120 anos da Araujo: fundador dormia ao lado da unidade para atender 24h
Fundada em 1906, quando Belo Horizonte ainda começava a se firmar como capital, rede chegou a 65 cidades, ultrapassou 360 lojas e segue sob comando da família fundadora, sem franquias
No dia 20 de março de 1906, quando Belo Horizonte ainda era uma capital bem jovem, uma pequena farmácia abriu as portas no Centro da cidade. Ao longo de 120 anos, o estabelecimento cresceu, chegou a 65 cidades, ultrapassou 360 lojas, reúne cerca de 12 mil funcionários e projeta faturar R$ 5,96 bilhões em 2026. Mesmo com esse tamanho, a Drogaria Araujo continua nas mãos da família fundadora, hoje na quarta geração, e sem adotar o modelo de franquias.
Para chegar até aí, muita coisa aconteceu. Em entrevista à Itatiaia nesta sexta-feira (20), o presidente da Araujo, Modesto Araujo, neto de Modesto Carvalho de Araujo, relembrou um dos marcos da história da empresa: o atendimento 24 horas, iniciado em 1933, quando o fundador dormia ao lado da farmácia para atender a vizinhança. Depois, vieram as entregas feitas em fuscas.
Modesto era um jovem balconista, que chegou à farmácia aos 17 anos para aprender o ofício e acabou enxergando ali seu projeto de vida. Trabalhando diretamente na manipulação de medicamentos e no atendimento ao público, ele percebeu o potencial de uma cidade em expansão e transformou essa experiência inicial no embrião de um negócio que atravessaria gerações
A primeira loja foi aberta na Praça Rio Branco, no hipercentro da cidade, de forma estratégica, porque o fundador já apostava que aquela região seria uma das mais movimentadas da cidade.
"Era uma farmácia pequena, com balcão tradicional, atendimento muito próximo e forte atuação farmacêutica. Naquele tempo, a farmácia era também um espaço de orientação em saúde", contou. No primeiro anúncio feito no jornal Minas Gerais mostra: ''Consultas médicas grátis de 8 as 11 horas da manha''.
A campainha ao lado da cama
Na medida que a cidade crescia, as demandas relacionadas á saúde também aumentavam. Modesto lembrou que um dos marcos da Araujo é o atendimento 24 horas, iniciado em 1933, quando o fundador dormia ao lado da farmácia para atender a vizinhança.
"Durante a madrugada, uma campainha instalada ao lado da cama do Modesto anunciava a chegada de quem precisava de atendimento urgente. Modesto se levantava, atravessava a loja silenciosa e abria a porta. O gesto, repetido inúmeras vezes, transformou para sempre a relação entre farmácia e cidade", contou.
À direita, anúncio publicado no jornal Minas Gerais em 7 de setembro de 1927. À esquerda, fuscas usados nas entregas • Arquivo pessoal
O fusca que marcou gerações
A história da Araujo é marcada por uma série de “primeiras vezes”. Em 1963, a empresa criou o Drogatel, um serviço de atendimento por telefone que mudou a forma de vender e entregar produtos.
Mais tarde, Modesto contou que passou a investir em lojas com autosserviço, em que o cliente podia circular e escolher itens nas prateleiras. Em 1998, abriu o primeiro drive-thru farmacêutico do país, na avenida Cristiano Machado.
A Araujo foi pioneira ao incorporar o conceito de drugstore, ampliando o mix de produtos e transformando a farmácia em um espaço integrado que permite que o cliente encontre tudo o que precisa em um único lugar. A empresa inovou ainda ao adotar o autosserviço, permitindo que clientes circulassem pelos corredores e escolhessem produtos diretamente nas prateleiras – algo incomum à época, especialmente em perfumaria e conveniência. Em 1998, inaugurou na Avenida Cristiano Machado o primeiro drive-thru farmacêutico do Brasil, antecipando um modelo que depois se consolidaria no varejo nacional.
Dessa fase também ficou conhecido o Fusca usado nas entregas, que acabou virando uma imagem marcante da empresa.
''O Fusca não pertence à fase inicial da fundação, mas representa um período muito simbólico da história operacional da Araujo: a consolidação das entregas e da proximidade com o cliente. Em 1963, a empresa lançou o Drogatel Araujo, considerado o primeiro serviço estruturado de telemarketing do Brasil. A possibilidade de ligar para a drogaria e receber medicamentos em casa era inovadora para a época e respondia a uma necessidade concreta de conveniência e acesso à saúde'', e ainda contou que a Araujo foi a primeira farmácia brasileira a realizar vendas pelo WhatsApp.
• Arquivo
O futuro
Modesto Araujo disse que imagina a empresa, daqui a 120 anos, ainda mais presente na vida das pessoas e cercada por tecnologias que hoje ainda nem dá para imaginar.
“Daqui a 120 anos, imagino uma empresa ainda mais integrada à vida das pessoas, provavelmente com tecnologias que hoje nem conseguimos prever, mas mantendo algo que não muda: ser lembrada como um lugar de confiança, onde o cliente encontra o que procura, com cuidado e acolhimento. Porque a tecnologia muda, os formatos mudam, mas a confiança continua sendo o maior patrimônio de uma marca”, finalizou.
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.