'Nota mil não significa um texto perfeito', diz professora sobre nota da redação do Enem 2023
Total de alunos que atingiram nota máxima na redação é o maior desde 2016, veja hipóteses
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023 teve o maior número de redações nota mil desde 2016. No último exame, 60 candidatos conseguiram alcançar a nota máxima, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O tema foi: "Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. Em 2016, há sete anos, 77 pessoas conseguiram o feito.
Porém, desde 2017, a quantidade de redações nota mil caiu ano a ano, chegando ao menor número em 2022, quando apenas 19 textos alcançaram a nota máxima. De acordo com a professora e pesquisadora do Centro de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Márcia Mendonça, há algumas hipóteses para explicar o aumento.
"A primeira hipótese é o próprio tema proposto. Não é um tema presente só nas aulas de atualidades, mas está no dia a dia dos candidatos. Ele está na família, nos amigos, na mídia, nas produções culturais. É um tema atual e presente na vida dos candidatos. Esse pode ter sido um dos fatores para que mais pessoas conseguissem a nota mil", aponta.
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A pesquisadora também elenca outros dois fatores: o investimento na preparação para o exame e a retomada do ensino presencial.
"A nota do Enem não vale apenas para o Sisu (Sistema de Seleção Unificada). Ela vale para outros processos seletivos e vestibulares, como o da USP (Universidade de São Paulo), Unicamp e para o Prouni (Programa Universidade Para Todos). Isso pode ter levado as pessoas a investirem mais na preparação para a prova. A gente também viveu quatro anos de efeitos da pandemia. O ensino remoto e on-line foi muito complicado para os alunos e professores. Ele não teve o mesmo sucesso da interação presencial. [O aumento do número de notas] pode ser o processo de escolarização voltando ao normal", opina.
Nota mil não é sinônimo de perfeição
Apesar do número de redações nota mil ter crescido em 2023, ele ainda é pouco representativo frente aos 2,7 milhões de candidatos que fizeram as provas do Enem no ano passado. Todos os anos, alcançar a nota máxima é privilégio de um seleto grupo, por isso, é considerado um feito impressionante. Mas Mendonça acredita que não exista tanta diferença entre uma nota considerada alta (acima de 900) e o tão sonhado mil.
"A nota mil não significa um texto perfeito. Ela impressiona, mas é um patamar considerado apenas um pouco acima das outras notas altas, como acima de 900. A gente vê bons textos que não são nota mil. Às vezes, se você fizer um ajuste mínimo, a nota já sobe 100 pontos. Por isso, a diferença entre a nota mil e a 900 não é tão grande assim. Isso precisa ser relativizado", diz.
Ainda de acordo com a professora, a natureza dos critérios de avaliação não permite que mais alunos consigam tirar a nota máxima. Segundo ela, o Inep aplica um critério de discriminação dos candidatos, ou seja, ele separa as pessoas em grupos, conforme o desempenho delas. Mendonça acredita que a diferenciação da nota da redação é necessária para manter essa separação de grupos.
Desempenho escolar deve ser observado em relação à média de notas
A nota do Enem costuma refletir o cenário da educação brasileira. Porém, devido à baixa quantidade de redações nota mil, é difícil associar o aumento do número de notas máximas a uma melhora do ensino. Segundo Mendonça, essa correlação faz mais sentido se observarmos a média das notas das provas objetivas e da redação.
"A gente deve olhar para a média de notas, porque ela sim é um indicador. Se ela aumenta, quer dizer que houve uma melhora nos processos de aprendizagem, na escolarização. [Para fazer esta análise], eu deslocaria o olhar para a média das provas objetivas. Ver quantas perguntas fáceis, consideradas básicas, as pessoas acertaram", afirma.
Menos de 10% das redações nota mil são de alunos da escola pública
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"As escolas privadas e públicas são dois grupos heterogêneos. A gente tem a tendência de achar que são homogêneos, mas não são. Essas escolas de elite são a minoria das escolas privadas. Temos escolas públicas, como os institutos federais, que costumam ter um desempenho melhor que a maioria das privadas. Mas, a grande parte das escolas públicas não equivalem a essa estrutura dos institutos federais", finaliza.
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Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.


