Mãe recebe alta após 2 anos de internação, emociona hospital e reencontrará o filho em MG
Hérica Elaine Silva, de 33 anos, deixou o Hospital das Clínicas de Belo Horizonte na manhã desta sexta-feira (9) com destino à cidade de Coronel Xavier Chaves, no Campo das Vertentes, onde vai rever o filho

Emoção, lágrimas, despedida, aplausos, homenagens e a certeza de que a persistência, a medicina e a fé foram sentimentos que marcaram uma vitória da mineira Hérica Elaine Silva, de 33 anos, contra a hipertensão pulmonar. Após mais de 2 anos internada no Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, Hérica recebeu alta hospitalar na manhã desta sexta-feira (9), após 763 dias (mais de 18 mil horas), e comoveu médicos, enfermeiros, funcionários do hospital e pacientes.
A despedida teve corredor de homenagem, com violino, balões e muita emoção. A Itatiaia, que registra a luta de Hérica desde o começo, acompanhou a despedida. Durante o período de internação, o quadro de saúde apresentou momentos críticos. "Tiveram dias, sabe, que eu pensei que eu não fosse aguentar. Teve dias de até a equipe, sabe? 'Nós vamos perder a Hérica', mas deu certo", comemorou.
O maior desafio ao longo dos dois anos de internação foi o afastamento de seu filho, Bryan. “Eu saí de casa, ele tinha 10 anos, era uma criança e agora vou voltar. Ele tá com 12, um pré-adolescente. Por mais que a gente mantivesse o contato, ele vinha me visitar, fazia chamada de vídeo quase todos os dias, mas hoje eu não sei do que o meu filho realmente gosta ou do que não gosta mais, sabe? E eu acho que essa foi a parte mais difícil da internação, foi ficar longe dele”, disse Hérica, que é natural de Coronel Xavier Chaves, no Campo das Vertentes, para onde seguir acompanha da namorado Vinícius e da mãe, Maria Silva.
A batalha de Hérica começou no dia 6 de setembro de 2024, quando ela deu entrada no hospital sem imaginar que ficaria mais de dois anos internada. Nesse período, a chegou a ser transferida para o Incor, em São Paulo, para passar por um transplante, mas descobriu que não poderia receber um novo órgão devido ao painel de reatividade (indicador da presença de múltiplos anticorpos do receptor contra antígenos comuns de doadores de órgãos, aumentando o risco de rejeição do transplante). A alta só foi possível após uma longa batalha judicial para que ela tivesse acesso ao medicamento sotatercepte, que custa R$ 40 mil. Ela precisa tomar o remédio a cada 21 dias.
Até conseguir a medicação, a rotina de Hérica foi marcada por sintomas intensos e pela busca diária por estabilidade. Para suportar a rotina hospitalar e o tratamento, ela conta que buscou valorizar pequenas conquistas do dia a dia, como voltar a realizar atividades simples e poder beber água.
"Tentava pensar: é isso que eu tenho, então eu tenho que fazer ficar mais leve. E aí eu me apegava às coisas simples que eu não conseguia fazer e que já estava começando a fazer. [...] A água, eu não posso tomar muita água. Então, assim, são essas coisas, sabe? Cada golinho de água, cada coisa, uma comida que não seja do hospital".
Recomeço
Com o retorno para casa, os planos de Hérica envolvem o resgate da convivência e o cumprimento de um desejo expressado pelo próprio filho. "Eu vou aproveitar muito, ficar abraçadinha com ele, dormir junto com ele", contou. Ao perguntar ao filho o que ele gostaria de fazer primeiro no reencontro, o menino sugeriu: "Ah, ou comer um hambúrguer ou uma pizza ou batata. E aí nós vamos fazer isso".
O impacto do medicamento de alto custo
A melhora no estado de saúde de Hérica ocorreu após o início de um tratamento com sotatercepte. "O remédio, eu falo que ele foi um milagre na minha vida, sabe? Porque, com apenas quatro doses do remédio, a dose inicial, mas as outras três, eu virei outra pessoa, que eu jamais imaginaria, sabe? Voltar a ser desse jeito".
O tratamento possui custo elevado, sendo necessários R$ 40 mil por medicação. A continuidade depende de recursos do Estado ou de determinações da Justiça. Inicialmente, foi realizado o depósito referente a nove doses; contudo, será preciso solicitar a liberação de novos lotes para garantir a manutenção do tratamento pelo resto da vida.
Hérica alertou sobre o perigo de uma interrupção. “Eu preciso muito que continue, sabe, o resto da minha vida. Primeiro, eles depositaram dinheiro referente a nove doses. E aí, depois disso, tem que pedir liberação de mais. E espero que dê tudo certo, porque, até não começar com o remédio, tudo bem, mas, depois que começa e para, o efeito rebote é muito pior. Espero receber minhas doses”.
Família
A técnica de enfermagem Marcela Nunes Macedo, de 23 anos, foi a primeira profissional a recepcioná-la quando Hérica deixou o CTI e chegou ao 8º andar. Ela recorda com carinho o primeiro pedido feito pela paciente: tomar banho e lavar o cabelo.
Em entrevista à Itatiaia, Marcela destacou que a distância da família e do filho de 12 anos trouxe momentos de forte impacto emocional durante as datas festivas ao longo dos dois anos.
"A Hérica sempre sentiu muito. Aniversários, Natal, datas comemorativas, ela sempre sentiu muito, porque você imagina passar dois anos longe de casa, ainda mais tendo um filho pequeno", afirmou a profissional. Diante do isolamento prolongado, os trabalhadores da saúde assumiram um papel de acolhimento afetivo: "A gente se tornou a família dela e ela se tornou a família da gente também".
Hipertensão pulmonar
Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a hipertensão pulmonar é uma doença rara que atinge, em média, de 40 a 55 pessoas a cada 1 milhão de adultos.
A doença faz com que a pressão arterial nos pulmões seja mais alta. Apesar de poder atingir qualquer pessoa, a hipertensão arterial pulmonar é mais comum em mulheres, principalmente naquelas entre 20 e 40 anos. Além disso, até 10% dos casos de hipertensão pulmonar são causados por fatores hereditários.
Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.




