Belo Horizonte
Itatiaia

Exposição no CCBB-BH mostra sonhos, anseios e desafios dos trabalhadores brasileiros

A instalação faz parte da exposição ''Arte Subdesenvolvida'', aberta ao público até 18 de novembro, com entrada gratuita

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A exposição Arte Subdesenvolvida permanecerá aberta ao público até 18 de novembro, com entrada gratuita • Larissa Ricci/ Itatiaia

“Meu sonho é voltar para roça, reunir meus irmãos e nunca mais pisar em Betim”; “Nunca mais ter que trabalhar”; “Quitar minhas dívidas" e "Comprar a casa onde eu moro e viver em paz com meus 18 cachorros e nove gatinhos”.

Essas são algumas das respostas a partir da provocação "que sonho você realizaria se dinheiro não fosse o problema?", feita pelo artista mineiro Randolpho Lamonier. Os desejos dos trabalhadores mineiros estão registrados e instalados no pátio do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no bairro Funcionários, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. A intervenção faz parte da exposição de "Arte Subdesenvolvida", que começou nesta semana.

Assinada por Moacir dos Anjos, a mostra reúne pinturas, desenhos, filmes, fotos e instalações de quase 40 artistas que são referência da arte brasileira. As obras são respostas a problemas sociais, luta por direitos e melhores condições de trabalho (leia mais abaixo). Dividida em cinco núcleos, a mostra tem como tema comum a fome.

Randolpho Lamonier explica sua escolha para os letreiros digitais, infláveis, banners e faixas manuscritas da mostra que fica no pátio do CCBB. “Fiquei pensando em como eu poderia atravessar esse lugar do subdesenvolvimento, da ausência, da carência e da fome, mas numa chave diferente, até porque os artistas da exposição já trataram disso e deram as suas respostas. Então, pensei como fazer algo que, de alguma maneira, atualizasse essa questão”, contou.

Partindo da premissa de que, na visão do artista, as pessoas têm se tornado mais consumidores do que cidadãos, ele decidiu fazer essa provocação que resultou nas representações de sonhos de consumo de centenas de pessoas da classe trabalhadora. "São sonhos que, às vezes, vêm de um lugar do que é essencial”, disse. Uma das faixas, por exemplo, diz “Cuidar da minha Saúde”. Outras respostas, como “Eu quero um remédio para dormir até a minha morte” expõem desejos íntimos e mórbidos de pessoas vivendo no sistema capitalista.


A  exposição, com patrocínio do Banco do Brasil e BB Asset Management, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, apresenta pinturas, livros, discos, cartazes de cinema e teatro, áudios, vídeos, além de um enorme conjunto de documentos

Sonhos paulistanos x sonhos mineiros

Por ser uma obra viva, a cada cidade por onde a instalação percorrer, irá acumular novos sonhos de moradores locais. A capital mineira é a segunda cidade da exposição, que começou na capital paulista.

“Notei algumas diferenças nas respostas de São Paulo e BH. Em São Paulo, foi muito recorrente o desejo de voltar para a terra natal. Isso expõe uma característica forte da cidade de pessoas que vão para São Paulo em busca de trabalho, melhores condições de vida e que, de alguma maneira, sonham em voltar para suas raízes”, disse o arista, que se identifica com esse desejo. Nascido em Contagem (Grande BH), Randolpho mora na capital paulista há quatro anos: ''com certeza, desejo, em algum momento, voltar para Minas", acrescentou.

Em contrapartida, os desejos dos mineiros são outros: “Os sonhos de viajar, conhecer o mundo, viajar com a família, ir para a praia são recorrentes", contou. Depois de BH, a mostra segue para o Rio de Janeiro e, em seguida, Brasília.

Dos anos 30 aos anos 80

EXPOSIÇÃO ccbb.jpgDois andares acima, o acervo te leva de volta ao período pós-Segunda Guerra Mundial (1939–1945), quando países econômica e socialmente vulneráveis passaram a ser denominados “subdesenvolvidos”, e artistas e escritores começam a colocar essa questão em pauta. A exposição é divida em cinco módulos: ''Tem Gente com Fome'', ''Trabalho e Luta'', ''Mundo e Movimento'', ''Estética da Fome'' e ''O Brasil é Meu Abismo''.

Ao longo do percurso, quem visita a exposição encontra peças produzidas entre 1930 e 1980, por mais de 20 artistas brasileiros, dentre eles: Candido Portinari, Cildo Meireles, Lygia Clark e Hélio Oiticica. Registros Movimento Cultura Popular (MCP), de Recife, e do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro, mostram como política, cultura e arte andam juntas.

Produções como a Tropicália e o Cinema Novo — obras do período da ditadura militar — também aparecem e prometem emocionar. A exposição segue até 1980, quando houve a transição de nomenclatura e no debate público sobre o tema, e países antes denominados subdesenvolvidos passaram a ser chamados de emergentes ou em desenvolvimento.

Serviço: exposição 'Arte Subdesenvolvida'

  • Data: 28 de agosto a 18 de novembro de 2024
  • Local: Pátio e Galerias do 3º Andar do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte
  • Endereço: Praça da Liberdade, 450, Funcionários BH
  • Funcionamento: aberto de quarta a segunda, das 10h às 22h
  • Ingressos gratuitos: disponíveis em ccbb.com.br/bh e na bilheteria física do CCBB BH
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Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.