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Padre italiano vendeu 12 mil piranhas para erguer pontes e criar museu na Amazônia

Conheça Giovanni Gallo, jesuíta que vendeu as piranhas empalhadas

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O padre jesuíta Giovanni Gallo • Reprodução/CNN Brasil

Nas margens do rio Arari, na Vila de Jenipapo, piranhas mortas retiradas das redes de pescadores ganharam destino inusitado. O padre jesuíta Giovanni Gallo ensinou moradoras locais a embalsamar os peixes e os vendeu para o exterior, gerando renda e viabilizando obras públicas na Ilha de Marajó, no Pará.

Entre 1970 e os anos seguintes, Gallo estruturou uma atividade artesanal que uniu autonomia financeira e consciência histórica. Com o dinheiro de 12 mil exemplares comercializados, a comunidade construiu 350 metros de pontes de madeira, um cemitério e uma pista de pouso de 800 metros. Paralelamente, o religioso fundou o Museu do Marajó, projeto pioneiro de preservação cultural com participação popular.

Como funcionava o projeto das piranhas empalhadas

Ao assumir a paróquia de Santa Cruz do Arari em 1970, Giovanni Gallo identificou nos recursos locais o caminho para o desenvolvimento comunitário. As piranhas que morriam nas redes dos pescadores viraram matéria-prima econômica.

O sacerdote montou um laboratório onde ensinou mulheres de Jenipapo a técnica de embalsamamento. O artesanato era então comercializado para o exterior através da rede de contatos que Gallo mantinha na Itália.

Os pagamentos aos moradores garantiram autonomia financeira. Além disso, parte da receita financiou infraestrutura essencial para a região, que carecia de pontes e acessos adequados.

Infraestrutura erguida com a venda dos peixes

Segundo registros do próprio Museu do Marajó datados entre 2007 e 2009, a comercialização dos 12 mil exemplares de piranhas viabilizou três obras estruturantes na comunidade.

Foram construídos 350 metros de pontes de madeira, facilitando a locomoção em área de difícil acesso. Um cemitério foi estabelecido para atender necessidades básicas da população local.

A obra mais expressiva foi uma pista de pouso de 800 metros, ampliando significativamente a conectividade da região amazônica com outras localidades.

Museu do Marajó: cultura construída com a comunidade

Em 1972, nasceu o Museu do Marajó a partir da proposta original chamada "O Nosso Museu", sediada em Santa Cruz do Arari. O projeto tinha objetivo duplo: desenvolver a região economicamente e preservar sua memória cultural.

Gallo convidou a população local a participar ativamente da formação do acervo. Moradores doaram cacos e peças arqueológicas marajoaras de diferentes pontos do arquipélago, construindo coletivamente o patrimônio histórico.

Em 1987, o museu foi transferido para Cachoeira do Arari, onde ganhou nova estrutura e expandiu sua proposta de interação com visitantes.

Método interativo: o museu na ponta dos dedos

A concepção museológica de Giovanni Gallo rompia com o modelo tradicional de exposição. Em vez de vitrines que separavam visitantes das peças, o padre incentivava a descoberta tátil e a experimentação.

O religioso criou os "computadores de marca caipira", objetos de madeira com diferentes formas que escondiam perguntas. As engenhocas eram produzidas a partir dos saberes locais e da interação com a comunidade marajoara.

Gallo observou que os moradores tinham tendência de "ver com as mãos", tocando e experimentando objetos. A partir dessa característica cultural, desenvolveu o conceito de "museu na ponta dos dedos", onde o conhecimento era vivo e compartilhado, não apenas contemplado.

Legado cultural e econômico na Ilha de Marajó

Os trabalhos estruturados pelo padre jesuíta geraram dois pilares fundamentais para a comunidade: autonomia financeira e consciência histórica em relação ao patrimônio do arquipélago.

Enquanto incentivava a atividade artesanal das piranhas, Gallo simultaneamente convidava os moradores a construírem o acervo do museu. A estratégia unia objetivos aparentemente distantes: atividade econômica e preservação cultural.

Ainda hoje é possível encontrar comentários sobre as boas memórias e conhecimentos deixados por Giovanni Gallo na Ilha de Marajó. A metodologia do religioso italiano permanece como exemplo de desenvolvimento comunitário participativo na Amazônia.

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