Aos 96 anos, idosa mantém rotina de trabalho e desafia estereótipos sobre o envelhecimento
Wanda Pedrosa passou a cozinhar bolos e doces, comercializando-os no empreendimento da filha, e começou a contribuir em um trabalho voluntário semanalmente após a terceira idade — atividades que a ajudam a se manter saudável e ativa

Já imaginou ser uma pessoa ativa e trabalhar, por escolha própria, mesmo após os 90 anos? Wanda Pedrosa, com recém-completados 96 anos no último domingo (23), mantém uma rotina que desafia os estereótipos associados ao envelhecimento. Independente, ela continua responsável pelas próprias atividades e preserva uma autonomia que se torna cada vez mais desafiadora nas idades mais avançadas.
A história pessoal integra uma transformação maior: Minas Gerais envelhece rapidamente e já tem quase uma pessoa com 60 anos ou mais para cada 100 crianças e adolescentes, segundo o Censo Demográfico de 2022, levantamento mais recente realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Estou feliz em completar 96 anos, porque se eu tivesse dependendo das pessoas, não valeria a pena. Estou independente, cuido da minha rotina, faço o meu trabalho. Vamos reunir a família em um restaurante para comemorar, vão os filhos, genros, noras, netos, bisnetos…”, disse Wanda em entrevista à Itatiaia.
Destacando a importância de procurar atividades para se manter saudável e ativa, Wanda contou que, há alguns anos, passou a cozinhar bolos e doces, comercializando-os no empreendimento da filha, Cláudia Batista. Além disso, a rotina também conta com um encontro semanal para se reunir com outras idosas e bordar panos de pratos.
A necessidade de se movimentar veio à tona com o passar do tempo. Após 53 anos de casamento, o marido de Wanda faleceu e ela decidiu que precisava cuidar de si mesma. “Fui dona de casa, meu marido era médico. Fiquei em casa cuidando das crianças, tive seis filhos. Foi um casamento muito feliz, não tivemos nenhum problema. Meu marido era de Uberlândia e toda família dele veio para BH estudar, a casa ficava cheia”, relatou.
Enquanto dona de casa, Wanda sempre esteve presente na cozinha, com uma paixão especial pela confeitaria. “Nessa época eu fazia de tudo, porque tinha criança em casa, né? Não fazia para vender, mas cozinhava doces, bolos, biscoitos…” — e, sem imaginar, a atividade se tornou um pilar essencial para se manter ativa e independente.
A comercialização dos bolos e doces começou em 2024. “Fico à toa em casa, sem ter o que fazer. Percebi que preciso ocupar o tempo e está dando certo. Faço bolo de laranja, chocolate, cenoura, coco, qualquer sabor!”, contou Wanda. Hoje, a rotina de produção dos alimentos faz parte da rotina.
Além disso, durante às tardes das terças-feiras, Wanda participa de um trabalho voluntário e borda panos de pratos, junto à um grupo de aproximadamente 20 pessoas. “Lá tenho muitas colegas, muitas amigas, tudo mais ou menos ‘véia’ igual eu”, brincou Wanda. “É muito divertido, é muito alegre”, acrescentou.
“Enquanto eu tiver saúde, vou continuar. Ficar parada é muito pior. Então, enquanto eu me sentir bem, vou continuar fazendo os bolos e o trabalho voluntário. [A venda] é uma pequena fonte de renda que a gente tem, mas o principal é que tenho prazer em fazer. Faço com muito carinho, muito amor, querendo fazer sempre o melhor. Eu gosto, me sinto muito bem”, finalizou.

Sem preguiça e muita positividade
Em entrevista à Itatiaia, a filha de Wanda, Cláudia Batista, de 61 anos, contou que admira duas características na mãe: zero preguiça e muita positividade. Cláudia é quem disponibilizou o próprio comércio, uma papelaria na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, como um espaço para vender os bolos e doces feitos por Wanda.
“Minha mãe é uma pessoa que não tem preguiça. Qualquer hora que você precisar dela para costurar, para consertar uma calça, para fazer um bolo, para fazer uma sobremesa, ela faz e não tem preguiça nenhuma. Eu queria ser assim (risos)”, disse Cláudia. “Ela também é muito positiva, sempre fala: ‘não precisa preocupar, deixa as coisas acontecer e depois a gente sofre’. Acho que isso ajuda a cabeça”, acrescentou.

Longevidade da população no Brasil aumentou, mas como preservar a qualidade de vida?
A longevidade da população do país aumentou 31,1 anos nas últimas nove décadas, segundo o IBGE — passando de 45,5 anos em 1940, para 76,6 anos em 2024. Entretanto, dados divulgados no último levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 2019, alertam que viver mais não significa necessariamente envelhecer com autonomia.
De acordo com o PNS 2019, uma parcela significativa dos idosos enfrenta limitações no cotidiano: 9,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais, cerca de 3,3 milhões de pessoas, apresentaram limitações para realizar atividades básicas da vida diária, como se vestir, tomar banho, se alimentar ou se movimentar, por exemplo. O percentual sobe para 18,5% entre pessoas com 75 anos ou mais.
Além disso, 20,4% dos idosos entrevistados tinham limitações para atividades mais complexas e ligadas à autonomia, como fazer compras, cozinhar, lidar com dinheiro, usar telefone ou transporte, e o número aumenta para 43,2% entre aqueles com 75 anos ou mais. Os indicativos expõem como a discussão sobre qualidade de vida na velhice está diretamente ligada à prevenção, mobilidade, acesso à saúde e manutenção da independência.
A vida social ativa é um dos pilares centrais para o envelhecimento saudável. Manter bons laços com amigos, familiares e a comunidade protege a saúde mental, reduz o risco de doenças e aumenta o tempo de vida com qualidade — hábito que Wanda Pedrosa contou acreditar que talvez seja o segredo para completar 96 anos de maneira saudável.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.
Graduanda em Jornalismo pela UFMG, Maria Eduarda é estagiária do Portal Itatiaia. Apaixonada pela comunicação e dedicada a conhecer e contar histórias, possui experiência na redação da TV Alterosa, dos Diários Associados.




