Da base de Cruzeiro e Atlético à Medicina: o ex-faxineiro que trocou as chuteiras pelo jaleco
Após abandonar o futebol, Bruno Santos, nascido na favela do Ressaca, trabalhou como borracheiro e faxineiro antes de ingressar em Medicina

Antes do jaleco, vieram as chuteiras. Antes dos plantões, os treinos e as faxinas. E, muito antes de ser chamado de doutor, Bruno Santos, de 28 anos, precisou percorrer um caminho que começou na comunidade do Ressaca, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, passou pelas categorias de base de Cruzeiro e Atlético e por trabalhos como borracheiro e faxineiro até chegar à faculdade de Medicina.
Recém-formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Bruno, hoje, trabalha como clínico geral na Grande Florianópolis e pode ser considerado uma exceção: dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 55% dos brasileiros se identificam como pretos (9,4%) ou pardos (46,8%), o que representa mais da metade da população do país. Apesar desse percentual, apenas cerca de 3% dos médicos no Brasil são negros, um dado que ressalta o descompasso entre a composição racial da população e a representatividade na medicina.
A conquista de Bruno encerra um ciclo de seis anos que ele define sem romantização: “Foi uma luta para entrar, foi uma luta para sair e está sendo uma luta até hoje para trabalhar como médico”. Ele decidiu cursar Medicina após ser humilhado por uma chefe quando era faxineiro em um hospital de Santa Catarina, onde já havia passado e cursado dois semestres de Matemática.
“Passei em tudo na faculdade de Matemática. Só que eu não era muito feliz, entendeu? Não gostava do que eu fazia na faculdade. E juntou que eu era muito maltratado no hospital. Eu me sentia humilhado. Lembro de um episódio que eu tinha lavado uma escada no dia anterior. Eram 10 andares de escadas. No dia seguinte, por um milagre, não tinha nada para fazer. A escada estava limpinha, mas a minha chefe fez eu limpar os dez andares da escada de novo. É o tipo de situação que te marca”, disse.

Observador, Bruno passou a prestar atenção à dinâmica do hospital e percebeu que os médicos eram muito respeitados. Essa condição, aliada às humilhações, foi determinante para que ele tentasse Medicina. Prestou o Enem e conseguiu nota para entrar em qualquer curso do Brasil, incluindo na Universidade de São Paulo (USP) e na Universiade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Infância na favela
Nascido e criado na comunidade do Ressaca, Bruno cresceu em uma região que, segundo ele, ainda tinha pouca infraestrutura durante a infância. Mesmo convivendo com a violência, guarda boas lembranças dos primeiros anos de vida.
“Eu considero que tive uma infância feliz. Eu brincava ali, soltava pipa com a galera. Tinha muita criança”, relembra.
A morte da mãe
Aos 11 anos, Bruno enfrentou uma das maiores perdas da vida. A mãe morreu aos 38 anos, vítima de um câncer de mama. Na época, ele ainda não compreendia a dimensão da doença.
“Para mim, minha mãe morreu do nada. Só que, na verdade, ela não morreu do nada. Ela lutou uns quatro anos contra a doença. Eu era criança, então não percebia as coisas que estavam acontecendo.”
Anos depois, já durante a formação médica, algumas lembranças ganharam outro significado. Bruno recorda o pai cortando o cabelo da mãe, as idas para exames e a quantidade de medicamentos que ela tomava.
A mãe trabalhava com faxina e chegou a fazer um curso para se tornar cuidadora de idosos, mas morreu antes de conseguir exercer a profissão. O pai de Bruno é vigilante e continua morando na comunidade. No entanto, não foi à formatura do filho por falta de dinheiro.
Do Ressaca às categorias de base

Foi ainda na infância que outro elemento fundamental da história de Bruno apareceu: o futebol. O garoto que jogava bola pelas ruas da comunidade chamou a atenção de moradores e passou a participar de um projeto no campo do Ressaca.
Depois, foi levado para jogar em um time de Santa Luzia, na Grande BH, onde conheceu o treinador Matias, a quem atribui parte importante da formação que carrega até hoje.
“Metade do que eu sou eu aprendi com o Matias jogando bola. Tudo que eu usei depois para passar em Medicina eu aprendi com ele. Resiliência, trabalhar duro, esforço. Isso não surgiu em mim do nada.”
Centroavante, Bruno chamou a atenção nas categorias de base e chegou ao Cruzeiro pouco depois da morte da mãe, quando tinha entre 11 e 12 anos.
A passagem pela Toca da Raposa foi seguida por uma oportunidade no rival. Após se destacar em uma partida, Bruno chamou a atenção de um observador do Atlético e foi levado para a Cidade do Galo.
Foi quando começaram as lesões. Em cerca de dois anos, Bruno estima ter se machucado quatro vezes. Teve problemas nas costas e no tornozelo e chegou a quebrar o braço durante um treinamento.
“Depois da lesão eu não consegui acompanhar a galera. Eu tentei até o último respiro”, afirma o médico, que foi dispensado da base do Galo aos 17 anos.
Ainda houve uma última tentativa. Orientado por Matias a abandonar a posição de centroavante e atuar como zagueiro, Bruno participou de uma peneira do Cruzeiro com cerca de 70 candidatos. Ele e outros dois foram selecionados.
Um mês depois, apresentou-se novamente ao clube e passou a integrar a equipe. A passagem, no entanto, durou apenas duas semanas. Uma mudança de categoria levou a um novo corte.
“Foi uma decepção enorme. Foi a primeira vez que me frustrei mesmo com o futebol”, lembra.
Dessa vez, Bruno decidiu abandonar o sonho de ser jogador profissional.
Borracheiro, lava-jato e os estudos
Longe dos gramados, Bruno começou a trabalhar. Foi borracheiro, trabalhou em lava-jato e vendeu lanches.
Os estudos, no entanto, nunca foram completamente abandonados. Aluno de escola pública, passou pela Escola Municipal Maria de Matos Silveira e pela Fundação de Ensino de Contagem (Funec).
Bruno conta que a educação sempre foi uma prioridade dentro de casa, mesmo diante das dificuldades financeiras.
A irmã mais velha também teve papel fundamental. Foi a primeira pessoa da família a concluir uma graduação, em Enfermagem, após conseguir uma bolsa pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), se formar em Belo Horizonte e mudar para Santa Catarina. Durante a trajetória do irmão, também ofereceu a ele um teto no Sul do Brasil para que pudesse continuar estudando.
Dedicação aos estudos

Foram mais de 600 dias de estudo até conseguir entrar em Medicina na UFSC. E, segundo ele, muito do que permitiu suportar a rotina veio justamente do sonho que não conseguiu realizar.
“Eu jamais conseguiria estudar mais de 600 dias direto e acreditar até o final se eu não tivesse acreditado na bola.”
‘Foi uma luta para entrar e uma luta para sair’
A entrada na universidade trouxe outros desafios. Negro e vindo da periferia da Grande BH, Bruno conta que sentiu a diferença assim que chegou a Santa Catarina.
Na turma de Medicina, segundo ele, havia apenas dois estudantes pretos retintos (pessoas negras que possuem o tom de pele mais escuro e intenso). Ao longo da graduação, relata ter enfrentado diferentes episódios de racismo.
“Quantas e quantas vezes já me perguntaram se eu era segurança? Quantas e quantas vezes não me barraram dentro da própria universidade? Na portaria, eu chegava e falava ‘eu sou aluno’ e era barrado.”
Bruno relata ainda episódios envolvendo professores e diz que situações de discriminação acompanharam os seis anos de formação. Para ele, as dificuldades não acabaram com a entrega do diploma.
“Foi uma luta diária. Não dá para romantizar. Foi uma luta para entrar, foi uma luta para sair e está sendo uma luta até hoje para trabalhar como médico.”
Formado em junho deste ano, Bruno ainda não possui vínculo fixo com um hospital. Atualmente, consegue plantões substituindo outros profissionais que precisam se ausentar.
O primeiro pagamento recebido como médico foi de R$ 1,2 mil por um plantão. O dinheiro, conta, ainda é usado para custear transporte, alimentação e outras despesas necessárias para conseguir trabalhar. “Minha vida não mudou em nada. Essa é a verdade”, afirma.
‘Esquece esse negócio de meritocracia’
Ao falar da própria trajetória, Bruno faz questão de afastar uma interpretação que poderia parecer natural diante da história: a de que chegou sozinho à Medicina.
Ele cita o apoio da família e, principalmente, as políticas públicas que permitiram o acesso e a permanência no ensino superior.
“Não teve meu esforço? Teve. Tive que me esforçar bastante? Tive. Mas, se eu não tivesse um pai que me desse o que comer, se eu não tivesse minha mãe presente até determinado momento, se eu não tivesse uma irmã que se formou e pôde me dar uma casa, um teto para morar... São pequenas coisas que fazem muita diferença.”
Bruno ingressou na universidade por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e utilizou a política de cotas.
“Esquece esse negócio de meritocracia, porque o mundo não é assim. Para sair de onde eu saí e conseguir alguma coisa, tem que ter ajuda dos outros. E, quando não é ajuda de outras pessoas, tem que vir a ajuda do governo.”
Para ele, a própria repercussão de sua história é uma demonstração da desigualdade que ainda existe no acesso à profissão.
“Você está aí fazendo essa reportagem porque, de certa forma, acha impressionante o fato de eu estar aqui. Para para pensar nisso. E é impressionante justamente porque é muito difícil. Esse é o problema. Não era para ser assim.”
O futebol ficou
Apesar de ter trocado os gramados pela Medicina, Bruno não considera que o futebol tenha ficado no passado. “Eu acho que nunca vou superar o futebol na minha vida”, admite.
O plano, caso tenha condições financeiras no futuro, é devolver a outras crianças parte da oportunidade que recebeu quando ainda era um garoto chutando bola na comunidade do Ressaca.
“Se Deus me abençoar e daqui a 10, 15 anos eu tiver condição mesmo, tiver dinheiro, eu tenho vontade de poder olhar para um menino como olharam para mim e dar uma chance para ele.”
Na Medicina, Bruno pretende fazer residência em Clínica Médica e, posteriormente, seguir para Cardiologia ou Endocrinologia.
Hoje, mora em São José, na Região Metropolitana de Florianópolis. Minas Gerais, porém, continua sendo casa. “Eu sinto falta de tudo. Das pessoas, da comida, de tudo”, diz o médico, que cresceu ouvindo a Itatiaia, especialmente os jogos do Atlético, time de coração. “Ouvi o Galo ser campeão da Libertadores pela Itatiaia.”
E, entre o menino que sonhava em viver do futebol e o médico que começa agora a construir a própria carreira, Bruno enxerga uma ligação.
“Hoje em dia eu não me sinto incapaz de fazer nada. Se um dia eu quiser ser presidente, eu acho que tenho capacidade de acreditar que posso ser presidente. Porque é o tipo de coisa que ensina coisas que você leva para o resto da vida.”
Jornalista formada pela PUC Minas, é repórter multimídia da Itatiaia com foco na editoria de Cidades. Estagiou na emissora por dois anos e atuou na Brazilian Traffic Network como repórter de trânsito em emissoras de BH. Vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo Universitário 2024 e do Intercom Sudeste 2025.
Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.




