Itatiaia

Nos anos 1950, um cientista trouxe 133 abelhas africanas ao Brasil e 26 fugiram; veja o que aconteceu

Descubra como 26 colônias de abelhas africanas escaparam em 1957 e criaram as abelhas africanizadas que transformaram a apicultura nas Américas

Por
Mudanças climáticas ameaçam reduzir em 38% área para abelhas na Bacia do Rio Doce
Abelhas sobre favos de mel (imagem ilustrativa) • Canva/ Banco de imagem

Entre agosto e dezembro de 1956, o geneticista Warwick Estevam Kerr percorreu regiões da África coletando rainhas de abelhas. Financiado pela Fundação Rockefeller e pelo Prêmio Nacional de Genética André Dreyfys, ele buscava linhagens mais produtivas e adaptadas ao clima tropical brasileiro. Das 133 rainhas coletadas, apenas 47 sobreviveram à viagem e às etapas iniciais do experimento.

O que parecia um projeto científico controlado no interior de São Paulo mudou definitivamente quando 26 colônias deixaram o apiário experimental em 1957. A saída ocorreu após a remoção das telas que impediam a passagem das rainhas, e os descendentes dessas abelhas africanas cruzaram com populações europeias já estabelecidas no Brasil, criando uma nova linhagem que avançou por todo o continente americano.

Por que o Brasil buscou rainhas africanas nos anos 50

As abelhas de origem europeia criadas no país não apresentavam desempenho consistente em todas as regiões de clima tropical. Warwick Kerr queria encontrar linhagens com boa produtividade, resistência a doenças e adaptação ao calor.

O objetivo era realizar cruzamentos controlados e selecionar características úteis à apicultura brasileira. A viagem à África aconteceu com recursos da Fundação Rockefeller e do Prêmio Nacional de Genética André Dreyfys, segundo registros da Embrapa.

O geneticista passou meses coletando exemplares em diferentes regiões africanas, principalmente na área de Pretória, além de uma rainha obtida no então Tanganica.

O que aconteceu com as 133 rainhas coletadas na África

O número de rainhas diminuiu drasticamente antes da etapa experimental começar. A sequência documentada pela Embrapa mostra como o grupo inicial foi reduzido:

133 rainhas foram coletadas durante a expedição à África. Dessas, 47 sobreviveram às etapas iniciais de transporte e adaptação. Após nova seleção, 12 rainhas foram eliminadas, restando 35 exemplares que seguiram para a área de quarentena.

Dessas 35 colônias mantidas sob observação no interior paulista, 26 deixaram o apiário experimental em 1957, iniciando o processo de dispersão e cruzamento natural que transformaria a apicultura brasileira.

Como 26 colônias conseguiram deixar o apiário experimental

As colmeias utilizadas no experimento possuíam telas excluidoras instaladas especificamente para impedir a saída das rainhas. Essas barreiras permitiam que as operárias circulassem normalmente, mas bloqueavam a passagem das rainhas por causa do tamanho diferente.

Segundo o relato histórico reunido pela Embrapa, essas telas de segurança foram retiradas sem que os responsáveis pelo experimento soubessem. Quando os pesquisadores retornaram ao local, descobriram que 26 famílias haviam enxameado ou migrado.

O controle que existia sobre aquelas populações foi rompido, e as colônias africanas passaram a interagir livremente com o ambiente brasileiro.

O encontro das rainhas africanas com abelhas europeias no Brasil

As colônias que saíram do apiário não permaneceram isoladas no ambiente. No território brasileiro já existiam populações estabelecidas de Apis mellifera de origem europeia, trazidas por imigrantes alemães, italianos e portugueses.

Os descendentes das abelhas africanas começaram a cruzar naturalmente com essas linhagens europeias. Esse processo de hibridização deu origem às chamadas abelhas africanizadas, uma população com características genéticas diferentes das duas linhagens originais.

A nova composição genética reuniu a alta adaptação ao clima tropical das africanas com características das europeias, e os enxames estabeleceram novas colônias fora da área experimental inicial.

A expansão continental das abelhas africanizadas

Os descendentes das 26 colônias que deixaram o apiário em 1957 se reproduziram rapidamente pelo território brasileiro. A população africanizada avançou para diferentes regiões do país nas décadas seguintes.

Em entrevista preservada pela SciELO, Warwick Kerr relembrou que a dispersão começou em 1957. Entre aquele ano e 1964, os cruzamentos com abelhas alemãs, italianas e portuguesas já formavam uma população diferente daquela existente antes do experimento.

A expansão não se limitou ao Brasil. Os enxames africanizados continuaram avançando e alcançaram grande parte do continente americano ao longo das décadas, transformando a apicultura em diversos países.

Como a apicultura brasileira se adaptou às novas abelhas

A chegada das abelhas africanizadas exigiu mudanças significativas nas práticas de manejo. As técnicas desenvolvidas para abelhas europeias não funcionavam da mesma forma com a nova população.

Com o passar das décadas, pesquisadores e apicultores desenvolveram métodos específicos de manejo das abelhas africanizadas. A experiência prática mostrou que essas abelhas exigiam abordagens diferentes de proteção, alimentação e coleta.

A alta adaptação ao ambiente tropical e a produtividade das africanizadas acabaram se tornando vantagens competitivas. A apicultura brasileira se tornou muito diferente daquela que Warwick Kerr encontrou quando iniciou seus estudos nos anos 50.

De 133 rainhas a um fenômeno biológico continental

O episódio ilustra a diferença entre a escala de um experimento controlado e o impacto real de uma introdução biológica. Um projeto de melhoramento genético começou com algumas dezenas de colônias sob observação no interior de São Paulo.

Mas os descendentes das abelhas que deixaram o apiário conseguiram avançar por uma área continental. Das 133 rainhas coletadas em 1956 às 26 colônias que escaparam em 1957, a sequência marcou definitivamente a história da apicultura brasileira.

As rainhas africanas procuradas por sua adaptação ao clima tropical acabaram participando de uma transformação biológica que ultrapassou o objetivo original do geneticista e alcançou grande parte das Américas.

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.

 

 

Belo Horizonte