Cineasta Pedro Almodóvar revela como voos e máscaras moldaram 50 anos de criação
Aos 77 anos, cineasta espanhol detalha processo criativo inédito: escrever a 10 mil metros de altitude, seguir personagens além das telas e transformar a ansiedade em arte duradoura

Aos 77 anos, Pedro Almodóvar encontrou na suspensão dos voos o laboratório perfeito para criar. Entre decolagens e pousos, longe do chão e do tempo comum, ele escreveu seu primeiro romance depois de meio século transformando histórias em imagens.
O homem que só escrevia nos aviões marca o retorno do diretor à palavra escrita, mas também revela algo maior: um método de trabalho construído ao longo de décadas, no qual a ficção nunca morre e os personagens continuam vivendo depois que os créditos sobem. Este é o retrato de como um dos maiores cineastas contemporâneos pensa, cria e resiste.
A escrita que acontece fora do lugar e do tempo
O movimento sempre foi um território fértil para a imaginação de Almodóvar. Nos aviões, a 10 mil metros de altitude, ele encontra o que chama de "não lugar" e "não tempo" — uma suspensão que favorece a concentração.
"Muda-se de cidade, de país, de fuso horário, e por algumas horas não se pertence inteiramente a lugar nenhum", explica. Essa abstração dá ritmo à imaginação e permite que ideias importantes nasçam durante os voos.
O mesmo acontece nos trens e nas caminhadas. Para ele, há algo no movimento que abstrai a mente e libera o processo criativo de forma única.
Quando as vocações demoram décadas para se encontrar
O protagonista do romance, Flavio Guijarro, passa por diversos ofícios antes de descobrir sua verdadeira vocação como diretor. Almodóvar reconhece nessa trajetória algo que o comove profundamente: pessoas que demoram a encontrar seu lugar.
"Ele descobre tarde, sim, mas descobre", diz o cineasta. O essencial está na inteligência de buscar ajuda e recorrer a quem sabe mais.
Para Almodóvar, um diretor reúne as frustrações de várias disciplinas: pintor, músico, romancista, decorador. Não atinge necessariamente a excelência em nenhuma, mas sabe utilizar as cores, escrever, dialogar e pensar os espaços. Para um diretor, convém ter experimentado outros ofícios e percorrido outras profissões.
Fan fiction como declaração de amor às histórias
A fan fiction aparece no romance como um fenômeno cultural significativo. Almodóvar começou a observá-la com Jornada nas Estrelas (Star Trek), Guerra nas Estrelas (Star Wars) e Cpúsculo — universos que os fãs se recusam a deixar morrer.
"Acho uma atitude maravilhosa, quase uma declaração de amor", afirma. Da indústria mais massiva surge uma atividade criativa livre e particular, onde os consumidores também se tornam autores.
Ele próprio praticou essa continuidade com seus próprios filmes. Nos anos oitenta, imaginou que a madre superiora de Maus Hábitos (Entre tinieblas), depois de ficar sozinha, viajava para a Tailândia com uma jovem redimida, montava um negócio de heroína, voltava à Espanha com um carregamento e terminava na prisão. Ao sair, propunha às antigas companheiras ir para missões africanas, começando outro filme com ecos de Tarzan e Mogambo.
Como Borges e Marguerite Duras ensinam a ouvir aventuras alheias
O romance trabalha uma ideia de Jorge Luis Borges: não viver a aventura, mas escutá-la para depois contá-la e recordá-la. Almodóvar reconhece esse princípio na própria vida.
Ele relembra uma anedota de Jeanne Moreau sobre Marguerite Duras. A escritora francesa, que amou muito, perguntava sempre à atriz: "Jeanne, me conte". Se ela tivesse terminado com alguém, queria saber tudo. Se tivesse conhecido alguém novo, também.
Para Almodóvar, Borges é um dos autores seguros aos quais se pode voltar sempre. Seus livros estão sublinhados e ele sabe que deve retornar a eles — um escritor que se pode reler até a saciedade.
Os cinquenta anos entre a vocação precoce e o primeiro romance
Ao preparar a série documental da Movistar Plus, Almodóvar revisitou materiais antigos: entrevistas, imagens, primeiros trabalhos, os filmes em Super-8 dos anos setenta. A descoberta o impressionou: naqueles filmes amadores, sem técnica, já estava o mesmo diretor que ele é hoje.
Desde pequeno tinha a vocação de contar histórias, primeiro oralmente e depois por escrito. Escrevia com as poucas ferramentas de que dispunha, sem um talento excepcional, mas com uma imaginação transbordante.
Quando chegou a Madri em 1969, começou a trabalhar na Telefónica. Passaram-se doze anos entre esse momento e o início de Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Sorte (Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón). Filmava nos finais de semana, pedia licenças não remuneradas e tentava se engajar em qualquer coisa relacionada a cinema, teatro ou atuação. Pepi e Labirinto de Paixões foram feitos enquanto ele ainda trabalhava na companhia telefônica.
Conheceu Carmen Maura atuando em As Mãos Sujas, de Sartre, onde ele era um figurante/meritório da companhia e ela, a estrela. Ouvindo-a, aprendeu a diferenciar tons: ela não parecia uma atriz de teatro no sentido pomposo, vinha do teatro de revista e falava com uma naturalidade impressionante.
Ansiedade como combustível e paralisia
O romance aborda a ansiedade e a sensação de correr contra o tempo. Almodóvar admite não conseguir domina-la sempre, mas reconhece que parte dela pode ser positiva por empurrar para a ação.
Durante as filmagens, a adrenalina o mantém desperto e de pé. Algo quase milagroso acontece: as dores nas costas, seu ponto fraco que sente todos os dias, desaparecem completamente. No dia seguinte ao término das gravações, elas voltam.
Mas quando a ansiedade atinge certos níveis, ela paralisa. "Nesse momento é preciso pedir ajuda e ir ao médico", afirma. Nos momentos patológicos, ela tira a capacidade de concentração — nem mesmo os livros conseguem distrair. O corpo dá a impressão de que não funciona, embora anatomicamente esteja bem. Ele passou por isso três vezes, e descobrir que realmente não havia nada físico acontecendo foi importante.
O monólogo sobre a adicção e a lucidez dolorosa do amor
No monólogo A Adicção, incluído no romance, há algo belo e duro: a lucidez de quem entende que amar alguém nem sempre significa poder salvá-lo. Almodóvar conheceu esse território de perto.
Nos anos oitenta, teve amigos íntimos que usavam heroína, e vários morreram. Essa realidade fez parte de sua vida durante muito tempo. A parte mais pessoal do texto vem de outra experiência: ter que terminar um relacionamento quando ainda havia amor.
Segundo o cineasta, separar-se de alguém a quem ainda se ama, mesmo sabendo que é a única maneira de se salvar, é muito doloroso. "Se a outra pessoa não consegue sair dali, chega um momento em que você tem que se afastar, porque senão os dois se afundam."
Ele admite que não teria a generosidade do personagem que, no livro, abre a porta e se deixa levar pela emoção. Ele precisaria conversar, pedir explicações e entender o que aconteceu.
Sublinhados privados revelam mais que palavras públicas
No romance, Alez aprende a ler os sublinhados de Flavio para compreendê-lo. Para Almodóvar, essas pistas pessoais que deixamos e guardamos quando acreditamos que ninguém está olhando são mais reveladoras do que as palavras públicas.
"Às vezes dizem muito mais sobre você do que o que você é capaz de dizer em voz alta", afirma. Os rastros privados — livros marcados, buscas, mensagens, playlists — formam o mapa da pessoa real.
Futuro distópico e a urgência da empatia
O romance imagina sociedades futuras com corpos modificados, memórias vendidas, fazendas de gestação e seres que buscam emoções humanas. Almodóvar hesitou em introduzir outras guerras e elementos da atualidade, mas decidiu não fazê-lo para focar nos personagens.
Fez os Estados Unidos desaparecerem através de um autogolpe porque acredita que o país caminha direto para o desastre. Mas ele não queria que a atualidade devorasse a história.
Nesse futuro, alguns seres necessitam de implantes de humor, desejo, melancolia ou intuição. Para o cineasta, a emoção que precisamos recuperar com urgência é a empatia: "É fundamental para olhar para o outro como um ser humano."
Sem empatia, tudo se torna abstrato, tudo se transforma em números ou slogans. Também é preciso continuar defendendo direitos conquistados, como o aborto legal, especialmente no momento em que a extrema-direita cresce em tantas partes do mundo.
Inteligência artificial e a criação que precisa continuar humana
Almodóvar reconhece não ser um especialista em inteligência artificial e que nunca a utilizou. Pensa que ela poderia servir para pesquisa e documentação em filmes que abordam profissões ou universos que ele não conhece.
Ao mesmo tempo, ela lhe causa inquietação: aqueles que a desenvolvem devem ser cuidadosos, porque pode chegar um momento em que a IA saiba mais do que os humanos e já não seja possível competir com ela.
Como criador, não tem medo de que ela possa fazer um filme seu, com todas as camadas e o tempo que se leva para construí-lo. O que o preocupa é a dependência: "Um apagão de uma semana seria muito inquietante."
Memória histórica como dívida pendente
A memória aparece no romance como tema central. Para Almodóvar, a memória histórica na Espanha continua sendo uma dívida pendente. Passaram-se mais de 80 anos desde o fim da Guerra Civil e ainda há famílias procurando seus entes queridos em valas comuns.
"Antes eram os filhos ou os netos; agora já são os bisnetos", lamenta. Muita gente idosa nos vilarejos ainda sabia para onde tinham levado os assassinados — havia testemunhas, havia memória oral. Mas essas pessoas foram morrendo.
A memória é essencial para que as coisas não se repitam. Na geração de Almodóvar, os pais quase nunca falavam da guerra. Havia um silêncio patológico, nascido do medo de que contar algo pudesse colocar os filhos em perigo. Assim se viveu o franquismo: sem dizer uma palavra, ou dizendo-a tarde demais.
Europa tíbia e governo espanhol claro
Quanto ao posicionamento político da Europa, Almodóvar observa: "Às vezes a Europa está sendo morna demais." Em contraste, destaca que Pedro Sánchez e seu governo têm sido claros em algumas posições.
O cineasta menciona especialmente a situação em Ceuta, com muitas crianças chegando sozinhas: "Como você vai chamar de invasor uma criança? Ou uma menina que provavelmente está fadada a ser violentada por alguém?"
Para ele, não são números, são seres humanos. A preocupação com o crescimento da extrema-direita é constante: "Me inquieta este momento em que a extrema-direita aparece sem pudor em eleições gerais."
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