A orquestra sinfônica de Minas Gerais completa 50 anos em 2026 com um pedido: melhores condições de trabalho para os cerca de sessenta músicos que atuam na corporação. Quarenta por cento desses profissionais tem contrato via CLT, já que o último concurso público foi em 2013.
Fundada em 1976, a orquestra começou efetivamente as apresentações em 1977. Violoncelista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Antônio Viola estava lá.
“Eu passei a fazer parte do quadro da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais desde o seu início, em 1977. Na realidade, a orquestra foi criada por lei, em 1976. A data da lei é 1976, mas a data da implementação da orquestra, das apresentações e do concurso que teve antes para completar os quadros, é de 1977. E eu já estava lá, em 1977, no primeiro concerto da orquestra. E lá fiquei até me aposentar em 2012".
Viola afirma que o valor pago aos músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais é o menor do Brasil.
“Os salários são muito baixos. Entre orquestras congêneres, que são orquestras estaduais ou municipais, ela tem os menores salários do Brasil. Esse é o problema principal. O plano de carreira tem que ser reformulado e os valores têm que ser reatualizados, ele está muito desatualizado”, avalia.
Maestra demitida
Em novembro do ano passado, durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Lígia Amadio criticou os valores pagos aos músicos da orquestra. Durante sessão da Comissão de Cultura da ALMG, Amadio disse que os músicos iniciantes na Orquestra recebem R$1618,72 mensais. “Não é possível que um governo considere que um salário de R$ 1.600 seja justo para um músico. Eu suplico que esse assunto seja levado a sério”, disse a maestra, que chegou a se emocionar durante a fala e foi ovacionada pelos presentes.
“Nessa audiência, em que se tratou também do tema da precariedade, das condições de trabalho dos músicos em Minas Gerais, de maneira geral, a maestra se manifestou falando da questão salarial da orquestra. (Ela) Se manifestou de uma forma bastante contida e respeitosa, mas falou da verdade do problema salarial da orquestra”, relembra Antônio Viola.
Menos de dois meses após a fala, Lígia Amadio teve seu contrato rescindido. Ela era diretora musical e regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais desde 2023, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo.
A decisão foi comunicada pela Fundação Clóvis Salgado, mantenedora da orquestra e ligada ao Governo de Minas Gerais. Procurada pela Itatiaia, a Fundação negou que a saída da maestra tenha ligação com as reclamações públicas feitas em novembro.
Conforme a Fundação, regentes que já estiveram à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais serão convidados para participar de apresentações ao longo do ano, tendo em vista os 50 anos da orquestra e os 55 do Palácio das Artes - e que, por isso, o contrato de Ligia Amadio foi rescindido. (Confira abaixo a íntegra da nota).
Abaixo-assinado e pedido por retorno
O Sindicado dos Músicos Profissionais de Minas Gerais construiu abaixo-assinado onde lamenta a saída da maestra e pede seu retorno. (Leia a íntegra do documento abaixo).
Diretor do Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais e integrante da orquestra, Leonardo Brasilino aponta as melhorias necessárias.
“A questão do concurso é uma demanda constante da orquestra, pois há músicos que se aposentam, fazem transição e deixam vagas que precisam ser repostas, mas sem concursos regulares adotou-se o sistema híbrido CLT para suprir essas demandas. Com apoio do sindicato, buscou-se regulamentar as contratações em regime CLT para garantir direitos trabalhistas, porém a remuneração dos servidores e dos trabalhadores CLT está desfasada em relação ao mercado.A comissão da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais defende a atualização do regime salarial e do plano de carreira, pois o salário base está desatualizado há muito tempo e os benefícios foram reduzidos ao longo dos anos”, explica.
Conforme Brasilino, os integrantes da orquestra desejam o retorno de Lígia Amadio.
“Esse abaixo-assinado também é para mostrar o resultado que a Ligia Amadio, pela dedicação e o carinho que ela tem com os músicos”, finaliza.
Como fica 2026?
No ano em que completa 50 anos, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais tem futuro incerto. A Fundação Clóvis Salgado diz que pretende convidar ex-regentes para sessões curtas de apresentação - sem detalhar quem vai ser convidado, qual a temática das apresentações e qual será o calendário de ensaios.
“A cultura é tão importante, é tão fundamental na formação de um povo, e nós temos aquele teatro lá central (Palácio das Artes) fazendo 55 anos de existência, com uma orquestra a fazer 50 anos, o que a gente espera é respeito ao público, à população, que é quem paga e quem usufrui. Tomara que o governo tenha sensibilidade para isso nesse momento tão significativo dos 50 anos da Orquestra”, desabafa Antônio Viola.
"É um desafio anual para a Orquestra Sinfônica manter uma programação intensa, sendo desejável ter um maestro titular de renome, especialmente nos 50 anos da orquestra, que é referência cultural e patrimônio tombado.
Além da expectativa pelo retorno da maestra Lígia Amadio, há lutas urgentes para atualizar e reconhecer as condições da orquestra e dos outros corpos da Fundação Palácio das Artes na vida do artista mineiro”, finaliza Leonardo Brasilino.
Nota da Fundação Clóvis Salgado
“A Fundação Clóvis Salgado (FCS) informa que, para comemorar os 55 anos do Palácio das Artes, decidiu homenagear regentes que já estiveram à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e fazem parte dessa história, convidando-os para conduzir as apresentações previstas para este ano de 2026.
Em virtude dessa readequação, o contrato da Diretora Musical e Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Ligia Amadio, será encerrado definitivamente, abrindo espaço para um novo momento na música erudita de Minas Gerais.”
Abaixo-assinado do Sindicato dos Músicos
“Após uma temporada de grandes realizações, os músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais foram surpreendidos, ainda durante as férias, pela preocupante notícia da demissão de Ligia Amadio. Essa maestra de reconhecimento internacional vinha realizando um trabalho de alto nível à frente da orquestra desde 2023. Tudo indicava que esse trabalho teria seu ponto alto em 2026, quando a OSMG comemora 50 anos de sua criação.
Há um consenso entre a maioria dos músicos de que o trabalho realizado pela maestra foi fundamental para a elevação da qualidade artística do grupo e que seu desligamento vai impactar negativamente no nível do trabalho. Além disso, os músicos viam nela, mais que uma liderança artística, uma aliada nas reivindicações por melhoria nas condições de trabalho e salário. Isso ficou evidenciado numa recente Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais na qual se comemorou os 80 anos do Sindicato, ocasião em que ela foi homenageada. Ligia fez um pronunciamento enfático e respeitoso em defesa das necessárias melhorias para os profissionais da orquestra.
A comissão de representantes dos músicos procurou o Sindicato para uma tentativa de solução negociada junto à direção da Fundação Clóvis Salgado. Pedimos uma reunião e fomos prontamente atendidos. Infelizmente, a boa vontade em nos receber não perdurou perante nossas argumentações. A direção foi contraditória ao alegar falta de recursos em um momento em que anuncia uma grande programação para a temporada. Foi argumentado pelo Sindicato que no ano da comemoração dos 50 anos da OSMG e 55 anos da FCS é de grande importância para a cultura mineira a permanência da liderança que trouxe esse corpo artístico a esse patamar de grande qualidade. Ainda assim, a direção não recuou da decisão pela interrupção desse trabalho.
Lamentamos profundamente pela demissão de Ligia Amadio nesse contexto, que pode parecer uma reação injustificável à sua postura em defesa dos músicos. Esperamos mais habilidade e bom senso dessa diretoria nesse momento tão significativo para essa instituição cultural.”