Desenhos de criança revelam abusos e levam à prisão de seis pessoas no ES
Um dos casos veio à tona por meio de desenhos feitos por uma criança de sete anos. A menina passou a desenhar órgãos genitais masculinos, o que chamou a atenção de um estagiário da escola onde estudava

A Polícia Civil do Espírito Santo prendeu seis pessoas suspeitas de estupro de vulnerável, ameaça e maus-tratos contra crianças e adolescentes na Grande Vitória. As prisões foram realizadas durante a segunda fase da operação Infância Protegida e divulgadas na segunda-feira (26).
Entre os detidos estão cinco homens, com idades entre 40 e 80 anos, e uma mulher de 26 anos. Os casos envolvem vítimas em três municípios: Serra, Vitória e Cariacica.
Como os crimes foram descobertos
Um dos casos veio à tona por meio de desenhos feitos por uma criança de sete anos. A menina passou a desenhar órgãos genitais masculinos, o que chamou a atenção de um estagiário da escola onde estudava. O profissional acionou uma psicóloga da instituição, que realizou uma escuta especializada e encaminhou um relatório à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).
"Uma das vítimas, de apenas sete anos, começou a desenhar órgãos genitais masculinos, e isso chamou a atenção de um estagiário da escola, que procurou uma psicóloga que atua na escola. Essa psicóloga enviou um relatório detalhado à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), informando que, na escuta realizada por ela, a criança revelou que sofria abusos do genitor", explicou a delegada adjunta da DPCA, Thais Cruz. A mãe da criança procurou a delegacia depois de ser acionada pelo Conselho Tutelar.
A apuração revelou que o pai da menina também abusou de duas irmãs dela e de uma amiga. Uma das irmãs, de 15 anos, relatou à equipe policial que sofria abuso sexual cometido pelo padrasto. Uma colega da adolescente confirmou ter sido abusada pelo mesmo homem quando visitava a casa. Segundo a investigação, ele se valia da vulnerabilidade financeira da família e oferecia dinheiro, objetos e um celular para cometer os crimes.
A investigação também identificou a irmã mais velha, hoje maior de 18 anos, como vítima. Ela disse ter sofrido abusos do padrasto entre os 12 e os 14 anos, mas não os denunciou por receio de comprometer a situação financeira da família, uma vez que ele era o único provedor. O homem negou ter cometido crimes sexuais contra as vítimas.
Outros casos na Grande Vitória
Em Vitória, uma adolescente de 13 anos contou a uma professora de confiança que sofria abusos do pai enquanto a mãe saía para trabalhar. A mãe procurou a polícia em março deste ano. O suspeito foi localizado e preso preventivamente em Cariacica na semana anterior à divulgação do caso. Ao ser interrogado, negou os atos, mas alegou ter esquizofrenia e afirmou que, quando entrava em surto, "as vozes" mandavam que cometesse os crimes.
Em Cariacica, em junho, uma mulher soube pela filha de 15 anos que ela era vítima de violência sexual por parte do padrasto desde os sete anos. O delegado adjunto da DPCA, Júlio Cesar Cortina, afirmou que os abusos teriam começado com outros atos de natureza sexual e evoluído para relações sexuais após a menina completar 12 anos.
"A partir do momento que foi feito o registro desse boletim, encaminhamos a vítima ao setor psicossocial e ela confirmou todos os abusos, relatando que aconteciam dentro da residência que habitavam na época, principalmente quando a genitora estava ausente para trabalhar ou fazer alguma outra coisa na rua", relatou Cortina.
A adolescente disse que não havia revelado os abusos antes por causa da pressão e da violência psicológica exercida pelo suspeito. Ele era o único da família com trabalho formal e ameaçava que, se ela contasse, as três ficariam sem sustento. Os abusos vieram à tona em junho, quando a mãe comentou com a filha que pensava em reatar o relacionamento com o ex-companheiro, após uma separação motivada por desentendimento. Segundo os relatos, os crimes teriam começado em 2019. O suspeito negou as acusações.
Alerta sobre sinais de abuso
O delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno, pediu que familiares e pessoas próximas a crianças e adolescentes fiquem atentos a mudanças repentinas de comportamento.
"Percebemos que a maioria desses crimes ocorre em ambiente residencial, familiar, onde o agressor se utiliza da condição de confiança que tem. Às vezes é o próprio pai, o padrasto, um tio, um amigo da família. E, se valendo dessa confiança e dessa proximidade, o abusador começa a assediar as crianças e podem chegar a extremos, como o estupro. Temos que ter muito cuidado porque esse tipo de conduta perversa, além de tudo, gera traumas significativos que as vítimas carregam por toda vida", afirmou Jordano Bruno.
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