos muito surpresos. Achávamos que tinha acontecido um crime grave", disse.
Ainda segundo o professor do colégio, após a abordagem ele conversou com os estudantes envolvidos, que admitiram ter cometido um erro, mas estavam bastante abalados.
"Eles reconheceram o erro, mas tremiam de medo. Ficaram muito assustados com toda a situação", afirmou.
Na avaliação do docente, a atuação da Polícia Militar foi desproporcional diante do ocorrido e o episódio poderia ter sido tratado por meio de medidas disciplinares e pedagógicas adotadas pela própria instituição.
O professor também afirmou que um caso semelhante ocorreu recentemente no campus e, na ocasião, a direção optou por resolver a situação internamente, sem acionar a polícia. Por isso, segundo ele, a decisão de recorrer à PM antes de esgotar as alternativas pedagógicas causou surpresa entre os docentes.
Uma nota de repúdio emitida pelos docentes afirma: "Queremos deixar uma mensagem clara a todos que lerem este documento: nossos alunos não são
criminosos, são seres humanos em construção. A adolescência é uma fase de descobertas e, naturalmente, de eventuais transgressões que exigem orientação e responsabilização. Contudo, para corrigir falhas e orientar atitudes, existem formas humanas, éticas e estritamente pedagógicas. O processo formativo exige diálogo, escuta ativa e acolhimento, nunca a criminalização da juventude por meio de intervenções policiais incompatíveis com o ambiente escolar".
Procurada pela reportagem a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) se posicionou em nota enviada à Itatiaia:
"A Polícia Militar de Minas Gerais, por meio do 40º Batalhão de Polícia Militar, informa que a atuação nas dependências do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) ocorreu em atendimento à solicitação da direção e da coordenação da instituição de ensino, diante de informações relacionadas ao possível consumo de bebida alcoólica por adolescentes e eventual aliciamento de menores para essa prática.
A PMMG esclarece que, uma vez acionada, possui o dever legal de comparecer ao local e adotar as providências cabíveis no âmbito de suas atribuições.
No local, em conjunto com a direção e a coordenação da unidade de ensino, foi definida uma estratégia de atuação voltada à orientação, prevenção e conscientização dos estudantes acerca dos riscos e das consequências legais e sociais do consumo de bebida alcoólica por menores de idade. Durante a ação, os alunos que desejaram prestar esclarecimentos o fizeram de forma espontânea, sempre na presença de representantes da instituição de ensino.
A atuação policial foi pautada na legalidade, no respeito aos direitos e garantias fundamentais e na proteção da comunidade escolar, restringindo-se ao apoio solicitado pela instituição de ensino e à adoção das medidas cabíveis no âmbito de sua competência"
Procurado, o Ministério da Educação (MEC) disse que os Institutos Federais possuem autonomia administrativa, patrimonial, financeira, didático-pedagógica e disciplinar, de acordo com sua lei de criação (11.892/2008).
Exposição severa
O presidente do grêmio estudantil também criticou a forma como os colegas foram abordados. Ele ressaltou que houve exposição pública dos adolescentes diante de toda a comunidade escolar.
"A exposição foi severa. Vimos os alunos sendo expostos para toda a escola", afirmou.
Após o episódio, o grêmio estudantil informou ter buscado diálogo com outros movimentos estudantis para discutir o caso. Na avaliação do presidente, uma situação que deveria ser tratada no âmbito disciplinar acabou recebendo tratamento criminal.
"Algo que era disciplinar foi tratado como caso de polícia", declarou.
O representante dos estudantes disse que o grêmio repudia a forma como a abordagem foi conduzida e demonstrou preocupação de que esse tipo de ação possa se repetir.
"Estamos preocupados porque isso não pode se tornar normal. Não queremos que nenhum aluno seja tratado dessa forma", concluiu.
Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu conteúdos para as editorias Turismo, Gastronomia e Emprego/ Concursos. Atualmente, colabora com as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo.



