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Autor de projeto que prevê multa a quem doar comida a morador de rua em São Paulo recua após críticas

A proposta do vereador Rubinho Nunes (União) foi aprovada em primeiro turno pela Câmara Municipal de SP na quinta-feira (27); após a repercussão, o vereador recuou e pediu a suspensão da tramitação do texto

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Morador em situação de rua caminhando em calçada
Aprovado em cerca de 30 segundos, o projeto impõe regras tanto para ONG's e entidades quanto para pessoas físicas • Fernando Frazão / Agência Brasiln

Menos de 24 horas depois da aprovação em primeiro turno do projeto de lei que prevê multa para quem doar comida nas ruas de São Paulo, o autor do projeto recuou após as críticas recebidas.

Em nota o vereador Rubinho Nunes (União Brasil) afirmou em nota que vai suspender a tramitação do texto. 'A suspensão tem por objetivo ampliar o dialogo com a sociedade civil, ONG's e demais associações e buscar o aperfeiçoamento do texto para que a finalidade do projeto seja atendida', afirma o vereador.

Além de anunciar a suspensão da tramitação do projeto, Nunes destacou que o objetivo da proposta é "ampliar a distribuição alimentar, otimizar as doações, evitar desperdício e, principalmente, acolher as pessoas em situação de rua e vulnerabilidade, dando a elas oportunidade de melhoria, dignidade e higiene ao se alimentar".

O que dizia o projeto

De acordo com o projeto aprovado, os critérios para doar comida são, por exemplo:

  • Fazer a limpeza do local e fornecer tendas e mesas;
  • Autorização da Secretaria Municipal da Subprefeitura;
  • Autorização da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social;
  • Cadastro atualizado de voluntários na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social;
  • Cadastro atualizado das pessoas em vulnerabilidade social na Assistência Social.

Segundo o PL 445/23, os voluntários precisariam estar identificados com crachás.

A proposta também prevê que o local onde os alimentos serão preparados deverá passar por vistoria e certificação prévia pelos órgãos competentes de vigilância sanitária, “garantindo a adequação das instalações e a segurança alimentar dos produtos a serem distribuídos”.

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O PL também prevê multa de R$17.680 para quem descumprir critérios estabelecidos pela legislação ao doar comida nas ruas da cidade. O projeto, aprovado em cerca de 30 segundos junto com outras 70 propostas em uma reunião extraordinária, impõe regras tanto para ONG's e entidades assistenciais quanto para pessoas físicas.

Repercussão

Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo se manifestou sobre a aprovação e disse que o projeto é inconstitucional, 'ao ferir o direito individual das pessoas de fazerem e receberem doações'.

'Em razão de uma completa ausência de política objetiva para atender as pessoas em situação de rua, o Município de São Paulo tenta proibir o tratamento igualitário e humanizado, de relacionamento entre as pessoas que querem realizar doações e de quem precisa recebê-las. Se todos são iguais perante a lei e aos poderes públicos constituídos, não pode haver sobreposição de uma norma municipal às relações humanas e às relações interpessoais', pontua a Comissão Permanente de Direitos Humanos da OAB-SP.

O padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, também se pronunciou e afirmou que o proposta é uma forma de tentar punir a população carente.

'É mais um projeto aporofóbico, de punição aos pobres e daqueles que estão a seu serviço', disse em entrevista ao portal g1.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde