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Pequeno produtor perde dinheiro em dois de três ciclos de engorda de gado, mostra estudo

Investigação revela que atividade sobrevive como renda complementar graças ao trabalho não remunerado da família, acendendo alerta para o setor no Brasil

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Frio mata mais de 80 bovinos em MS e Iagro acende alerta para pecuaristas
Iagro/ Reprodução

A combinação entre eventos climáticos extremos, como a seca prolongada, e a alta constante nos custos dos insumos desafia a sustentabilidade financeira da pecuária de corte familiar em toda a América Latina. Um estudo de caso realizado no México apresentou números concretos sobre essa realidade. Pesquisadores acompanharam, durante quase dois anos, uma pequena unidade de engorda bovina em confinamento no município de Tepetlaoxtoc, no estado do México, e o resultado acende um alerta: o produtor operou no vermelho em dois dos três ciclos de produção analisados.

A investigação foi publicada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito - CPAH, sob gestão técnica da Editora Atena). O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Laura Paloma González Maldonado, Jorge Eduardo Vieyra Durán, Jaír Vladimir Lovera Rivas, Rodolfo Moreno Alvarado, Elizabeth Zavala Martinez e Erika Patricia Gallaga Maldonado, profissionais ligados majoritariamente à Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), unidade Iztapalapa, na Cidade do México.

Onde foi parar o lucro do produtor?

Os dados financeiros revelam a fragilidade da atividade quando fatores operacionais e sanitários não estão sob controle estrito.

  • 1º Ciclo (8 touros / 163 dias): custo total somou US$ 10.796,14, para uma receita de US$ 8.605,20. O resultado foi um prejuízo de 26,13% sobre o capital investido.
  • 2º Ciclo (7 animais / 198 dias): conta permaneceu no vermelho, registrando uma perda de 21,91%.
  • 3º Ciclo (6 touros / 210 dias): balanço finalmente ficou positivo, embora com margem estreita: um retorno de apenas 0,51% sobre o capital aplicado.

De acordo com os autores, o ralo financeiro que consumiu a rentabilidade do negócio foi provocado por uma tríade: alta taxa de mortalidade, superlotação dos currais e os gargalos na curva de aprendizado do próprio pecuarista, especialmente no manejo e recepção dos animais recém-chegados à propriedade.

Manejo e infraestrutura: a virada tecnológica do curral

O estudo detalhou que, após o impacto do primeiro prejuízo, o pecuarista iniciou uma reestruturação profunda na infraestrutura e no manejo do confinamento. Essas mudanças explicam a trajetória de melhora constante nos indicadores financeiros ciclo a ciclo:

  • Ampliação do espaço: área por animal saltou de 6,25 m² para 10 m², aproximando-se do padrão internacional recomendado para bovinos com mais de 400 kg.
  • Sanidade e escoamento: cochos e bebedouros foram realocados para as áreas mais altas dos currais, impedindo o acúmulo de lama, água da chuva e dejetos no piso.
  • Bem-estar animal: foi instalada uma estrutura similar a uma estufa, com cobertura plástica e proteção contra raios UV, atenuando o estresse térmico do lote.
  • Nutrição eficiente: produtor passou a fabricar a própria ração, o que reduziu o custo do quilo do alimento de US$ 0,34 para US$ 0,25 entre o primeiro e o terceiro ciclo.
  • Lotes homogêneos: bovinos começaram a ser classificados e separados por porte e temperamento, minimizando conflitos.

Mortalidade: o fator de maior impacto no bolso

Apesar das melhorias, a mortalidade continuou sendo o principal entrave. O índice variou de 25% no primeiro ciclo para 28,6% no segundo e caiu para 16,7% no terceiro — patamar ainda considerado alarmante para o setor.

As necropsias e avaliações veterinárias apontaram causas diversas: óbitos sem diagnóstico logo no início do monitoramento, lesões fatais decorrentes de brigas provocadas pela antiga superlotação e animais que já desembarcaram na propriedade com o quadro de saúde severamente comprometido. Na pecuária de corte, cada morte representa a perda integral do capital investido na compra e na manutenção daquele animal, inviabilizando as margens de lucro.

O trabalho invisível que sustenta a atividade

Uma das principais conclusões da pesquisa põe em xeque a viabilidade puramente comercial desse modelo sem o suporte da estrutura familiar. Os cientistas calcularam que a mão de obra da família, que não é remunerada, representa um custo estimado de US$ 2,53 por dia. Caso esse valor fosse contabilizado como despesa efetiva na folha de pagamento, o sistema seria ainda mais deficitário.

O confinamento só se mantém de pé porque a família o encara como uma estratégia de renda complementar e reserva de valor, e não como uma empresa focada em lucro isolado.

Alerta global e lições para o Brasil

O cenário observado em Tepetlaoxtoc reflete com precisão os desafios enfrentados por pequenos pecuaristas em diversas regiões do mundo, inclusive no Brasil. Produtores familiares brasileiros convivem com a mesma pressão: estiagens severas que encarecem as pastagens, custos elevados de grãos para ração (como milho e soja) e, principalmente, a falta de acesso crônico à assistência técnica especializada.

Os autores concluíram que a sobrevivência da pecuária familiar de corte depende urgentemente de políticas públicas integradas, além do apoio de universidades e da extensão rural. Sem esse suporte técnico para subsidiar investimentos em bem-estar animal e eficiência alimentar, os pequenos criadores correm o risco de ser empurrados para fora da atividade diante das novas e severas exigências climáticas e econômicas.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.