Belo Horizonte
Itatiaia

País da América Latina tem a primeira policial trans após 200 anos

Florencia Olivera está entre os 22 novos policiais nomeados em Tacuarembó, no Uruguai

Por
A policial Florencia Olivera • Reprodução / Instagram

Fundada formalmente em 18 de dezembro de 1829, nos primórdios da organização do Estado do Leste, a Polícia Nacional Uruguaia atravessou quase dois séculos de profundas transformações. Superou regimes ditatoriais, acompanhou a restauração democrática, modernizou fardas e tecnologias, e consolidou o número 911 como o elo definitivo de socorro à população. Contudo, em quase 197 anos de existência, a instituição jamais havia testemunhado o feito registrado recentemente no departamento de Tacuarembó.

Sob os aplausos calorosos que tomaram o Teatro Escayola durante a formatura da 59ª turma de policiais nacionais, uma conquista individual transformou-se em um marco para as instituições do país. Entre os 22 novos agentes formados, figurava Florencia Olivera, a primeira mulher transgênero a concluir o curso e ingressar oficialmente nos quadros da polícia uruguaia.

A emoção de Florencia transbordava antes mesmo que ela conseguisse expressar o significado daquele momento. Rodeada por colegas de farda, familiares e ativistas da comunidade LGBT+, ela buscava assimilar a magnitude do diploma recebido. Para ela, o evento não simbolizava apenas o encerramento de um rigoroso ciclo de instrução, mas o ápice de anos de dedicação, superação e resiliência.

"Estou muito emocionada. É uma mistura incrível de sentimentos. Chegar até aqui, conquistar este espaço e superar cada barreira foi um desafio completo", disse Florencia Olivera em entrevista.

A ligação de Florencia com a carreira policial não foi fruto de um impulso recente. Há vários anos ela vinha se preparando de forma obstinada, focando nos estudos e no condicionamento físico para alcançar a carreira que tanto almejava. Ela destaca que a vocação para o serviço público sempre foi o combustível da jornada.

"Isso não é uma novidade na minha vida. Venho tentando ingressar na corporação há muitos anos, buscando sempre me aperfeiçoar, estudar e me capacitar para exercer esta profissão, que considero linda e essencial para o serviço à comunidade", relatou a policial.

A trajetória, no entanto, impôs provações severas. Além do exigente crivo acadêmico, técnico e de esforço físico comum à formação de qualquer agente, Florencia enfrentou desafios adicionais decorrentes do preconceito e de barreiras sociais — contratempos que ela prefere encarar como meros obstáculos superados.

"Sempre existem barreiras e momentos de incerteza. No entanto, consegui administrar cada um deles e vencer tudo o que surgiu no meu caminho. Eventualmente, surgiam situações desconfortáveis ou que tentavam me desestabilizar, mas decidi não dar atenção a elas. Meu foco absoluto estava na meta que eu precisava atingir", explicou.

A formatura de Florencia carrega um peso social que ultrapassa a esfera individual. Integrantes de coletivos trans do norte do Uruguai que acompanharam a solenidade destacaram que o feito representa um divisor de águas na representatividade institucional, funcionando como um farol de abertura democrática para as próximas gerações.

Agora, com o objetivo plenamente alcançado, inicia-se a missão prática de patrulhamento e garantia da ordem. A mesma instituição que nasceu em 1829 com o propósito de proteger a vida, as liberdades civis e auxiliar o Poder Judiciário, dá um passo definitivo rumo à pluralidade. Para Florencia Olivera, a ficha do pioneirismo ainda parece estar caindo.

"Dei tudo de mim em cada etapa. Consegui vencer. Às vezes, olho para trás e parece difícil de acreditar", concluiu.

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.