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Embrapa aposta em uso de água salina para impulsionar agro no Semiárido

Projeto amplia uso de águas salobras com manejo e tecnologia; iniciativa prevê 50 unidades produtivas em seis estados da região

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Tadeu Voltolinni / Embrapa

A água disponível no subsolo de grande parte do Semiárido brasileiro apresenta níveis de salinidade que dificultam seu uso direto na produção agrícola. Água salina é aquela que apresenta alta concentração de sais dissolvidos, principalmente cloreto de sódio. Visando enfrentar essa limitação, a Embrapa estuda há décadas, alternativas para o aproveitamento de águas salobras ou salinas na agricultura, com o desenvolvimento de sistemas produtivos adaptados.

Um dos pioneiros nesses estudos é o pesquisador aposentado da Embrapa Everaldo Porto. Segundo ele, o ponto de partida para promover o uso sustentável da água no Semiárido é compreender, antes de tudo, as características edafoclimáticas do Sertão e adotar estratégias adequadas de gestão dos seus recursos hídricos. Atualmente, Porto atua como um dos principais responsáveis técnicos do Projeto Sal da Terra.

“A produção agrícola no Semiárido sempre dependeu muito das chuvas, o que aumenta os riscos para os agricultores”, explicou. Nesse cenário, a chamada agricultura biossalina surge como uma alternativa para a produção em áreas de sequeiro. A ideia é integrar sistemas produtivos capazes de conviver com a salinidade, ampliando as possibilidades de cultivo e diminuindo a dependência exclusiva das chuvas.

Porto ressaltou que, em várias partes do mundo, o uso de águas salinas na agricultura vem ganhando espaço. “Hoje já existem centros especializados nesse tema, como um instituto de agricultura biossalina em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Na China, pesquisadores já desenvolveram variedades de arroz capazes de produzir usando água do mar, desde que utilizado o manejo adequado”, relatou.

Para o pesquisador, esse movimento aponta para uma transformação importante na agricultura global. “Estamos vivendo algo que pode ser considerado uma nova revolução agrícola, baseada justamente no uso de águas salinas para irrigação”, afirmou.

O potencial para aproveitamento desse tipo de água no Semiárido brasileiro é significativo. Estima-se que existam cerca de 140 mil poços perfurados na região, muitos deles com água salobra ou salina.

Embora nem todos sejam adequados para irrigação convencional, esses recursos podem ser utilizados em sistemas produtivos adaptados, a exemplo da produção de forragem, grãos e sistemas integrados.

Manejo específico

O uso das águas salinas para irrigação, no entanto, exige cuidados específicos. Segundo o pesquisador Welson Simões, da Embrapa Semiárido, que também atuará no Projeto Sal da Terra, o problema muitas vezes não está apenas na presença de sais na água, mas no acúmulo desses sais no solo ao longo do tempo.

“Quando o produtor aumenta a irrigação sem controle, ele não está aplicando apenas mais água, mas também mais sal. Sem manejo adequado, esse sal pode se acumular e comprometer a produção”, explicou.

Além da salinidade, outro fator importante é a sodicidade, relacionada ao excesso de sódio na água ou no solo. Enquanto os sais podem ser parcialmente removidos pela infiltração da água da chuva, o sódio pode alterar a estrutura do solo, reduzindo sua capacidade de infiltração e prejudicando o desenvolvimento das plantas e a recuperação do mesmo.

Por isso, as pesquisas envolvem análises detalhadas de solo, água e sistemas de cultivo, além da seleção de variedades mais tolerantes à salinidade.

Simões destacou que parte desse conhecimento técnico foi construída ao longo de décadas de pesquisa. “No âmbito do Projeto Sal da Terra, a estratégia será ampliar esses estudos e levar as soluções para o campo por meio de vitrines tecnológicas e unidades demonstrativas, onde agricultores poderão conhecer, na prática, diferentes alternativas produtivas adaptadas às condições do Semiárido”.

A iniciativa prevê a implantação de 50 unidades de produção biossalina em seis estados da região, com demonstração de sistemas agrícolas, produção de mudas de espécies nativas da Caatinga, fruticultura irrigada e outras tecnologias desenvolvidas pela Embrapa e por universidades parceiras para uma agricultura sustentável na região.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

 

 

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