Mudanças climáticas ameaçam reduzir em 38% área para abelhas na Bacia do Rio Doce
Estudo acende um alerta vermelho para a apicultura e a agricultura na região

Um novo estudo científico acende um alerta vermelho para a apicultura e a agricultura na Bacia do Rio Doce. Uma cooperação entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Unimontes e o Centro de Conhecimento em Biodiversidade indicou que o aquecimento global pode reduzir em 38% a área climaticamente adequada para a abelha Apis mellifera (a abelha comum, com ferrão) na Região até 2050.
O trabalho, intitulado Projected climate‐suitable area for Apis mellifera, cruzou modelos de previsão climática com os impactos territoriais do rompimento da barragem da Samarco, ocorrido em 2015. O objetivo é subsidiar estratégias de adaptação para produtores que dependem da polinização e da produção de mel.
Encolhimento do habitat
Segundo os pesquisadores, a proporção de território favorável para a espécie deve despencar de 50% para apenas 31% nas próximas décadas. As projeções mais críticas apontam que as Regiões Oeste e Central da bacia podem se tornar quase totalmente inadequadas para a sobrevivência e produção dessas abelhas.
"Apesar da plasticidade e da ampla distribuição da A. mellifera, nossos modelos projetam uma perda substancial de área", afirmou Flávio Mota, autor principal do estudo. Ele explicou que a variação extrema de temperatura e a mudança no regime de chuvas são os principais vilões, podendo forçar a realocação de apiários e comprometer a produtividade de cultivos agrícolas locais.
O fator 'lama de rejeito' e os riscos às nativas
Um dado curioso do estudo refere-se às áreas diretamente atingidas pela lama de rejeitos de mineração, concentradas no Leste da Bacia. Nessa faixa, o declínio da adequação climática deve ser menor, em torno de 8%, indicando uma estabilidade relativa em comparação ao restante do território.
No entanto, os cientistas pedem cautela. A estabilidade climática no Leste não significa recuperação ecológica, já que a química do solo permanece alterada pelos rejeitos. Além disso, os especialistas alertam que a permanência da A. mellifera (espécie exótica) em áreas degradadas pode gerar uma competição desigual, prejudicando as abelhas nativas do Brasil, que são ainda mais sensíveis a alterações ambientais.
O estudo reforça que a preservação da biodiversidade na Bacia do Rio Doce exigirá mais do que apenas o monitoramento do clima, demandando ações urgentes para restaurar a vegetação e proteger os polinizadores essenciais para a economia mineira e capixaba.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



