Agiotas colombianos transformam cobrança de dívidas em rotina de terror na Grande BH
Crise financeira têm impulsionado a atuação de grupos criminosos, que usam espancamentos, ameaças e até vídeos de tortura para intimidar devedores

O aumento do endividamento das famílias brasileiras e a dificuldade de acesso ao crédito formal têm alimentado a atuação de quadrilhas de agiotas brasileiros e colombianos em Minas Gerais. Além da cobrança de juros considerados abusivos, os criminosos recorrem a ameaças, espancamentos, torturas e outras formas de intimidação para forçar o pagamento das dívidas.
Investigações da Polícia Civil apontam que algumas organizações criminosas passaram a gravar as sessões de violência contra os devedores. Os vídeos são compartilhados em grupos de mensagens como forma de espalhar o medo e intimidar outras pessoas que estejam com pagamentos em atraso.
Uma das vítimas é uma pequena comerciante da região Noroeste de Belo Horizonte, que afirma viver sob constantes ameaças de agiotas colombianos. Em entrevista à Itatiaia, ela contou que precisou abandonar a própria casa após sofrer intimidações.
"Tinha um colombiano que eu devia para ele R$ 2 mil e poucos. Ele colocou alta pressão mesmo e falou comigo que eu ia pagar com a minha própria vida e que eu tinha mexido com a pessoa errada. Eles espancaram na minha porta. Eu saí às pressas da minha casa. Fora o que o colombiano levou, ainda estou devendo", relatou.
Operação prendeu colombianos e brasileiros

A Polícia Civil deflagrou a Operação Capital Coativo, para prender um grupo de agiotas que atuava principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com foco em Contagem.
Ao todo, foram presos 14 suspeitos: nove colombianos e cinco brasileiros.
Em entrevista à Itatiaia, o delegado Raphael Boechat, responsável pelas investigações, explicou que há diferenças na forma de atuação entre os grupos.
Segundo ele, os colombianos chegam ao Brasil já integrados à organização criminosa e passam por uma espécie de hierarquia até assumirem posições de comando.
"O sistema deles é muito organizado. Eles vêm da Colômbia para trabalhar diretamente na cobrança e, com o tempo, passam a administrar grupos regionais", explicou.
Outra característica é a cobrança de juros diários, que, segundo o delegado, podem variar entre 6% e 20%.
"Eles costumam permanecer o dia inteiro no comércio das vítimas, intimidando clientes, recolhendo objetos e fazendo ameaças para forçar o pagamento", afirmou.
Já os grupos brasileiros costumam agir em menor número, mas, segundo a investigação, empregam violência ainda mais intensa.
"Eles invadem residências, agridem vítimas com pedaços de pau e armas de choque, perseguem familiares, chegam a intimidar crianças nas creches e ameaçam parentes idosos. Geralmente usam armas de fogo e motocicletas para fugir", disse Boechat.
Pressão pode provocar depressão

O impacto das ameaças vai além do prejuízo financeiro.
O psiquiatra Paulo Repsold afirmou, em entrevista à Itatiaia, que a pressão psicológica exercida pelos agiotas pode desencadear transtornos mentais graves.
"Dependendo da capacidade de suportar esse estresse, a pessoa pode desenvolver quadros importantes de ansiedade e depressão", explicou.
Segundo especialistas, em situações extremas, o sofrimento emocional pode levar vítimas a tirar a própria vida.
Caminho até o agiota começa nas dívidas
Para o economista Paulo César Feitosa, o recurso ao empréstimo ilegal normalmente é o último estágio de uma longa sequência de dificuldades financeiras.
Em entrevista à Itatiaia, ele explicou que muitas pessoas começam utilizando o cartão de crédito, entram no rotativo, tentam empréstimos bancários e recorrem a familiares ou amigos antes de buscar um agiota.
"Muitas vezes a pessoa já tentou todas as alternativas. Ela não consegue crédito no banco, não consegue ajuda da família e acaba procurando aquele conhecido do bairro que empresta dinheiro", afirmou.
Segundo Feitosa, em diversos casos o valor entregue ao tomador é muito inferior ao prometido, porque os juros são descontados antecipadamente.
"O agiota diz que vai emprestar R$ 10 mil, mas já desconta os juros e entrega apenas R$ 3 mil ou R$ 4 mil."
Delegado pede que vítimas denunciem

Raphael Boechat também rebate o argumento de que quem recorre a um agiota deve arcar sozinho com as consequências.
Segundo ele, as vítimas geralmente estão em situação de extrema vulnerabilidade financeira e acabam sendo submetidas a cobranças muito superiores ao valor originalmente emprestado.
"Em muitos casos são mulheres tentando sustentar os filhos em meio ao desemprego. Culpar essas pessoas significa promover uma segunda vitimização", afirmou.
O delegado reforçou ainda que a agiotagem é crime e frequentemente está ligada a outros delitos graves.
"Quando os juros cobrados ultrapassam os limites previstos em lei, já há configuração do crime. Mas o maior problema é que a agiotagem costuma ser a porta de entrada para diversos crimes gravíssimos", destacou.
Por fim, Boechat orientou que as vítimas procurem a polícia.
"Quanto mais pessoas denunciarem o mesmo agiota, melhor para a investigação e para a proteção das próprias vítimas. Uma eventual retaliação se torna muito mais difícil quando há dezenas ou centenas de denunciantes", concluiu.
Repórter policial e investigativo, apresentador do Itatiaia Patrulha.



