Itatiaia

Voz grave faz homens parecerem mais fortes, mas não mais atraentes, diz estudo

Pesquisa da Universidade de Durham mostrou que tons mais baixos aumentam a percepção de força, capacidade de luta e dominância social, mas não tornam os homens mais atraentes quando sua aparência também é observada

Por
homem enviando audio
Magnific

Uma voz masculina mais grave pode mudar a maneira como um homem é percebido, mas não necessariamente fazê-lo parecer mais atraente. Essa foi a conclusão de um estudo conduzido por psicólogos da Universidade de Durham, no Reino Unido, que analisou como o tom da voz influencia julgamentos sobre força física, capacidade de luta, dominância social e aparência.

Publicado na revista científica Royal Society Open Science, o trabalho mostrou que homens com vozes mais graves foram considerados mais fortes, mais capazes de vencer uma briga e mais influentes entre seus pares. Por outro lado, a redução do tom vocal não aumentou de maneira consistente a avaliação de atratividade.

A pesquisa foi liderada pelos psicólogos James E. Rutter e Lynda G. Boothroyd. Os pesquisadores queriam investigar uma questão discutida há anos na ciência: se a voz masculina grave teria evoluído principalmente para aumentar a atração por possíveis parceiras ou para transmitir sinais de força e competitividade diante de outros homens.

Pesquisadores alteraram digitalmente as vozes

Para realizar o experimento, os cientistas filmaram 17 homens britânicos com idades entre 19 e 32 anos. Os participantes tinham diferentes alturas, pesos e características físicas e foram gravados de corpo inteiro, usando camiseta branca e calça preta, enquanto contavam de um a cinco em tom neutro.

Depois, os pesquisadores modificaram digitalmente as gravações. Foram alteradas a frequência fundamental, relacionada ao tom da voz, e os formantes, que influenciam a ressonância e a profundidade percebida.

Assim, cada participante passou a ter 12 versões diferentes do mesmo vídeo, com vozes que variavam de muito graves a mais agudas, incluindo alterações que deixavam a ressonância mais masculina ou feminina.

Cerca de 1.500 adultos dos Estados Unidos participaram das avaliações. Cada pessoa assistiu a apenas uma versão de cada homem e precisou avaliar aspectos como atratividade, força física, capacidade de luta ou domínio social.

Voz grave aumentou a percepção de força

Os resultados indicaram uma associação consistente entre vozes mais graves e a percepção de maior força física. Os participantes também foram considerados mais capazes de vencer uma disputa física e mais dominantes socialmente quando suas vozes apresentavam tons mais baixos e características vocais mais masculinizadas.

O efeito, porém, foi moderado. Segundo os cálculos dos pesquisadores, uma redução de 20 hertz no tom da voz aumentou em aproximadamente um ponto percentual a proporção de avaliadores que considerava que determinado homem poderia vencer uma briga.

Mesmo sendo uma diferença pequena, o padrão apareceu de forma persistente entre homens com diferentes características corporais.

Os pesquisadores interpretaram o resultado como um indício de que a voz grave pode funcionar como um sinal relacionado à força e à competição entre homens.

Voz mais baixa também fez os homens parecerem mais pesados

A pesquisa também analisou se o tom da voz alterava a percepção sobre o tamanho corporal. Em uma segunda etapa, 542 homens estimaram o peso ou a altura dos participantes que apareciam nos vídeos. As vozes mais graves fizeram os homens parecerem um pouco mais pesados, mas não provocaram mudanças detectáveis nas estimativas de altura.

A cada redução de 20 hertz no tom vocal, os avaliadores atribuíram, em média, cerca de 340 gramas a mais ao peso dos participantes.

Para os pesquisadores, a associação pode ajudar a explicar por que uma voz grave transmite uma impressão de maior imponência física. A voz acrescentaria uma informação complementar àquilo que os olhos já identificam sobre o corpo.

Aparência teve muito mais influência que a voz

Um dos principais resultados do estudo surgiu justamente quando os pesquisadores compararam o impacto das informações visuais e sonoras.

Nos vídeos sem áudio, a aparência física explicou cerca de 22% das diferenças nas avaliações de atratividade e quase 38% das diferenças relacionadas à força física.

As alterações na voz, por outro lado, explicaram aproximadamente 1% das diferenças na avaliação de atratividade e 2% nas avaliações de força.

A voz teve uma influência um pouco maior na percepção de dominância social, explicando quase 5% das variações. Ainda assim, a informação visual teve participação maior, de aproximadamente 12%.

Os dados indicam que características observáveis do corpo, como tamanho, musculatura e postura, tiveram influência mais importante nas impressões dos avaliadores do que as modificações realizadas na voz.

Voz muito grave não garantiu maior atração

O resultado relacionado à atratividade foi diferente do observado para força e dominância.

As vozes mais agudas e aquelas com características consideradas mais femininas receberam avaliações menores de atratividade. Entretanto, tornar uma voz masculina cada vez mais grave não produziu um aumento equivalente no interesse romântico.

Uma voz grave não foi considerada claramente mais atraente do que uma voz de tom médio. Da mesma forma, a versão mais grave não apresentou uma vantagem consistente em relação a uma versão simplesmente baixa.

Para os autores, isso pode ajudar a explicar resultados de pesquisas anteriores que utilizaram apenas gravações de áudio. Nesses estudos, a preferência por vozes graves pode ter refletido, em parte, uma rejeição às vozes percebidas como femininas, e não necessariamente uma preferência por tons cada vez mais baixos.

Em outras palavras, o estudo não sustenta a ideia de que quanto mais grave for a voz masculina, maior será automaticamente sua atratividade.

Resultado reforça hipótese sobre competição entre homens

Os pesquisadores consideram que os resultados são compatíveis com a hipótese de que a voz masculina grave esteja relacionada à competição entre homens.

No estudo, o aumento da masculinidade vocal elevou de maneira consistente as percepções de força, capacidade de luta e dominância. Já o efeito sobre a atratividade desapareceu quando os avaliadores também podiam observar o corpo dos participantes.

Os autores afirmaram que os homens dos vídeos "pareceram consistentemente mais fortes, mais capazes de lutar e mais influentes à medida que sua masculinidade vocal aumentava".

Eles também destacaram que, diferentemente de parte da literatura anterior, o tom baixo da voz aumentou a percepção de dominância, mas não a de atratividade quando acompanhado pela imagem do homem.

Pesquisa tem limitações

Apesar dos resultados, o estudo não permite concluir que uma voz grave determine como um homem será percebido em situações reais.

Os participantes avaliados eram britânicos, enquanto os avaliadores eram principalmente adultos dos Estados Unidos. Além disso, as gravações tinham duração muito curta e os homens apenas contavam de um a cinco em uma situação controlada.

Também não foi investigado se as percepções registradas no experimento se traduzem em comportamentos reais, como sucesso em relacionamentos, disputas sociais ou situações de confronto.

Por

Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

Belo Horizonte