Mais de 550 policiais civis de MG foram afastados por motivos de saúde em 2026
O número foi levantado pela Itatiaia a partir de anúncios feitos em edições do Diário Oficial entre janeiro e junho deste ano

Só no primeiro semestre deste ano, ao menos 552 servidores da Polícia Civil de Minas Gerais se afastaram de seus postos por motivos de saúde. O número foi levantado pela Itatiaia a partir de anúncios feitos em edições do Diário Oficial entre janeiro e junho e ilustra uma preocupação da corporação em relação à assistência prestada aos que trabalham na investigação de crimes no estado.
Os números levantados pela reportagem mostram que, entre os mais de 500 afastamentos por motivos de saúde, 301 ficaram fora de seus postos por ao menos 30 dias; desses, ao menos 234 se ausentaram por 60 dias; e, entre eles, 115 se licenciaram por ao menos 180 dias.
Em relação às carreiras, a maior frequência de afastamento se deu entre investigadores, que soma 244 servidores que precisaram se ausentar em algum momento por motivos de saúde. A lista segue com escrivães, com 107; técnicos e auxiliares, com 95; delegados, com 56; peritos criminais, com 40; e médicos legistas, com 10.
Para o presidente do Sindicato dos Escrivães de Polícia do Estado de Minas Gerais (Sindep/MG), Marcelo Horta, o número é alarmante e sintomático sobre a situação da carência de pessoal na corporação.
“É necessário uma atenção especial à saúde mental dos policiais, sendo indispensável olhar para esse número com sensibilidade e não apenas sobre uma perspectiva aritmética.Para o sindicato, trata-se de um índice que chega a ser escandaloso. Atualmente, o efetivo da Polícia Civil corresponde a aproximadamente 50% do quantitativo previsto na Lei 129/2013. Vale destacar que esse efetivo foi estabelecido com base em estudos realizados na primeira década dos anos 2000, ou seja, passados mais de 20 anos, a Polícia Civil está atuando com pouco mais da metade do efetivo que já era considerado necessário há mais de uma década. Para agravar esse cenário, as perdas inflacionárias acumuladas nos últimos 10 anos correram cerca de 50% do poder de compra dos salários policiais. A combinação desses dois fatores resulta numa realidade extremamente adoecedora. Os policiais convivem com a sensação de receber cada vez menos e trabalhar cada vez mais. É como se a gente tivesse recebendo a metade para trabalhar no dobro”, afirmou à Itatiaia.
Ainda segundo Horta, questões logísticas complicam a situação dos policiais que precisam de um atendimento médico. Ele cita exemplos de servidores que precisaram se deslocar do interior até a capital para obter a autorização do afastamento.
“A polícia civil não dispõe de uma rede própria ou conveniada de hospitais, nem de um plano de saúde específico. Além disso, os atendimentos oferecidos pelo hospital da Polícia Civil são insuficientes e não contemplam uma rede ampla integrada de assistência à saúde. Outro fator que agrava a situação dos policiais civis é um modelo atualmente exigido para concessão de afastamento por motivos de saúde. Em muitos casos, os policiais lotados no interior do estado são obrigados a se deslocar até Belo Horizonte para realizar a perícia médica e obter a autorização do afastamento. Essa exigência, ela acaba agravando ainda mais a condição de saúde dos servidores”, complementou.
O que diz a Polícia Civil de Minas Gerais
Em nota enviada à reportagem, a PCMG disse que a saúde mental e física dos servidores são prioridade permanente da instituição, que mantém ações preventivas, acolhimento e assistência qualificada aos profissionais.
A corporação diz ainda que não divulga dados relacionados à licença saúde em observância ao direito de privacidade dos servidores. As informações publicadas nos diários, de fato, não traz informações sobre o motivo dos afastamentos, que são listados apenas como “saúde”.
Na nota, a Polícia Civil cita os programas criados internamente para tratar especificamente sobre o cuidado com a saúde dos servidores, como o Projeto Acolher, para atendimento a quem foi exposto a alto impacto emocional; o Projeto Cuidar, para ampliar o atendimento médico em diferentes especialidades; e o Projeto Fortalecer, para fazer atendimentos preventivos.
Veja a manifestação na íntegra abaixo:
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) reforça que a promoção e o cuidado com a saúde mental e física dos servidores são prioridade permanente da instituição, que mantém ações preventivas, acolhimento e assistência qualificada aos profissionais.
A instituição não divulga dados relacionados à licença saúde, em observância ao direito de privacidade dos servidores e para evitar análises descontextualizadas sobre afastamentos, que ocorrem por motivações multifuncionais, são permitidos nos termos da legislação, e acompanhados pela corporação.
Ressaltamos que a PCMG desenvolve ações para a promoção da saúde e qualidade de vida dos servidores, com acompanhamento psicossocial, acolhimento e prevenção ao adoecimento mental, reconhecendo a importância do tema e a necessidade de atenção contínua ao bem-estar dos profissionais de segurança pública.
Entre as iniciativas, destacamos o Projeto Acolher, voltado ao atendimento de servidores envolvidos em situações de alto impacto emocional, proporcionando suporte especializado para o enfrentamento de crises e recuperação da saúde mental.
O Projeto Cuidar PCMG também amplia o acesso à assistência em saúde, com atendimentos médicos e multiprofissionais presenciais e por teleatendimento, contemplando diversas especialidades e alcançando servidores em todo o estado.
Já o Projeto Fortalecer atua de forma preventiva, promovendo ações nas unidades policiais para melhoria do clima organizacional, prevenção de conflitos e valorização da saúde ocupacional, por meio de visitas técnicas e acompanhamento contínuo das equipes.
A instituição oferece uma rede estruturada de atenção à saúde e ao bem-estar dos seus servidores, composta por diferentes serviços e projetos especializados, no Hospital da instituição.
Destacamos ainda o Plantão Psicológico, que assegura acolhimento imediato de forma virtual ou por telefone, garantindo acesso facilitado ao atendimento psicológico, com possibilidade de acompanhamento contínuo e encaminhamento para avaliação psiquiátrica, se necessário.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



