O tesouro de Troia que Rússia, Alemanha e Turquia disputam há 150 anos
Desenterrado no século XIX por um arqueólogo alemão em território otomano e levado como botim de guerra para Moscú, o Tesoro de Príamo ilustra os dilemas do patrimônio cultural em conflito internacional

Numa conferência na Universidade de Ankara, a professora de Zeynep Boz ouviu seu mentor relatar a frustração de tentar ver, em solo russo, artefatos que pertencem à história de seu próprio país. O ouro de Troia — joias, vasos e objetos preciosos com 4.500 anos — estava a milhares de quilômetros de casa, guardado num museu de Moscú.
Aquela história marcou Boz profundamente. Hoje, como chefe do Departamento para a Lucha contra el Tráfico Ilícito de Bienes Culturales da Turquia, ela comanda os esforços para trazer de volta os tesouros que deixaram o país. O Tesoro de Príamo é o caso mais emblemático: três países o reivindicam, nenhum cede, e a disputa se arrasta por décadas sem resolução à vista.
A descoberta que mudou a arqueologia e gerou uma disputa centenária
O empresário e arqueólogo alemão Heinrich Schliemann perseguia havia anos a lenda da "Troia ventosa" descrita por Homero. Seu anúncio da descoberta da antiga cidade no norte da Anatólia, na costa do Egeu, repercutiu no mundo inteiro.
Na antiguidade, o local já era associado à Troia das epopeyas homéricas. Alejandro Magno e Julio César peregrinaram até lá. Com o tempo, porém, a localização exata se perdeu e até a existência da cidade foi questionada.
Schliemann não foi o primeiro a identificar o montículo de Hisarlik, na atual Turquia, como possível sítio de Troia. Seus métodos apressados são condenados pelos arqueólogos modernos. Ainda assim, o consenso acadêmico posterior validou sua identificação.
"Descobriu muito rapidamente material que sugere que foi uma importante cidade da Idade de Bronze e cenário de numerosas batalhas, o que parece confirmar que Troia foi um lugar importante que provavelmente inspirou Homero", afirma Rachel Kousser, professora de estudos clássicos e história da arte na Universidade da Ciudad de Nueva York.
O tesouro que Schliemann chamou de ouro de Helena
Após escavar uma grande trincheira no coração do túmulo de Hisarlik, Schliemann desenterrou pingentes de ouro, machados rituais, escudos, broches, anéis, pulseiras e muito mais. Declarou que eram o Tesoro de Príamo, em honra ao lendário rei da Ilíada de Homero.
Entre os achados mais impressionantes da história arqueológica estavam joias que Schliemann proclamou poderem ter pertencido a Helena de Troia. Numa fotografia famosa, ele fez sua esposa, Sophia, posar como Helena usando algumas das joias.
Na verdade, Schliemann havia escavado além da camada da Troia de Homero. Encontrou ouro de um assentamento anterior da Idade de Bronze, datado de cerca de 2450 a.C. — mais de mil anos antes dos relatos descritos nas epopeyas.
"Consolidou a historicidade de Troia com os restos físicos de uma cidade majestosa", afirma Susan Heuck Allen, pesquisadora visitante do departamento de estudos clássicos da Universidade de Brown e autora de Finding the Walls of Troy. "Mostraram ao mundo que existiam civilizações contemporâneas relacionadas entre si, que lutaram e foram destruídas, e Homero narrou uma história que celebrava essas memórias em sua poesia".
Como o tesouro saiu da Turquia e chegou à Alemanha
A Turquia afirma que os tesouros foram escavados em território que agora pertence ao país. Segundo autoridades turcas, Schliemann os contrabandeou para Atenas sem permissão das autoridades otomanas que governavam a região naquela época.
Na época, os otomanos processaram Schliemann num tribunal grego. Ele pagou uma indenização substancial. A Turquia argumenta agora que esse pagamento não constituiu compra do ouro nem transferência de propriedade.
Em 1881, Schliemann doou o tesouro troiano à Alemanha. Os artefatos permaneceram no país por décadas, até desaparecerem durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial.
O desaparecimento e reaparecimento do ouro em Moscú
O tesouro desapareceu de um armazém num bunker antiaéreo de Berlim durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Muitos temiam que tivesse sido destruído.
Na década de 1990, a Rússia reconheceu que tropas soviéticas haviam se apropriado do espólio como botim de guerra. Essa revelação, seguida de uma exposição no Museo Pushkin, avivou imediatamente as tensões sobre a propriedade da coleção.
Os artefatos, com 4.500 anos de antiguidade, permanecem em Moscú, no Museo Estatal Pushkin de Bellas Artes. Estão presos numa disputa internacional amarga entre três países que dificilmente se resolverá em breve.
Por que três países reivindicam o mesmo tesouro
A Rússia insiste que o ouro é compensação adequada pelos atos nazistas. Afirma não ter intenção de devolvê-lo. As ações russas violam o direito internacional, segundo Patty Gerstenblith, especialista em questões de patrimônio cultural e professora emérita da Faculdade de Direito da Universidade DePaul, mas é improvável que o governo entregue os tesouros.
A Alemanha mantém sua reivindicação de propriedade, mas reconhece que as conversas com a Rússia não estão chegando a lugar nenhum. "Desde o começo da guerra de agressão contra Ucrânia, todos os debates sobre o tema da arte saqueada se paralisaram completamente", declara Gesche Rintelen, porta-voz da Fundação do Patrimônio Cultural Prusiano, que supervisiona os museus de Berlim.
A Turquia argumenta que o sítio arqueológico de Troia é o único lugar capaz de mostrar o ouro em seu contexto histórico. "A questão não é simplesmente de propriedade ou valor monetário", afirma Rustem Aslan, diretor das escavações em Troia em nome do Ministério de Cultura e Turismo da Turquia. "Trata-se do direito de um país e de uma comunidade local a preservar, estudar e apresentar o patrimônio cultural originário de seu território".
O que dizem especialistas sobre a disputa legal
O caso da Turquia exigirá que o país demonstre ter feito esforços para recuperar a coleção da Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial, segundo Gerstenblith. Também exigirá compreensão clara dos acontecimentos que envolveram a escavação e exportação de Schliemann.
"É improvável que cheguemos a saber com certeza o que aconteceu", afirma a especialista. "Deveriam devolvê-la à Alemanha e deixar que Alemanha e Turquia se sentem para negociar e chegar a um acordo".
Vários especialistas opinam que o conflito continuará apesar das aspirações da Turquia. "Creio que deveriam recuperá-lo", diz Kousser. "É provável que consigam? Não".
Precedentes de devolução e possíveis soluções
Existem precedentes de devoluções de artefatos troianos. Objetos procedentes de Troia encontram-se dispersos em museus de todo o mundo, incluindo os de Berlim e a Instituição Smithsonian em Washington.
Em 2012, o Museo de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia emprestou à Turquia, por tempo indefinido, 24 peças de joalheria de ouro. Após análise, comprovou-se que provavelmente procediam de Troia ou seus arredores. Em troca, a Turquia comprometeu-se a emprestar artefatos ao museu.
Trata-se de um procedimento de empréstimo que, segundo especialistas, poderia algum dia ajudar o Tesoro de Príamo a retornar à Turquia. Especialistas apontam que acordos de empréstimo de longo prazo podem ser alternativa viável quando a devolução definitiva enfrenta impasses políticos.
A visão turca sobre o retorno do patrimônio cultural
A Turquia espera, com otimismo singular entre muitos especialistas, que o ouro faça um caminho inverso ao de Odisseu — o herói cujo longo regresso de Troia é narrado por Homero na Odisseia.
Segundo Boz, "A Odisseia começa em Troia e, em última instância, é uma história sobre o anseio de regressar a casa. Seria apropriado que a extraordinária viagem desses objetos não terminasse com outro traslado entre custodiantes distantes, mas sim com seu reencontro com a cidade que lhes dá sentido".
Um museu abriu suas portas próximo ao sítio arqueológico de Troia em 2018. Autoridades turcas almejam reunir o tesouro com o lugar do qual foi separado, permitindo que visitantes vejam os artefatos no contexto original que lhes confere significado histórico.
Segundo Boz, tal devolução "confirmaria que a passagem do tempo, as consequências da guerra e as transferências repetidas entre estados ou instituições não podem apagar as circunstâncias em que os objetos foram subtraídos originalmente nem extinguir um direito mantido desde o princípio".
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