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Mulher trans é condenada a mais de 4 anos de prisão por matar homem que agrediu amiga

Juiz entendeu que houve tempo suficiente para que a acusada refletisse sobre a ação; a defesa de Elizabethy Kadory informou que pretende recorrer da decisão

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Ítalo Valentim da Silva • Reprodução

A Justiça do Acre condenou Elizabethy Kadory de Medeiros Oliveira a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto pela morte de Ítalo Valentim da Silva, ocorrida em março de 2025, no município de Brasiléia, interior do estado do Acre.

Elizabethy, que é uma mulher trans, respondia ao processo em prisão domiciliar desde abril do ano passado. O julgamento foi realizado na Vara Criminal de Brasiléia, e a sentença foi divulgada no último dia 5 de maio.

A defesa informou que pretende recorrer da decisão.

Em nota enviada a reportagem do G1, o advogado Sanderson Mariano afirmou que discorda de pontos da sentença e que já apresentou embargos de declaração para pedir esclarecimentos sobre aspectos que, segundo ele, não teriam sido devidamente analisados pela Justiça.

Entenda o caso

Segundo o processo, o crime ocorreu na madrugada do dia 8 de março de 2025, na residência de Elizabethy, no bairro Eldorado.

Ítalo teria discutido e agredido a companheira, que era amiga próxima da acusada. Ao tentar defender a mulher, Elizabethy expulsou o homem da casa.

Ainda de acordo com os autos, após deixar o imóvel, Ítalo teria se exaltado e batido o carro contra o portão da residência. Nesse momento, Elizabethy atingiu a vítima com uma facada na coxa esquerda.

O homem sofreu um choque hipovolêmico (perda severa de sangue ou fluidos corporais) e morreu no local. A denúncia contra Elizabethy foi aceita pela Justiça em agosto de 2025.

O que levou à condenação

Na sentença, o juiz Jose Leite de Paula Neto entendeu que houve tempo suficiente entre a discussão inicial e o golpe fatal para que a acusada refletisse sobre a ação.

Segundo o magistrado, Elizabethy teria ido até a cozinha buscar a faca utilizada no crime e escondido o objeto após o ocorrido. Para a Justiça, isso afastaria a hipótese de legítima defesa imediata.

A decisão aponta que o homicídio ocorreu em contexto de “violenta emoção”, mas também descreve a atitude como uma “retaliação calculada”.

Além da pena de prisão, Elizabethy foi condenada ao pagamento de R$ 10 mil por danos morais à família da vítima.

Mensagem após o crime foi citada pelo juiz

Outro ponto destacado na decisão judicial foi uma conversa atribuída à acusada após o homicídio.

Segundo informações, uma captura de tela de mensagens de WhatsApp mostra Elizabethy dizendo que teria passado a língua na faca usada no crime ainda suja de sangue.

Ao mencionar o episódio na sentença, o juiz afirmou que a atitude seria incompatível com alguém agindo em legítima defesa.

“Indica, na verdade, satisfação ou desprezo”, escreveu o magistrado na decisão.

Nota da defesa de Elizabethy

A defesa informa que respeita a decisão judicial, mas discorda de pontos relevantes da sentença e irá recorrer. Inclusive, já foram apresentados embargos de declaração, pedindo que o Juízo esclareça pontos que, no entendimento da defesa, não foram devidamente analisados.

O principal ponto é que o caso deve ser examinado dentro de todo o contexto dos fatos, especialmente quanto à tese de legítima defesa, inclusive em proteção de terceira pessoa. A defesa sustenta que houve uma sequência de agressões, tentativa de invasão do imóvel e situação de risco concreto, circunstâncias que precisam ser consideradas de forma completa.

Por ora, a defesa seguirá tratando o caso nos autos, com respeito ao Poder Judiciário, mas confiante de que os recursos cabíveis permitirão uma reavaliação mais ampla da situação.

 

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Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu conteúdos para as editorias Turismo, Gastronomia e Emprego/ Concursos. Atualmente, colabora com as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo.