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Do 'meme' ao posicionamento político: entenda como o 'X' influenciou a memória coletiva brasileira

Desde 2006, o 'X' armazena fragmentos de momentos importantes para milhões de brasileiros, que agora se sentem “órfãos” com a suspensão da plataforma

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Rede social apresentou instabilidade nesta sexta-feira (16) • Reprodução

Desde sábado (31), milhões de brasileiros perderam o acesso à rede social 'X', conhecida como 'Twitter', devido à decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de suspender o serviço enquanto Elon Musk não indicar um representante legal no Brasil.

A medida levou milhares de internautas a reclamar em outras redes sociais que estão 'órfãos' da interação proporcionada pelo X e que virou parte do cotidiano dos usuários de internet no país.

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O sentimento confundido com luto por 9,3 milhões de brasileiros que eram ativos na plataforma se relaciona com o fato do 'X' há anos servir como um repositório de memórias pessoais e acontecimentos históricos. Da Anitta antes da fama ao comentário de anônimos durante a novela ou o jogo de futebol, os desabafos e reclamações infinitas - o cotidiano de boa parte da internet brasileira está arquivado no 'X' de uma forma que nem o Instagram nem o Facebook conseguem armazenar. Memória que pode ser perdida caso a rede não atenda à legislação brasileira e tenha a punição revertida.

Usuário do 'X' desde 2010, o criador de conteúdo Matheus Laneri, um dos donos da página "O Brasil que deu Certo", conta que o fim da rede social no Brasil traz um sentimento de perda muito grande. "É um pouco triste porque costumava fazer parte durante tantos anos da vida. Já até escondi o app no celular para evitar ficar clicando nele por uma questão automática. Estou sentindo falta de acompanhar as notícias ali na hora", conta.

Nos primórdios, o 'X' foi utilizado pelas pessoas para compartilhar banalidades do dia a dia e foi uma das primeiras redes em que fãs conseguiram interagir com figuras famosas, inacessíveis de outro modo. A simplicidade nas interações fez com que a falta de filtros e a sensação de liberdade na plataforma fortalecesse a cultura dos 'memes' no Brasil. Essas representações traziam comicidade para assuntos complexos e reformulavam a percepção coletiva sobre temas relevantes. De certa forma, o Twitter ajudou a moldar a memória coletiva brasileira dos últimos anos.

"O Twitter foi com o tempo foi se tornando um local de posicionamento político e de celebridades. Ele era um ambiente muito aberto para a informalidade, para muitas trocas engraçadas e despojadas e, ao mesmo tempo, um lugar de referência para veículos jornalísticos, para instituições e políticos. Isso fez do 'Twitter' um local muito singular", comenta o professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais, Carlos d’Andréa.

Relembre os 'memes' abaixo.

Acesso a informação de forma quase instantânea

Para d'Andréa, a ferramenta de busca e de acompanhamento quase instantâneo dos fatos era um diferencial muito grande da plataforma. "O 'Twitter' se consolidou como um lugar de buscar informações sobre coisas que estão acontecendo no momento. Ele era mais aberto para ideia de buscar e encontrar coisas que não estavam necessariamente vinculadas com as pessoas que as pessoas seguiam. Então, as elas buscavam informações sobre assuntos cotidianos, como trânsito, acidentes, futebol e notícias em geral", comenta.

Substitutos do 'X'

Após a suspensão da plataforma no Brasil, muito foi discutido sobre quais redes sociais iriam abrigar os usuários brasileiros 'enlutados' do 'X'. As grandes apostas são o Threads, da Meta e é associado ao Instagram, e o 'BlueSky', que tem o ex-CEO do Twitter - Jack Dorsey - como um dos criadores.

Nesse momento de transição, Lanieri conta que já fez conta nas duas plataformas e que cada uma tem suas particularidades. "Estou usando os dois já! Mas parece aquela situação de quando você muda de cidade ou escola. É estranho, tem coisa que lembra, mas tem que fazer novos amigos, se adaptar ao local. Estou gostando mais do Blue Sky. O Threads falta aqueles comentários sagazes e o humor depreciativo que tinha no Twitter", opina o criador de conteúdo.

Enquanto o 'X' não volta, sobra para os internautas a sensação de 'término de namoro' e apenas relembrar os prints engraçados dos momentos vividos enquanto tinham acesso à plataforma. "O Twitter [agora, 'X'] foi lugar que já foi muito legal, onde fiz muitas amizades e que lia opiniões boas. Até o Elon Musk chegar. Depois disso a gente acabou ficando porque era difícil largar aquilo que a gente tanto gostava, mas não queria reconhecer que já foi muito mais legal", finaliza Lanieri.

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Ana Luisa Sales é jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na Itatiaia desde 2022, já passou por empresas como ArcelorMittal e Record TV Minas. Atualmente, escreve para as editorias de cidades, saúde e entretenimento