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A COP28 e o dilema dos combustíveis fósseis

O objetivo da Conferência é assegurar que todos os países e setores estejam alinhados com as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris

A Conferência das Partes da ONU (COP28) está em andamento em Dubai desde o dia 30 de novembro. Nesta reunião voltada para a busca de soluções para os problemas climáticos, notamos a presença de um público recorde de lobistas vinculados à indústria de combustíveis fósseis. Os questionamentos sobre a escolha de um dos 10 maiores produtores de petróleo do mundo como sede da COP começaram desde o anúncio, embora ainda existisse a expectativa de que os recordes de calor registrados em 2023 fossem suficientes para impulsionar o avanço da agenda pró-clima.

Entretanto, a realidade se revela ainda mais decepcionante do que as piores previsões. O objetivo da Conferência de assegurar que todos os países e setores estejam alinhados com as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, visando manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC, está se tornando cada vez mais distante. No que tange ao petróleo, a principal problemática reside no impacto significativo de suas emissões, decorrentes principalmente da utilização de seus derivados na produção de energia. Isso resulta na ausência de alguns dos países produtores nas listas dos maiores emissores de gases de efeito estufa, uma vez que exportam a maior parte de sua produção.

A proposta central da COP28, conforme a visão mais otimista, consistia em posicionar o setor de Óleo e Gás como foco central das discussões voltadas para a gradual eliminação do uso de combustíveis fósseis. Em seu discurso aos delegados da conferência em 1º de dezembro, o Secretário-Geral da ONU foi incisivo quanto aos alertas emitidos pela Agência Internacional de Energia e pelo IPCC (painel de especialistas da ONU): “Não há como atingir a meta estabelecida pelo Acordo de Paris sem eliminar a utilização de combustíveis fósseis”. Na prática, os países produtores, incluindo o Brasil, estão ampliando sua capacidade de produção, indicando um aumento na oferta de petróleo e gás ao mercado.

Apesar de o Brasil ser uma referência em biocombustíveis e de estarmos avançando significativamente na produção de Hidrogênio Verde, as soluções estão sendo subestimadas devido ao lobby da indústria petrolífera. Mesmo com a redução do desmatamento, uma questão igualmente crucial para o país, não há crédito de carbono capaz de neutralizar a quantidade de emissões provenientes do uso de combustíveis fósseis. A COP28 encerrará em 12 de dezembro, e já temos informações indicando um aumento nas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) em 2023. Diante de tantos eventos catastróficos em andamento, qual alerta ainda é necessário para alterarmos o curso de nossas ações?

Cristiana Nepomuceno é bióloga, advogada, pós-graduada em Gestão Pública, mestre em Direito Ambiental. É autora e organizadora de livros e artigos.
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