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Sir Walter Soul: o dançarino que cresceu no Aglomerado da Serra e já se apresentou em 4 países

Das ruas do Centro aos palcos internacionais, Sir Walter Soul transforma a cidade em pista de dança e mantém viva a cultura black na capital mineira

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Redes sociais/ Reprodução
Ele chega, coloca a caixa de som no chão e começa a dançar. Em poucos minutos, as pessoas vão parando, olhando e formando uma roda - e, quando percebem, já estão envolvidas pelo ritmo de 'I feel good, I knew that I would now... So good, so good'.
Esse é Walter Pinheiro da Silva, conhecido como Sir Walter Soul, de 63 anos, figura emblemática nas ruas de Belo Horizonte.  É bem provável que você já tenha cruzado com ele pela Praça Sete, no Parque Municipal ou na Feira Hippie, aos domingos, na Avenida Afonso Pena - sempre alinhado, de calça boca de sino, blazer, sapatos sociais e boina, com um crucifixo prateado no pescoço e estilo inconfundível. Foi no Parque Municipal, no coração de BH, que Walter recebeu a reportagem da Itatiaia e revelou parte da história de vida.
Precursor do movimento soul na capital desde a década de 70, Walter passou a registrar seus passos pelas ruas, acumulando milhares de visualizações nas redes sociais, onde soma mais de 300 mil seguidores, além de apresentações pelo Brasil e também no Chile, na Espanha e na Argentina e no Paraguai.

De Baguari para o Aglomerado da Serra 

Nascido em Baguari, distrito de Governador Valadares, Walter conta que teve uma infância simples, cresceu às margens do Rio Doce, brincando na rua de esconde-esconde, rouba-bandeira, polícia e ladrão, além de andar de bicicleta e jogar futebol.

“Na periferia, a gente não tinha quase nada. Às vezes, nem roupa. A gente montava roupa com pedaços de pano, com o que tinha. Quando conseguia fazer uma, era única. Parecia que você só tinha aquela, porque não tinha dinheiro”, relembra o dançarino, logo após dar uma mostra dos passinhos no Parque Municipal, que chamou a atenção de dois homens, que acenaram e perguntaram: 'É James Brown né?'

Walter contou que, aos sete anos, ele se mudou para BH e foi morar com a mãe no Aglomerado da Serra, na Região Centro-Sul. “Cheguei na Serra por volta de 1968. Era tudo mato, os bairros ali ainda nem existiam.”

A era dos programas de auditório 

A música entrou na vida dele por volta dos 13 ou 14 anos, principalmente por meio de televisões, que muitas vezes precisavam de bombril na antena para sintonizar os programas de auditório.

“Então, você via aqueles programas de TV, com artistas tocando, cantando e dançando, e aprendia por ali”, disse. A intuição também é um guia para os pés: “Cada música tem uma essência, um sentimento. A dança é uma forma de se expressar.”

Ele relembrou que, no começo, o resgate desse estilo musical aconteceu de forma espontânea nas ruas. “Em 2004, os meninos começaram ouvindo música no Centro. Foi na Rua Guajajaras que a galera passou a se reunir. Aí eu comecei a frequentar esses espaços onde a música estava rolando.”

Três anos depois, criou o Movimento Soul BH, e passou atuar efetivamente como produtor cultural. “É um movimento em que eu busco valorizar e mostrar a cultura de BH... O som e a música da cidade, principalmente o soul, a disco e o funk original. A partir disso, surgiu a ideia de realizar um evento. Pensei: ‘onde fazer?’. Escolhi o Aglomerado da Serra, na Praça do Cardoso. Em 2007, organizei o primeiro baile”, lembrou.

Rodando o Brasil 

E, desde então, nunca parou. Há dez anos, ele passou a registrar os movimentos na rua com um celular e a publicar nas redes sociais. Em um desses vídeos, feito na Praça Sete, chamou a atenção da companhia de dança 'Improvável', do Rio de Janeiro. O grupo o convidou para participar do espetáculo “Chão”, em 2023.

“Eu disse que não sabia atuar. Mas aí eles falaram que eu só precisava dançar, do meu jeito. Aí eu fui”, contou. Após uma temporada rodando pelo Brasil, veio a oportunidade de dançar fora do país pela primeira vez: em março de 2024, ele embarcou para Santiago, no Chile, e, em agosto de 2025, para Barcelona, na Espanha. “Foi muito bom conhecer outra cultura. A Espanha é um país bonito pra caramba. A dança é linguagem universal”.

O sonho

Apesar da dedicação à arte, Walter nunca viveu só da dança. Ele teve uma trajetória profissional diversa: foi jogador amador de futebol, apitou por mais de dez anos jogos das categorias de base como árbitro da Federação Mineira de Futebol, trabalhou na Polícia Militar (PMMG) e na Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) e, hoje, trabalha nos Correios.

Ele também cultiva um sonho ambicioso: chegar à Presidência da República para ampliar o acesso à cultura como meio de sustento.

“Meu sonho é ser presidente da República. Acho que a gente precisa mudar muita coisa, fazer um trabalho focado na população, principalmente na de baixa renda. A cultura precisa de mais investimento. E temos que parar com a ideia de que artista é aproveitador - não é.” Em 2024, ele se candidatou a vereador pela Rede, mas não foi eleito.

Falta de apoio

Hoje, Walter enfrenta dificuldades financeiras para manter os eventos, após o equipamento de som quebrar. Mesmo assim, segue firme na sua forma de ver a vida: com otimismo e a crença de que a dança é o grande segredo que o mantém jovem.

“A dança me deixou eternamente jovem. Eu esqueço a idade. As pessoas perguntam: ‘você tem 64 anos?’. Tenho, mas me sinto como se tivesse 16, 18. Quando a música toca, eu me expresso. Cada música tem um sentimento. Não tenho tempo para ficar triste. Minha meta é chegar aos 200 anos dançando”, finalizou.

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Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.