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Vindima em Melgaço: tradição e convívio com chuva

Descubra como a tradição da vindima em Melgaço mantém viva a cultura do minifúndio, preserva comunidades rurais e transforma a colheita de uva em celebração coletiva

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Vindima em Melgaço: tradição e convívio com chuva • Magnific

Chove copiosamente numa manhã de agosto em Melgaço, mas a vindima não para. Entre as 700 pequenas parcelas de Alvarinho que abastecem o Soalheiro, a água escorre pelos braços levantados, desliza pelo tronco até as pernas de quem corta cachos desde as sete da manhã.

Patrícia Ferreira veste fato de borracha amarelo com carapuço. Aos 38 anos, vindima desde os 12 ou 13, quando precisava do dinheiro para as próprias coisas. "Que remédio, tenho dois filhos para acabar de criar", justifica o trabalho que se estende até as três da tarde, com ou sem céu aberto. Mas a rotina inclui pausa generosa: às 11 horas, queijos, rissóis, chamuças, folhados, bifanas e bifes de frango saem da cozinha de Elsa Alves, acompanhados do vinho da safra anterior. A vindima em minifúndio é esforço, mas também celebração à mesa.

O modelo de minifúndio que mantém viticultores na região

Manuel Alves, professor reformado de 78 anos, cultiva uva Alvarinho no jardim de quatro a cinco mil metros no centro de Melgaço. Ele é um dos 200 viticultores que produzem para o Soalheiro, marca que exporta 40% da produção para 55 países e fatura 7,5 milhões de euros anuais.

Sem a vinha, o terreno criaria silvas e seria preciso pagar para removê-las. Com a parceria, Manuel fica com vinho em casa e sabe que pelo menos um grão dos seus vai estar nas garrafas da marca. O quilo da uva Alvarinho chega a ser pago a 1,30 euros, tornando rentável cultivar vinha até num jardim urbano.

As 700 parcelas de diferentes dimensões e localizações formam uma manta de retalhos que soma 100 hectares. O modelo permite que as pessoas não precisem migrar para o litoral, mantendo costumes e tradições vivas. Segundo Maria João Cerdeira, coproprietária da Quinta de Soalheiro, a estratégia garante que a geração vindoura tenha orgulho da viticultura.

Como funciona a vindima em parcelas familiares

A vindima acontece quando a uva está pronta, independentemente do clima. Os controlos de maturação começam em julho, e a colheita de 2024 arrancou no dia 11 de agosto, a mais precoce de sempre.

"Vindimar com calor é difícil. Vindimar com chuva é o pior. Mas com chuva a vindima também se faz", garante Maria João Cerdeira. A técnica é simples: pega-se numa tesourinha numa mão e, na outra, o cacho. Corta-se e coloca-se na giga, cesto tradicional para transportar as uvas. Depois vem o trator recolher, e a carga segue no camião para a adega.

Cada hectare produz 10 mil quilos de uva. A marca dá suporte técnico e partilha algumas máquinas com os viticultores, garantindo que todos trabalhem para o mesmo objetivo de qualidade.

A pausa que transforma trabalho em celebração

Elsa Alves, também professora reformada, passa três horas na cozinha preparando a pausa da vindima. Queijos, rissóis, chamuças, folhados doces e salgados, bifanas e bifes de frango, tudo feito em casa, são servidos aos trabalhadores junto com o vinho da colheita do ano anterior.

"Como estamos a falar de minifúndio, a vindima faz-se muito com a família e os amigos. Portanto, é uma forma de agradecimento à mesa. A pausa é sempre com produtos locais, um bom presunto, bolinhos de bacalhau, tudo o que estamos habituados a comer", descreve Maria João Cerdeira, enquanto distribui generosos pedaços de pão com presunto.

Um casal belga que pagou para viver a experiência surpreende-se com a abundância: é "too much" (demasiado) para quem não conhece a tradição portuguesa de receber à mesa.

Por que as pessoas escolhem vindimar mesmo com trabalho duro

Alice Afonso, de 60 anos, admite que o trabalho é um bocado duro e ficam a doer os braços e a cervical de estar sempre olhando para cima. Mas ela adora a experiência.

"Quando uma pessoa está mais deprimida isto alivia muito o stress. A gente anda por aqui, o ar é puro. E na vindima é o convívio, a gente conhece pessoas, faz amizades. É muito bom", resume Alice.

Patrícia Ferreira, que vindima há mais de 25 anos, discorda que seja difícil. Para ela, é um desporto que se faz bem: "Pega numa tesourinha numa mão e, na outra mão, o cacho. É cortar e botar para a giga."

A vindima em Melgaço oferece remuneração que ajuda famílias, ar puro, convívio social e a satisfação de participar de uma tradição centenária que resiste ao tempo.

A herança de 50 anos de tradição Alvarinho contínua

Mais de 50 anos depois de o pai de Maria João Cerdeira ter plantado a primeira vinha contínua de Alvarinho na região, o modelo cooperativo consolida a viticultura como atividade viável e rentável.

O suporte técnico compartilhado e o preço justo pela uva garantem que cultivar vinha em pequenas parcelas não seja apenas simbólico, mas economicamente sustentável. A marca consegue manter qualidade e volume ao trabalhar com centenas de pequenos produtores em vez de concentrar a produção em grandes propriedades.

A estratégia preserva o tecido social da região. Permite que famílias como a de Manuel e Elsa Alves permaneçam na terra, cultivem seus jardins com propósito e vejam o fruto do trabalho reconhecido internacionalmente. Entre abóboras e girassóis, a vinha continua a dar sentido à paisagem e à vida comunitária de Melgaço.

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