Criminalista classifica como 'erro grotesco' a condenação de maníaco que usava nome do primo
Ronaldo Nobre dos Santos, conhecido como “Coxinha” ou “Maníaco da Zona Oeste”, é investigado por estupros em série; foragido desde 2018, ele chegou a ser preso em 2023, mas usou nome do primo para atenuar pena

Ronaldo Nobre dos Santos, conhecido como "Coxinha" ou "Maníaco da Zona Oeste", foi preso em Belo Horizonte nesta terça-feira (23). Ele é investigado por ao menos cinco estupros em série e um homicídio, todos cometidos na região Oeste da capital mineira. O criminoso era considerado foragido desde 2018, mas chegou a cumprir pena usando o nome de um primo no ano passado.
Segundo a promotora do Ministério Público de Minas Gerais, Paloma Coutinho Carballido, ele já foi condenado por outros crimes. Ele chegou a cumprir parte da pena de mais de 22 anos de prisão por um estupro, um homicídio, dois roubos, dois furtos e uma ameaça. Em 2018, ele conseguiu uma progressão para o regime semiaberto e ganhou o benefício da saidinha temporária, mas não voltou ao presídio.
É possível uma pessoa ser presa usando o nome de outra?
"Essa situação vêm expor de maneira drástica a falta de estrutura da Polícia Civil. A PC tem um déficit em realizar o exame de datiloscopia nas prisões em flagrante e preventiva. O exame só é feito quando há dúvidas da identidade do preso, mas haveria de ser uma regra. Esse é um erro básico, elementar. É um erro grosseiro e inaceitável. É revoltante. E infelizmente, a legislação é omissa quanto a isso", opina.
"Na impossibilidade de fazer o exame, e havendo dúvidas da identidade do investigado, a polícia deveria buscar um perito em outras delegacias, e utilizar de outros meios de identificação, como fotos, relatos de testemunhas, para minimizar o risco de erro", afirma o advogado.
O especialista ainda chama atenção para a sucessão de falhas da Justiça. Além da Polícia Civil ter prendido e indiciado Ronaldo com o nome errado, o Ministério Público também o denunciou sem perceber o erro. "O Ministério Público ao denunciar, verificando a possibilidade de erro, deveria ter requerido o exame imediatamente", argumenta Rodarte.
Erros podem permitir que pessoas inocentes acabem presas
O fato de Ronaldo ter sido condenado com o nome de outra pessoa, e depois fugido, fez com que o primo, que é inocente, parecesse estar em dívida com a Justiça. O primo do criminoso só não foi preso porque ao contar a história para os policiais, eles decidiram checar as fotos no sistema, e viram que o homem das imagens não se parecia com ele.
Porém, ele poderia acabar sendo preso, mesmo que fosse inocente, se o erro não tivesse sido descoberto. "Olha o risco que todos nós estamos correndo. Imagina você ou um familiar acabar na cadeia porque alguém roubou a sua identidade e se passou por você para cometer crimes? E com toda a minha experiência como advogado posso dizer que isso acontece com frequência", diz o criminalista.
'Coxinha' pode responder por falsidade ideológica
O advogado ainda explica que Ronaldo Nobre dos Santos pode responder pelo crime de falsidade ideológica, cuja pena é de 1 a 5 anos de prisão. Ele afirma que é dever do MP o denunciar por mais esse crime.
"Essa é uma ação incondicionada, ou seja, ela deve acontecer independentemente da vítima ser encontrada ou da vítima querer denunciar quem se passou por ela. O Ministério Público deve fazer isso, senão ele estará cometendo uma prevaricação de autoridade (deixar de praticar um ato de ofício)".
A vítima, o primo de Ronaldo, também pode processar o estado pela confusão. "Ele pode abrir um processo contra o estado e pedir indenização por danos morais. Não há um valor estipulado, cabe ao judiciário estabelecer a quantia a depender da situação, de como a vida da vítima foi afetada", conclui.
Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.


