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Os dois países da América do Sul que inundaram território para construir uma barragem e alteraram uma fronteira

A construção de uma usina hidrelétrica no rio Paraná alterou o curso das águas e deixou uma ilha argentina cercada por território aquático paraguaio

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Imagem ilustrativa • Arquivo

A construção de uma das maiores usinas hidrelétricas da América do Sul provocou uma mudança geográfica curiosa na divisa entre Argentina e Paraguai. A formação de um reservatório no rio Paraná deixou uma ilha argentina cercada por águas sob jurisdição paraguaia, criando uma situação que ainda gera conflitos entre os dois países.

O caso envolve a usina hidrelétrica de Yacyretá. O empreendimento binacional foi projetado para aproveitar o potencial energético do rio Paraná e teve suas bases estabelecidas em 1973, quando os governos argentino e paraguaio assinaram um tratado para viabilizar a construção.

As obras exigiram a instalação de estruturas de contenção, turbinas e vertedouros, além da formação de um enorme reservatório. Com o enchimento, aproximadamente 1.600 quilômetros quadrados passaram a ser ocupados pelo lago artificial. Desse total, cerca de 807 km² correspondem a território paraguaio e 200 km² a território argentino.

Ilha argentina ficou cercada por águas paraguaias

A principal consequência territorial ocorreu na região de Apipé Grande, ilha argentina com aproximadamente 42 quilômetros de extensão, localizada no rio Paraná. O Tratado de Limites assinado entre Argentina e Paraguai, em 3 de fevereiro de 1876, estabeleceu que a fronteira entre os países acompanharia a metade do canal principal do rio. O documento também reconheceu a soberania argentina sobre a ilha Apipé e a paraguaia sobre a ilha Yacyretá.

Durante a construção da usina, em 1981, foi estabelecido um novo canal de navegação ao sul de Apipé Grande. Até então, o principal caminho utilizado pelo rio passava ao norte da ilha.

Como a fronteira internacional estava vinculada ao canal principal do Paraná, a alteração no curso da navegação fez com que Apipé Grande e outras ilhas menores ficassem completamente cercadas por águas paraguaias.

Apesar da mudança, a ilha continuou pertencendo à Argentina. A jurisdição sobre as águas ao redor, entretanto, passou a ser do Paraguai.

Mudança ainda provoca conflitos entre os países

A situação geográfica passou a interferir diretamente na rotina dos moradores de Apipé Grande. Para determinadas atividades de navegação e pesca, a população ficou sujeita a autorizações e controles das autoridades paraguaias.

O cenário provocou reclamações de representantes da província argentina de Corrientes e divergências sobre a interpretação dos tratados que definem a fronteira entre os dois países.

Em maio de 2026, o assunto voltou a ganhar destaque após denúncias de novos incidentes envolvendo pescadores argentinos e autoridades paraguaias. Moradores da ilha reivindicaram direitos sobre as águas que cercam o território e defenderam a revisão dos acordos relacionados à mudança no curso do rio.

Assim, uma obra planejada para ampliar a geração de energia acabou produzindo uma consequência inesperada: uma ilha que permanece sob soberania argentina, mas está cercada por águas pertencentes ao Paraguai.

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