Pela primeira vez, um país vai pagar serviços de IA a todos os seus cidadãos
Conheça o programa sul-coreano que oferece acesso gratuito e ilimitado a IA generativa integrada aos sistemas do governo, e como ele estrutura financiamento, tecnologia nacional e aplicações práticas

A Coreia do Sul prepara-se para um experimento inédito em escala nacional: oferecer a cada cidadão acesso gratuito e sem limites a serviços de inteligência artificial generativa conectados diretamente aos sistemas governamentais. O programa "AI for All" arranca em fase de testes agora e promete integrar IA ao quotidiano, desde marcar consultas médicas até procurar habitação ou calcular impostos.
Mais do que chatbots isolados, o modelo sul-coreano estrutura-se em três consórcios tecnológicos, financiamento público de chips de processamento e uma regra clara: pelo menos 80% da tecnologia utilizada deve ser de origem nacional. Trata-se de um desenho completo de política pública para universalizar IA, com lições transferíveis para outros contextos.
Como funciona a arquitetura do programa AI for All
O governo sul-coreano selecionou três consórcios para desenvolver aplicações de IA generativa com funcionalidades práticas integradas aos serviços do Estado. Os escolhidos foram avaliados segundo critérios de qualidade dos modelos, desenho do serviço, segurança e capacidade de processamento gráfico.
Os consórcios são liderados pelas operadoras de telecomunicações SK Telecom e KT, além da empresa responsável pela plataforma Kakao, uma das mais populares no país. Cada consórcio desenvolverá a sua própria aplicação de IA e integrará funcionalidades generativas em produtos já existentes.
A ligação direta aos sistemas estatais permite que residentes agendem consultas de saúde, pesquisem imóveis para arrendar e obtenham orientação sobre questões fiscais através das plataformas. Pequenas empresas poderão calcular impostos e verificar elegibilidade para apoios públicos, enquanto pais terão acesso a recomendações de conteúdos educativos personalizados.
O modelo de financiamento com chips NVIDIA e sustentabilidade econômica
Para sustentar o projeto, o Estado sul-coreano fornecerá parte da capacidade computacional necessária, distribuindo até 512 chips NVIDIA B200 pelos três consórcios. Esse apoio em infraestrutura de processamento gráfico é essencial para viabilizar serviços de IA generativa em larga escala.
O apoio governamental aos custos operacionais a nível nacional só deverá começar em 2027. Até lá, cabe às empresas contribuir com fundos próprios e desenvolver outras fontes de receita. Esse cronograma faseado separa o investimento inicial em infraestrutura do financiamento operacional contínuo, distribuindo o risco financeiro entre Estado e setor privado.
A regra da quota nacional de 80% em modelos de IA
As regras do programa incluem uma quota obrigatória para tecnologia doméstica. Os operadores devem encaminhar pelo menos metade de todos os pedidos através do seu próprio modelo de fundação certificado coreano, e mais 30% através de modelos desenvolvidos por outras empresas locais.
Essa estrutura eleva a utilização de tecnologia nacional a 80% de todos os pedidos processados. O recurso a modelos estrangeiros só será permitido quando o ministério o considerar necessário, e essa utilização não terá qualquer subsídio associado.
A quota funciona como política industrial, incentivando o desenvolvimento do ecossistema local de IA enquanto mantém abertura controlada para tecnologia externa quando absolutamente necessária.
O mercado sul-coreano de IA e contexto de adoção
A Coreia do Sul já possui um mercado relevante para inteligência artificial generativa. Um inquérito governamental realizado este ano indica que cerca de um quarto dos sul-coreanos paga por serviços de IA.
O governo estima ainda que mais de 20 milhões de pessoas no país usem atualmente ferramentas de IA generativa gratuitas, a maioria através de plataformas estrangeiras. O ChatGPT contava em abril com cerca de 23,45 milhões de utilizadores coreanos, muito acima do Gemini e do Claude.
Esse nível de adoção prévia cria um terreno fértil para o programa governamental, que busca redirecionar a demanda existente para soluções nacionais integradas aos serviços públicos.
Investimento orçamental e prioridade política
O executivo do presidente Lee Jae-myung reservou cerca de 10 mil milhões de won, o equivalente a cerca de 6,2 milhões de euros, para despesas relacionadas com IA em 2026. Esse valor é três vezes superior ao do ano anterior.
O aumento exponencial no orçamento revela a prioridade estratégica atribuída à inteligência artificial na agenda governamental. Trata-se de um sinal claro de compromisso político de longo prazo, não apenas de projeto piloto.
Aplicações práticas para cidadãos e pequenas empresas
Os serviços oferecidos vão além de conversação genérica. Residentes poderão marcar consultas médicas diretamente através da IA, procurar habitação para arrendar com assistência automatizada e obter orientação personalizada sobre impostos e obrigações fiscais.
Pequenas empresas ganham ferramentas específicas: cálculo automatizado de impostos e verificação de elegibilidade para apoios públicos. Pais terão acesso a sistemas de recomendação de conteúdos educativos adequados aos filhos.
Essas funcionalidades práticas diferenciam o programa de chatbots genéricos, criando valor imediato e mensurável para diferentes perfis de utilizadores.
Cronograma de implementação e próximas etapas
O programa arranca em fase de testes agora em setembro. Seguem-se os testes beta e um lançamento completo previsto até ao final do ano.
Após o lançamento, há um período de maturação até 2027, quando o governo assumirá o financiamento dos custos operacionais em escala nacional. Até lá, os consórcios devem validar modelos de negócio sustentáveis e ajustar as aplicações com base no feedback dos utilizadores.
Esse cronograma permite iteração e aprendizagem antes do comprometimento financeiro total do Estado.
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