Mais de 14,4 milhões de automóveis estão em circulação no estado de Minas Gerais e a tendência é de que este número apresente um crescimento constante com a alta de 2% apresentada no mercado automotivo em 2025. Entretanto, além desse aumento, também é crescente a quantidade de golpes relatados em oficinas mecânicas, principalmente contra o público feminino.
“Pelo amor de Deus, me ajuda aqui, porque eu estou com o meu carro aqui dentro, estragaram meu carro”, conta Silmara Betânia à Itatiaia sobre o momento em que abordava uma viatura da Polícia Militar para registrar um boletim de ocorrência sobre uma tentativa de golpe que sofreu em uma oficina mecânica de Belo Horizonte, no dia 13 de setembro de 2025.
No caso, Silmara solicitou à oficina que fosse realizada a troca dos dois pneus dianteiros de seu carro, um Renault Captur, que não apresentava, inicialmente, qualquer outro tipo de problema. Ao deixar o carro à disposição dos mecânicos, ele foi suspenso no elevador e cerca de 30 minutos depois, ela alega que foi relatado uma série de defeitos que estariam presentes no automóvel, como danos na caixa de câmbio e na direção.
Quando solicitou que o carro fosse remontado para que pudesse tratar das alterações citadas por um mecânico de confiança, ela afirma que o responsável pela operação informou que só seria possível retirá-lo do local com uso de reboque. Ao avaliar o estado do veículo, notou que a caixa de câmbio estava no chão e em seguida recebeu uma folha com orçamento para reparo com valor total de R$7 mil.
Ao ameaçar chamar a polícia diante do potencial golpe que enfrentava, a vítima afirmou ter sido coagida pelo gerente da loja, que teria dito que que chamar a polícia “não ia mudar nada”, além de ameaçar arranhar a lataria e informar que só poderia entregar o carro na semana seguinte. Silmara abordou uma viatura policial que passava pela rua, realizou o registro do boletim de ocorrência e guinchou o automóvel até Sete Lagoas-MG, local onde reside
Em uma segunda análise (veja no vídeo abaixo), Silmara revela que foi constatado por outro mecânico que o carro foi propositalmente danificado para apresentar os danos relatados, com conexões desligadas e marcas de pancada. Para que fosse possível realizar o reparo, a mulher precisou pedir um empréstimo de R$5 mil a fim de arcar com as despesa. Entretanto, segundo ela, o carro não apresenta sua funcionalidade normal desde então.
Diante dos danos, ela acionou a Justiça. A primeira audiência ainda não foi realizada.
Vídeo mostra mecânico avaliando carro que foi danificado durante orçamento em oficina de BH
— Itatiaia (@itatiaia) January 22, 2026
📽️Imagens cedidas à Itatiaia pic.twitter.com/7nxZyKq96M
‘Amigas do Motor’
Como forma de procurar um atendimento mais transparente para evitar futuros golpes, Silmara procurou por uma oficina especializada em atendimento ao público feminino e encontrou a “Amiga do Motor”, no bairro Madre Gertrudes, regional Oeste de Belo Horizonte.
A oficina, que existe há pouco mais de dois meses, foi fundada por Fernanda Lima e seu marido, Idelson Junior, e tem como princípio promover maior lisura no processo de atendimento às clientes e instruí-las com o fim de evitar possíveis golpes em outros locais. Fernanda contou à Itatiaia que a oficina surgiu a partir de conversas com amigas que pediam dicas de mecânica básica e para realizar o sonho que tinha com Junior de trabalhar no ramo automotivo.
“Todas as minhas amigas, sempre que precisam de qualquer reparo no veículo, recorrem a mim. ‘Fê, o que que eu faço? Me ajuda? É isso mesmo, não é?’ E muitas falam: “Ah, Fê, o cara falou que não dava alinhamento, paguei um absurdo e o carro ainda não está alinhado. Assim eu vi que existe essa necessidade e essa carência no mundo automotivo”, relatou durante a conversa.
Diariamente chegam relatos nas redes sociais com usuárias que levaram seus veículos até oficinas mecânicas e voltaram para casa com danos que não constavam anteriormente. “Fui trocar os pneus, fiz o orçamento, estava dentro do valor. O moço me chamou para a tal explicação, depois ele voltou com uma peça cheia de graxa preta empelotada e disse que teria que fazer serviço de torno nas peças. Uma conta que era de R$1.300 foi para R$7.030”, conta uma seguidora em resposta a publicação.
“A nossa ideia é receber a mulher com a visão que ela não tem que ter medo de entrar numa oficina, que ela é recebida aqui com carinho. Ela vai ter as dúvidas dela respondidas, mesmo não entendendo de mecânica numa linguagem que ela vai entender. Então, ela sai daqui entendendo sobre o carro e entendendo ainda mais do que ela precisa ficar atenta no dia a dia”, diz Fernanda sobre o propósito de atuação da Amigas do Motor
Por meio das redes sociais, Fernanda instrui as seguidoras acerca de procedimentos básicos em oficinas mecânicas e como evitar golpes comuns no mercado. Um deles é o da “troca de óleo”, em que o local faz uma promoção chamativa para realização da troca de óleo, entretanto, na realização do serviço, utiliza um produto que não é compatível com o motor do carro ou aproveita o momento para apresentar um orçamento inflacionado do valor das peças.
O orçamento adulterado geralmente esconde qual a marca da peça que será adquirida para realizar a troca e multiplica o valor dos produtos que serão comprados. Em um orçamento ao qual a Itatiaia teve acesso, um fluido de freio foi ofertado por R$120. Entretanto, em marketplaces online, é possível encontrar o produto por R$23.
Produtos listados podem exceder até seis vezes a prática comum do mercado
Mecânica como ferramenta de independência
Com o mesmo intuito de atrair a confiabilidade do público feminino que busca atendimento seguro nas oficinas, a belo-horizontina Bárbara Brier cresceu na regional de Venda Nova, mas começou em São Paulo o projeto do selo “Oficina Amiga da Mulher”, que hoje certifica 110 pontos de atendimento em 20 estados do país. Para fazer parte deste grupo, é necessário cumprir uma série de requisitos e participar de cursos preparatórios que instruem em processos de atendimento com transparência e criar um ambiente seguro para as clientes.
Bárbara é técnica em Automobilística pelo SENAI, formada na mesma turma que Junior, graduada em Gestão da Produção Industrial com Especialização em Educação Superior. A ideia de criar o selo surgiu enquanto trabalhava para a Fiat, empresa em que esteve por oito anos, e se tornou referência das colegas de serviço que procuravam algum tipo de assistência mecânica.
Com a rescisão que recebeu após deixar o posto na empresa, a princípio, surgiram os cursos de mecânica básica ministrados por Bárbara. A partir dos workshops e imersões de empreendedorismo realizadas, decidiu transformar as aulas em projeto que gera um selo para quem participa e orienta mulheres a encontrar oficinas confiáveis para o público, com acompanhamento e renovação da verificação.
“Hoje, 70% da minha rede tem mulheres na gestão da oficina. Então, ela começa a colocar junto da sua ‘oficina amiga da mulher’, a ‘carinha’ dela, isso aqui é coisa de mulher também, eu não tô sozinha”, diz Bárbara sobre a adesão ao projeto.
O envolvimento das mulheres com a solução de problemas nos automóveis reflete também na autonomia de uso do meio de transporte. “Hoje, nas famílias heterossexuais, normalmente, a mulher é tomadora de decisão. Do carro da família, porque ela faz mais a gestão do transporte da família, principalmente quando ela engravida”, explica Bárbara sobre o uso doméstico dos carros. “Só que quando chega na oficina, ela não se identifica, porque o ambiente é grotesco. A oficina tem que estar preparada, tal qual em um exame de sangue, qualquer pessoa se sente bem, é um ambiente neutro, a oficina deveria também ser um ambiente neutro”, completou.
Rede de apoio fortalece oficinas
Uma das oficinas que faz parte do selo de Bárbara é a “Auto Conceito”, administrada por Patrícia Araújo. Ela atua no mercado automobilístico há mais de 30 anos, em uma loja de autopeças do pai, e encontrou nessa área a oportunidade de transformar o comércio em uma oficina mecânica
“Um dos nossos pilares é a honestidade, a transparência, porque eu não preciso do cliente só hoje, eu preciso sempre. Então, se ele sair daqui hoje, não adianta nada eu lesar ele no orçamento e ele nunca mais voltar aqui, até porque uma avaliação negativa dá muito mais mais transtorno do que uma positiva”, explica Patrícia sobre os princípios que mantém a base de atendimento da oficina
Patrícia relembra que era comum em oficinas mecânicas a presença de calendários com imagens de mulheres nuas e revistas de conteúdo adulto pelo salão. Para ela, é inimaginável que se encontre esse cenário em uma de suas oficinas, que é frequentada também por crianças.
“Eu vejo que elas chegam geralmente inseguras, com medo do assédio, até da própria questão de se lesar enquanto consumidora. Então, eu sempre tento orientar elas para ficarem tranquilas, ser transparente, conversar, explicar, passar essa confiança”, conta Patrícia sobre o cenário de temor que as clientes enfrentam no primeiro momento de atendimento por conta de experiências anteriores.
O cenário de oficinas com atendimento especializado para mulheres segue em expansão ao redor do país e reforça a necessidade de equidade no processo. Apesar do avanço, segue a recomendação de buscar orçamentos detalhados, com o nome das marcas das peças listadas para possibilidade de conferência dos valores, lisura nos processos de revisão do veículo, assim como a célere denúncia em caso de detecção de fraude.
(Sob supervisão de Lucas Borges)