Cotas trans na UFMG são aprovadas em votação: ‘Demanda histórica’

Votação ocorreu no início da noite dessa quinta-feira (5) e aprovou a reserva de uma vaga por curso para pessoas trans

Diretório Central dos Estudantes comemorou aprovação das cotas trans na UFMG

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aprovou a implementação de cotas para pessoas trans em cursos de graduação e pós-graduação após votação realizada no início da noite dessa quinta-feira (5) pelo Conselho Universitário da instituição.

O grupo responsável pela votação é formado pela reitoria da universidade, diretores das unidades acadêmicas, diretores-gerais, um professor de cada unidade, além de outros conjuntos formados pelo corpo de docentes e técnicos-administrativos da UFMG.

A proposta foi construída em conjunto pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), a Coletiva Cintura Fina, que representa pessoas trans, travestis, não-bináries, agênero e intersexo da UFMG, e a Comissão Permanente de Diversidade de Gênero e Sexualidade, instituída pela universidade em fevereiro de 2025.

Inicialmente, o desejo das entidades era a destinação de 2% das vagas exclusivamente para pessoas trans, entretanto, em votação realizada anteriormente pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da UFMG, foi realizada a redução para uma vaga por curso.

Sol Martins, estudante de Filosofia da UFMG e militante da Cintura Fina participante na elaboração da minuta inicial do projeto, disse que as mobilizações continuam a fim de garantir a permanência destes estudantes cotistas na universidade.

“Muito importante a aprovação das cotas e que ela foi resultado de muita mobilização dos estudantes e Movimentos Sociais. Mas as cotas nunca foram um fim em si mesmo e, mesmo reconhecendo a importância da aprovação, precisamos combater desinformação sobre a política, monitorar e garantir que a política seja de fato implementada”, destacou.

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A medida de adoção das cotas trans já foi aprovada em 38 universidades federais, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), sendo quatro em Minas Gerais: a Universidade Federal de Lavras (UFLA), pioneira no estado; Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM); e a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).

Para Lorrayne Lourença, conhecida como Lorradama, coordenadora geral do DCE da UFMG, a aprovação em votação representa uma “demanda histórica”, mas “aumenta o patamar” do trabalho que deve ser desenvolvido pelo movimento estudantil.

“[Devem haver mudanças] em relação a banheiros, ao acolhimento dos próprios funcionários da instituição, então é um processo educativo. É também um papel, né da comunidade universitária, então não só os estudantes, mas toda a comunidade universitária de fazer com que essa política saia da universidade e que as pessoas consigam acessar ela”, afirmou Lorradama.

A universitária ainda destaca que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo e a implementação do projeto deve prever também medidas que colaborem na manutenção e continuidade destas pessoas na universidade. Segundo a Antra, foram 85 assassinatos em 2025, com predominância de casos em Minas Gerais e Ceará, com 8 ocorrências cada.

Parte do corpo docente se posicionou contra a medida

Um coletivo de professores e técnicos-administrativos (TAs) da UFMG, denominado “Pela Integridade da Política de Acesso”, publicou um manifesto contrário à adoção de cotas trans pela universidade e pela realização de uma votação com votos secretos, sem identificar docentes simpáticos e antagônicos à proposta.

“A proposta de criação de vagas adicionais para pessoas autodeclaradas trans carece de fundamento empírico e compromete a coerência e a integridade das políticas de ação afirmativa da universidade. Por isso, nós que aqui assinamos manifestamos nossa posição contrária à sua aprovação”, afirma o grupo em cabeçalho de formulário voltado para o corpo docente e administrativo da instituição que deseja derrubar a medida.

Em imagens obtidas pela Itatiaia, é possível identificar um email disparado para os professores e TAs da UFMG com o assunto “Por um debate democrático e rigoroso pelas cotas trans”. O corpo da mensagem relata supostas “ações violentas do movimento pró-cotas trans contra conselheiros e conselheiras, atitudes atrozes e injustificáveis de incivilidade e barbárie”.

Corpo do email obtido pela Itatiaia

O texto, contrário à aprovação do projeto e que realiza afronta à atuação do movimento estudantil que comanda o processo, consta com assinatura de grupo de professores e TAs não identificados

Final do email disparado pelo grupo

UFMG divulga nota sobre cotas trans

“Após amplo debate com a comunidade acadêmica, o Conselho Universitário da UFMG aprovou por unanimidade nesta quinta-feira, 5 de março, resolução que estabelece a adoção das chamadas “cotas trans” nos cursos de graduação. Na UFMG, elas serão implantadas por meio da criação de vagas adicionais para pessoas trans e travestis.

A resolução estabelece a criação de, no mínimo, uma vaga adicional por entrada (semestral ou anual) de cada curso da UFMG para pessoas autodeclaradas trans ou travestis, que tenham 18 anos completos no momento da matrícula e renda familiar de até 1 salário mínimo per capita. Será constituída uma comissão para verificar a aptidão das pessoas candidatas à política de ação afirmativa. Os critérios detalhados serão apresentados posteriormente em edital específico.

O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da UFMG, por sua vez, também aprovou, no último dia 26 de fevereiro, resolução que institui vagas adicionais para pessoas trans e travestis nos cursos de pós-graduação da Universidade. Conforme a resolução, os programas de pós-graduação devem publicar editais suplementares nos processos seletivos para ingresso a partir de 2027, destinando ao menos uma vaga adicional em cada curso para pessoas trans e travestis.”

(Sob supervisão de Alex Araújo)

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Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.

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