“Direito negado ao nascer”, diz descendente de hansenianos da Colônia Santa Izabel
Por anos, milhares de brasileiros diagnosticados com hanseníase foram separados de seus filhos; crianças cresceram em situação de vulnerabilidade social

Thiago Flores é morador do bairro colonia de Santa Isabel, local que surgiu da libertação de diversos pacientes do antigo Hospital-colônia que leva o mesmo nome da região. Fato pouco conhecido pela população brasileira, o bairro e a instituição eram locais onde ficavam isoladas as pessoas que receberam o diagnóstico de hanseníase no século passado. Lá, elas eram vítimas da segregação imposta pelo estado brasileiro e que gerou impactos irreversíveis aos pacientes e aos familiares deles.
Hoje, diretor jurídico do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Flores, se sente aliviado após o governo brasileiro expandir, nesta terça-feira (17), a pensão para outras vítimas de internação compulsória e os filhos delas. Ele é filho de Nelson Flores, uma das milhares de pessoas internadas no Hospital-Colônia Santa Izabel, localizado em Betim, na Grande BH.
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Antes desse decreto, apenas as pessoas internadas compulsoriamente em hospitais-colônia tinham direito à pensão. Até então, estavam de fora do benefício outros indivíduos que também foram impactados pela política segregatória, como os filhos dos pacientes e pessoas que foram isoladas em domicílios e em seringais.
De 1920 a 1986, brasileiros diagnosticados com hanseníase, doença conhecida pejorativamente como lepra, eram isolados compulsoriamente em hospitais-colônia. Nesse contexto, filhos eram separados dos pais e, de acordo com dados da Morhan, hoje existem mais de 16 mil brasileiros separadas pela doença.
"Assim que nasceram, tiveram seus direitos violados"
Para Thiago, o decreto vai trazer dignidade e inclusão para as pessoas afetadas pela segregação. "Dinheiro nenhum paga o sofrimento, mas garante um pouco de qualidade de vida para quem foi abandonado pelo Estado", comenta à Itatiaia.
Thiago, que é filho de um casal que teve hanseníase, mas que não foi separado dos pais, comenta que os indivíduos retirados das famílias foram gravemente impactados tanto pelo preconceito quanto pela negligência do estado. "Essas pessoas, além de serem criadas de forma coletiva, sem os cuidados básicos necessários, nas instituições, só tinham acesso até a 4° série e a sociedade não aceitava que eles fossem estudar em outros colégios externos às instituições", explica.
A Colônia Santa Izabel
Criado em 1921, o Hospital-colônia de Santa Isabel, funcionou como um 'leprosário', onde pessoas diagnosticadas com hanseníase eram internadas compulsoriamente. Segundo dados do local, apenas em 1937, a colônia chegou a abrigar 3.886 pacientes que ficavam trancados no local, sem o direito sair.
Somente em 1965, os internos tiveram permissão do estado para sair da instituição. Mas, mesmo assim, muitos não foram embora porque acreditavam que não seriam aceitos na sociedade. E, de fato, não foram.
A segregação das pessoas que vivam no local era tanta, que os ex-pacientes se acomodaram em terrenos próximos à colônia e, dessa forma, surgiu o bairro que leva o mesmo nome da instituição. A região ficou marcada entre os moradores de Betim como o local dos portadores de hanseníase, visão que contribui para o preconceito e discriminação.
"Na década de 60, 70 e início dos anos 1980, as pessoas de Santa Isabel não frequentavam a cidade de Betim por causa do preconceito e da discriminação. Nem os ônibus de Betim ou das cidades vizinhas, como Bicas e Igarapé paravam na região", comenta Thiago.
Hoje, a instituição é chamada de Casa de Saúde Santa Izabel e ainda tem pacientes internados no local. Por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a instituição oferece atendimento voltado para reabilitação, cuidados prolongados e atenção aos pacientes crônicos e idosos.
Ana Luisa Sales é jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na Itatiaia desde 2022, já passou por empresas como ArcelorMittal e Record TV Minas. Atualmente, escreve para as editorias de cidades, saúde e entretenimento



