Belo Horizonte
Itatiaia

Todo julgamento é uma confissão!

Nossa visão de mundo, geralmente, está mais para narrativa, versão ou fantasia do que para o “fato em si”

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Padre Samuel Fidelis é colunista da Itatiaia • Padre Samuel Fidelis | Reprodução

Suspeite! Sim, o tempo todo. Mas não dos outros, antes de si mesmo. A maturidade não é outra coisa que a capacidade de desconfiar de si, de fazer um recuo crítico das próprias percepções e de não se levar tanto a sério. Só quem se desconhece se leva a sério. Saúde mental é saber que está todo mundo "dodói" por algum motivo. E é por isso que a gente se arranha, se estranha...

Um dos grandes sinais de imaturidade psíquica, nessa perspectiva, é o "julgamento". E não se trata aqui do juízo enquanto percepção imediata, do tipo: branco, preto, alto, baixo; ou mesmo de um "parecer" emitido acerca de ações, tais como: aquilo foi bom, ruim, útil ou foi desnecessário... Tudo isso é inevitável e, às vezes, até desejável! A questão é quando o nosso juízo atinge "pessoas", na ilusão de que uma ação ou uma percepção nossa seja capaz de "esgotar" ou resumir alguém.

As pessoas são sempre mais do que a soma do que se vê! Nossa visão de mundo, geralmente, está mais para narrativa, versão ou fantasia do que para o "fato em si". Não é só o Instagram que tem filtro; nossa mente já nasce com vários! No instante em que dizemos "eu vejo isso, vejo aquilo", fazemos isso a partir de um ponto de vista, que sempre é a vista a partir de um ponto (Boff).

Não devemos nunca julgar pessoas, pois todo julgamento, em última instância, é uma confissão de culpa! Basta observar, senão por fé, por sabedoria, vários ensinamentos de Jesus.

É Ele quem diz que, antes de ver o cisco no olho do irmão, é preciso ter consciência da trave diante dos nossos (Mt 7,4-5). É Jesus quem indica que há muita hipocrisia naquele que usa da "religião" para dar salvo-conduto às próprias perversidades. É o Nazareno quem faz os acusadores da adúltera jogarem suas pedras ao chão, sugerindo, sutilmente, que, se ela foi "pega em pecado", certamente não estava lá sozinha (Jo 8). Considerando o mesmo tema, é o mesmo Jesus quem diz que um adultério ocorre, antes que no corpo, já no coração (Mt 5,28).

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Disso decorre, por exemplo, um verdadeiro veneno para as relações, que é a fofoca. Quem fala mal dos outros, quem fofoca, quem é pejorativo demonstra um grande foco no "erro". Agir assim indica grande frustração pessoal. Pode ter certeza de que uma pessoa crítica é a primeira vítima dos próprios padrões elevados! Excesso de julgamento é sempre sinal de baixa "dopamina". Ao não ter prazer no que é bom, verdadeiro e belo, o "sincericida" se deleita em depreciar. O maledicente não tem autoestima. Quem sempre tem algo a diminuir nos outros está dando testemunho da própria necessidade de abaixar o "sarrafo", reduzindo os ambientes que o cercam ao nível de sua mediocridade.

Façamos um compromisso com a lucidez! "De perto, ninguém é normal". Que a gente suspeite sempre sobre nossa "medida sobre o mundo". Afinal: com a mesma fita com que medimos, terminamos sendo medidos (Mt 7,2); devemos acreditar em metade do que vemos e nada do que ouvimos; o mundo é mais cinza quando nossa vista está "dodói"...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.