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Para que servem os pontinhos coloridos no fundo da embalagem de alimentos

Descubra a verdadeira função das marcações que geraram um dos boatos mais compartilhados no WhatsApp e aprenda a identificar informações reais de segurança alimentar

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Mais de uma embalagem é impressa ao mesmo tempo na mesma bobina de papel • Gemini/Reprodução

Durante anos, milhões de brasileiros viraram caixinhas de leite de cabeça para baixo acreditando que sabiam decifrar um código secreto. Os quadradinhos coloridos no fundo da embalagem indicariam quantas vezes o produto foi reprocessado pela fábrica, segundo mensagens que viralizaram em grupos de WhatsApp e assustaram famílias inteiras nos corredores de supermercado.

A história é completamente falsa. As marcações coloridas servem exclusivamente para controle de qualidade da impressão gráfica e não têm nenhuma relação com o conteúdo dentro da caixa. A explicação real é muito mais simples e menos assustadora do que o boato sugeria.

O que são realmente os quadradinhos coloridos

Segundo a Tetra Pak, fabricante das embalagens cartonadas usadas por praticamente todas as marcas de leite longa vida do Brasil, as marcações coloridas são testes de cor do processo de impressão.

O processo de fabricação das caixinhas utiliza uma técnica chamada impressão flexográfica. Grandes bobinas de papel-cartão passam por máquinas que imprimem a identidade visual de cada marca usando tintas à base de água.

Cada cor visível na embalagem nasce de uma mistura específica de pigmentos. Os quadrados coloridos no fundo indicam quais tintas já foram aplicadas e permitem que os técnicos acompanhem o resultado em tempo real.

As três funções técnicas das marcações

Ricardo Granuzzio, especialista em impressão da Tetra Pak, explica que as marcações cumprem três funções simultâneas no processo industrial.

Teste de pigmentação: garante que cada cor aplicada esteja na tonalidade correta. Um azul levemente mais claro que o padrão seria percebido pelo consumidor como diferença entre lotes.

Registro de alinhamento: pequenos círculos pretos ou coloridos em linha reta servem de referência para que as guilhotinas automáticas cortem a bobina no ponto exato. Sem esse guia, as embalagens sairiam tortas ou com a imagem deslocada.

Controle de posição na bobina: os números que acompanham os blocos identificam em que ponto da bobina aquela embalagem foi impressa. É rastreabilidade industrial, não rótulo do produto.

Por que algumas embalagens têm marcações e outras não

Mais de uma embalagem é impressa ao mesmo tempo na mesma bobina de papel. Como o teste de cor não precisa aparecer em todas as unidades, as impressoras realizam as marcações em fileiras alternadas.

Quando a bobina é cortada e as embalagens são separadas para envase, metade delas fica com os quadradinhos visíveis e a outra metade sai sem nenhuma marcação.

Isso explica o fenômeno que alimentou o boato: ao abrir um fardo de 12 caixas de leite no supermercado, o consumidor encontra seis com blocos coloridos e seis sem. A diferença visual parece indicar que os produtos são diferentes, mas não são.

Todas as caixas saíram da mesma bobina, receberam o mesmo leite e passaram pelo mesmo envase. A única variação é a posição que ocupavam no papel antes do corte.

O mito do leite reprocessado e a legislação brasileira

O RIISPOA (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal) veda expressamente o retorno de produtos vencidos à cadeia de envase para consumo humano.

Leite que passou da validade não volta para a fábrica, não recebe nova pasteurização e não é reembalado. A legislação existe para proteger o consumidor contra riscos microbiológicos graves.

Leite reprocessado após o vencimento poderia conter bactérias resistentes ao tratamento térmico, colocando em risco a saúde de quem consome. Os órgãos de fiscalização, incluindo o Ministério da Agricultura e a vigilância sanitária estadual, monitoram a cadeia produtiva para impedir essa prática.

A ABLV (Associação Brasileira da Indústria de Lácteos Longa Vida) reforçou em nota oficial que o leite longa vida está no mercado brasileiro há mais de 40 anos e segue rigorosamente os padrões do MAPA. A entidade afirma categoricamente: não existe leite reprocessado no Brasil.

Significado real versus mito: o que cada marcação indica

Quadrados coloridos

Real: teste de tonalidade das tintas usadas na impressão da embalagem. Cada quadrado representa um pigmento aplicado.

Mito: número de vezes que o leite foi fervido ou reprocessado.

Códigos numéricos

Real: identificação da posição da embalagem dentro da bobina de impressão. Serve para rastreamento gráfico.

Mito: grau de pureza do produto ou nível de conservantes adicionados.

Barras de registro

Real: guias de alinhamento para que as guilhotinas automáticas cortem a embalagem no ponto correto.

Mito: indicativo de teor de substâncias químicas no conteúdo.

Onde encontrar as informações que realmente importam

A segurança de um produto alimentício não está no fundo da embalagem. Está no rótulo lateral e na integridade física da caixa.

Cinco critérios ajudam a fazer uma compra segura de leite longa vida e outros alimentos embalados.

Data de validade: confira sempre. A caixinha de leite longa vida dura em média de 4 a 6 meses fechada. Após aberta, o consumo deve ser feito em até 3 dias, com refrigeração.

Selo do SIF: o carimbo do Serviço de Inspeção Federal garante que a indústria cumpriu todas as normas sanitárias federais. Produtos sem esse selo não devem ser adquiridos.

Número do lote: permite rastrear a origem do produto em caso de recall ou problema sanitário. Está impresso junto à data de validade.

Integridade da embalagem: caixas amassadas com deformações profundas, estufadas ou com vazamento visível devem ser descartadas. A barreira de proteção pode ter sido comprometida.

Tabela nutricional e lista de ingredientes: são as informações regulamentadas por lei que de fato dizem o que está dentro da embalagem. Os pontinhos coloridos, não.

Por que o boato se espalhou tão rapidamente

A explicação falsa combinava dois ingredientes irresistíveis para a desinformação: medo e simplicidade. A teoria era fácil de repetir em áudios de WhatsApp e tocava num ponto sensível, a alimentação dos filhos.

A frase "cada quadradinho é uma vez que o leite foi fervido" cabia perfeitamente em mensagens curtas e parecia fazer sentido visual. A explicação verdadeira envolve flexografia, bobinas e fotocélulas, termos que não cabem num áudio de 30 segundos.

A Tetra Pak reagiu em 2020, imprimindo diretamente nas embalagens a frase: "Marcações ou barrinhas coloridas são exclusivamente para controle de qualidade de impressão das embalagens."

Salvador Marino, diretor industrial das fábricas da empresa em Monte Mor e Ponta Grossa, reforçou que as marcas são impressas antes de qualquer alimento entrar em contato com o papel revestido. A embalagem chega às fábricas de laticínios já pronta, em bobinas seladas.

Como identificar informação confiável sobre alimentos

Confundir controle de impressão com qualidade do produto é o mesmo que avaliar o sabor de um bolo pela cor do papel que embrulha a forma. As marcações coloridas existem para garantir que o azul do rótulo seja o azul certo e que a guilhotina corte no milímetro exato.

São ferramentas da indústria gráfica, impressas semanas antes de o leite ser pasteurizado, envasado e lacado. Nada têm a ver com o conteúdo.

Da próxima vez que alguém mandar aquele áudio no grupo da família dizendo para "olhar os quadradinhos antes de comprar", você já sabe a verdade. Informação verificada protege mais do que qualquer teoria de WhatsApp.

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