Embalagem de papelão com carvacrol triplica vida útil de morangos
Tecnologia desenvolvida por pesquisadores do Brasil e da França prolongou de três para nove dias a conservação dos frutos sob refrigeração e também apresentou ação antimicrobiana

Uma nova embalagem de papelão ondulado desenvolvida por pesquisadores do Brasil e da França utiliza o carvacrol, composto natural presente no orégano, para retardar a deterioração de morangos. De liberação controlada, o composto incorporado a uma estrutura multicamada do papelão triplicou o tempo de vida do fruto de três para nove dias sob refrigeração, apresentou ação antimicrobiana e abre caminho para a substituição de embalagens plásticas e redução do desperdício de alimentos.
O estudo envolveu cientistas da Embrapa Instrumentação, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Grenoble Alpes (UGA), na França.
De acordo com o pesquisador Marcos David Ferreira, da Embrapa Instrumentação, o desenvolvimento da tecnologia consistiu em combinar diferentes papéis de revestimento nas superfícies externas e internas da caixa, com a impregnação da camada intermediária do papelão ondulado com o carvacrol.
A tecnologia foi avaliada em morangos da cultivar San Andreas, produzidos em Bom Repouso (MG). Os frutos, no total de 120, foram acondicionados em bandejas de papelão ativo e armazenados durante nove dias, a aproximadamente 10 °C.
Efeito antimicrobiano em morangos
Segundo Ferreira, um dos principais desafios da conservação de morangos é o crescimento de fungos, como o Rhizopus stolonifer, agente causador da podridão-mole.
Os resultados antimicrobianos dos estudos em laboratório (in vitro) mostraram que o papelão contendo carvacrol foi capaz de inibir o desenvolvimento deste fungo. Além disso, este efeito foi observado mesmo após 14 dias de armazenamento do material ao ar livre em temperatura ambiente.
De acordo com os pesquisadores, as análises confirmaram que os morangos mantidos nas embalagens ativas mantiveram melhor a vivacidade da cor vermelha, a firmeza da polpa e os parâmetros de acidez e sólidos solúveis, desacelerando o processo natural de envelhecimento do tecido do fruto.
“As melhores configurações retardam a liberação o suficiente para permanecerem eficazes durante o armazenamento, ajudando a atrasar a podridão fúngica e a preservar as características essenciais de qualidade da fruta”, afirmou Ramon Peres Brexó, pós-doutorando da equipe de Ferreira.
A principal conclusão do estudo é que a embalagem multicamadas com carvacrol funciona como uma embalagem ativa para morangos, sendo que a estrutura do revestimento determina a durabilidade do efeito antimicrobiano.
Alternativa para redução do desperdício
Ferreira explica que o morango está entre os frutos mais suscetíveis à deterioração após a colheita, devido ao consumo in natura e à alta perecibilidade. “A elevada atividade metabólica, a sensibilidade a danos durante o transporte e, principalmente, o desenvolvimento de fungos contribuem para reduzir sua vida útil. Esse processo representa um desafio para a cadeia de produção e distribuição e pode aumentar o desperdício de alimentos”, explicou o pesquisador.
O experimento prático com a embalagem de papelão, ou seja, uma prova de conceito, abre caminho para que produtores e distribuidoras de frutas e hortaliças reduzam significativamente o desperdício alimentar ao longo de toda a cadeia logística, garantindo produtos mais frescos e seguros ao consumidor final.
Nova legislação
A embalagem plástica tradicional na União Europeia passa por novas regras desde agosto deste ano, com a entrada em vigor do novo Regulamento relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR, na sigla em inglês). A medida prevê a eliminação gradual das embalagens plásticas para hortifrútis, com o objetivo de reduzir a geração de resíduos.
A substituição da embalagem plástica pelas de papelão surge como alternativa para alguns produtos. No Brasil, ainda não existe essa regulamentação, mas pensando em exportação, os países devem seguir as regras do importador e essa é uma tendência que deve ocorrer para outros países também.
Os resultados abrem novas perspectivas para o uso do papelão ondulado ativo na conservação de morangos após a colheita. A próxima etapa da pesquisa envolve o aprofundamento dos estudos sobre a liberação e a difusão do carvacrol no material, contribuindo para o aprimoramento da tecnologia.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



