Revolução na engenharia: concreto feito com água do mar e areia transforma obras costeiras
Pesquisas mostram como as matérias-primas desafiam regras básicas da construção civil e prometem mudar a maneira como ilhas e portos são construídos

Durante décadas, uma das regras mais conhecidas da engenharia civil foi clara: água do mar e areia marinha não devem ser usadas no concreto armado. Isso porque os sais e cloretos presentes nesses materiais aceleram a corrosão das armaduras de aço, reduzindo a durabilidade das estruturas.
Agora, essa lógica tem começado a mudar. Pesquisadores vêm desenvolvendo uma nova versão de concreto produzida com água do mar e areia marinha, especialmente voltada para ambientes costeiros, onde esses recursos estão disponíveis em abundância.
A transformação não ocorreu porque o sal deixou de ser um problema, mas porque a engenharia passou a buscar alternativas ao aço convencional. Entre elas estão os compósitos reforçados com fibras, conhecidos como FRP, materiais que apresentam alta resistência à corrosão.
Com isso, o que antes era considerado inadequado para a construção passa a ser visto como uma solução promissora para obras marítimas, pontes costeiras, quebra-mares e ilhas artificiais.
O desafio dos materiais tradicionais
A construção civil está entre os setores que mais consomem recursos naturais. A produção de concreto, por exemplo, depende historicamente de água doce, areia de rio e aço.
Foi justamente diante dessa dependência que surgiu o interesse pelo chamado "seawater sea-sand concrete", o concreto produzido com água do mar e areia marinha. A proposta é aproveitar materiais disponíveis no litoral, reduzindo a extração de recursos naturais e os custos de transporte.
O problema estava no aço, não no concreto
Um estudo publicado pela Universidade de Miami aponta que concretos produzidos com água do mar e areia marinha podem apresentar desempenho mecânico semelhante ao do concreto convencional em diversas condições.
A dificuldade está nos íons cloreto presentes na água e na areia marinhas. Esses elementos aceleram a corrosão das armaduras metálicas, comprometendo a vida útil das construções.
Essa limitação impediu a adoção mais ampla da tecnologia por décadas. Por isso, a grande mudança surgiu quando pesquisadores passaram a substituir o aço por materiais mais resistentes ao ambiente marinho.
A solução veio dos compósitos reforçados com fibras
Segundo a Universidade de Miami, a combinação entre concreto marinho e reforços em FRP pode resolver o principal problema relacionado à durabilidade dessas estruturas.
Diferentemente do aço, os polímeros reforçados com fibras não sofrem corrosão da mesma maneira quando expostos à ação dos cloretos. Isso abre caminho para novas soluções estruturais, principalmente, em regiões costeiras e marítimas.
Embora ainda tenham custo mais elevado em algumas aplicações, esses materiais podem compensar o investimento ao reduzir gastos com manutenção e aumentar a vida útil das estruturas.
Resistência acima do concreto convencional
Os avanços já vão além dos estudos teóricos. Pesquisadores da Universidade Politécnica de Hong Kong desenvolveram concretos marinhos de ultra-alto desempenho com resistência à compressão superior a 180 MPa.
Esse valor supera com folga a resistência dos concretos utilizados na maior parte das construções residenciais e comerciais.
Além disso, os pesquisadores também criaram sistemas estruturais e conexões que integram FRP e concreto marinho, demonstrando que a tecnologia já está sendo aplicada em soluções práticas de engenharia.
Onde a tecnologia pode ser mais útil
As maiores oportunidades estão justamente nas regiões costeiras. Nesses locais, transportar água doce e areia de rio costuma aumentar custos, consumo de combustível e emissões relacionadas à logística.
Por isso, utilizar materiais disponíveis localmente pode trazer vantagens econômicas e ambientais.
Entre as aplicações mais promissoras estão portos, pontes costeiras, ilhas artificiais, estruturas offshore e outras obras permanentemente expostas ao ambiente marinho.
Em áreas remotas, os benefícios podem ser ainda maiores, reduzindo a dependência de insumos transportados por longas distâncias.
Uma tecnologia que ainda enfrenta desafios
Apesar dos avanços, o concreto produzido com água do mar e areia marinha ainda não se tornou uma solução dominante.
Pesquisadores apontam que ainda são necessários mais estudos sobre a durabilidade de longo prazo e o comportamento estrutural do recurso. Além disso, os materiais compósitos utilizados como substitutos do aço continuam mais caros em muitas aplicações.
Mesmo assim, o crescente número de pesquisas e projetos demonstra que essa tecnologia deixou de ser apenas uma hipótese e passou a ser considerada uma alternativa real para obras costeiras.
Se os resultados continuarem positivos, a água do mar e a areia marinha poderão deixar de ser vistas como inimigas da construção civil e passar a integrar uma nova geração de soluções para alguns dos ambientes mais desafiadores do planeta.
Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou na Rádio UFMG Educativa e em empresas de marketing, com experiência em produção de conteúdo, SEO e redação Atualmente, escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.



