'Custos de produção recuam e a rentabilidade do produtor de leite melhora', diz Embrapa
No entanto, impasse das importações permanece. No primeiro trimestre de 2024, as compras de leite no exterior totalizaram 560 milhões de litros, alta de 10,8% em relação a 2023

“As cotações de leite e derivados no mercado brasileiro vêm reagindo, mas o cenário de menor competitividade e a queda de braço com as importações permanece. O mercado nacional e global de leite ainda segue sob grandes incertezas”, diz artigo assinado por especialistas e pesquisadores da Embrapa Gado de Leite.
No primeiro trimestre de 2024, as importações brasileiras totalizaram 560 milhões de litros, com alta de 10,8% em relação a 2023.
“O diferencial de preços, tanto do leite em pó quanto do queijo muçarela, está mais favorável ao derivado importado. Enquanto isso, governos estaduais têm se manifestado com medidas tributárias e fiscais para tentar reduzir a entrada de derivados lácteos oriundos do exterior. Vale lembrar que em 2023 as importações responderam por 9% da produção doméstica e um recuo nesse volume tende a deixar a oferta mais restrita, sustentando os preços internos. Mas também irá exigir uma resposta mais rápida da produção interna”, disse Glauco Carvalho, pesquisador em economia da mesma unidade, localizada em Juiz de Fora. Segundo ele, “a combinação de recuo nos custos de produção com elevação no preço do leite sinaliza para uma recuperação de rentabilidade do produtor”.
Na área exterior, os preços perderam um pouco o ritmo de elevação, influenciados, principalmente, por uma menor demanda chinesa. Além disso, o gigante asiático vem estimulando a produção interna substituindo parte da importação. O leite em pó integral fechou em US$3.269/tonelada no leilão GDT do dia 16 de abril de 2024. Em abril de 2023 este preço estava no patamar de US$ 3.100/tonelada. Na Argentina, a oferta de leite segue complicada por uma piora da rentabilidade nas fazendas. Nos dois primeiros meses do ano, a produção de leite da Argentina caiu 13,6% na comparação com o mesmo período do ano passado.
O que esperar do cenário atual?
O pesquisador lembra que a produção de leite no Brasil é bastante sazonal. Neste momento, o que se vê é:
- Os meses de abril, maio e junho são aqueles de menor produção de leite e isso acaba refletindo nos preços.
- Os mercados de leite UHT e queijo muçarela têm registrado valorizações, ainda que modestas.
- O preço ao produtor também vem registrando elevação, pelo quarto mês consecutivo.
- Do ponto de vista macroeconômico, os indicadores de crescimento do PIB vêm melhorando, com perspectivas de expansão próxima de 2% em 2024.
- No comércio, as vendas dos supermercados seguem positivas, com expansão de 4,7% nos últimos 12 meses, enquanto a média do comércio em geral mostrou elevação de apenas 1,7%.
- O preço dos lácteos ao consumidor, por outro lado, recuaram 2,8% nos últimos doze meses.
- No caso do UHT, a queda foi de 5,6%, o que acaba ajudando nas vendas.
- Neste mesmo período a inflação brasileira foi de 3,9%. Ou seja, os lácteos vêm contribuindo para redução da inflação brasileira neste momento.
- Na atividade de produção de leite, as informações de custo de produção têm mostrado um cenário mais positivo.
- Os preços de importantes insumos recuaram, contribuindo com a queda no ICPLeite-Embrapa que, nos últimos 12 meses finalizados em março de 2024, apresentou recuo de 5,58%.
- O farelo de soja recuou 23% em relação a abril de 2023, ficando abaixo de R$2 mil/tonelada.
- No caso do milho, a queda foi também importante, com o cereal recuando 18,5% na comparação anual.
- Portanto, a combinação de recuo nos custos de produção com elevação no preço do leite sinaliza um ambiente de recuperação de rentabilidade para o produtor de leite, após um cenário difícil observado no segundo semestre de 2023.
Foco na eficiência e na gestão das fazendas
Para lidar da melhor forma possível com esse cenário, os especialistas aconselham que os produtores mantenham o foco nas melhorias e na eficiência de gestão das fazendas. Os custos de produção de leite, em alguns casos, variam em até R$ 0,80 o litro do leite, entre produtores mais e menos eficientes. “O momento ainda é de bastante incerteza, inclusive global. Internamente, a entressafra pode dar um fôlego para a alta recente dos preços de leite”, disse Glauco.
Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.



