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Navegador francês aposentado deu a volta ao mundo sozinho em barco de 12,5 metros

Descubra a história do comandante que aos 52 anos partiu em um cotre de madeira, percorreu 59 mil km em 21 meses e entrou para o restrito grupo de pioneiros da navegação solitária

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Navegador francês aposentado deu a volta ao mundo sozinho em barco de 12,5 m • Pixabay (imagem ilustrativa)

No dia 22 de agosto de 1936, um comandante aposentado da marinha mercante soltou as amarras de um cotre de madeira de 12,5 metros num porto do norte da Bretanha. Tinha 52 anos. Seu destino: circunavegar o planeta sozinho.

Vinte e um meses depois, em 30 de maio de 1938, ele atracava no mesmo porto depois de percorrer 32.010 milhas náuticas — cerca de 59 mil quilômetros — a uma média de 77 milhas por dia. Tornava-se o segundo francês e o quinto marinheiro solitário do mundo a completar a volta ao mundo. Noventa anos depois, no mesmo dia e no mesmo local, o porto prepara uma homenagem a esse navegador discreto que a história quase esqueceu.

Do tédio da terra firme à decisão de navegar ao redor do mundo

Nascido em 13 de dezembro de 1883 num porto do extremo oeste da França, o navegador cresceu em família de pilotos. Filho e neto de homens do mar, passou a infância com o cheiro de sal e a visão dos grandes veleiros que ainda faziam a rota do Cabo Horn.

Aos 18 anos embarcou como timoneiro. Em 1909 obteve o brevet de capitão de longo curso. A maior parte da carreira transcorreu numa companhia transatlântica. Durante a Primeira Guerra Mundial transportou munições. Depois organizou agências nos Estados Unidos e no Caribe.

Em 1934, aos 50 anos, aposentou-se e tentou a vida de fazendeiro numa propriedade de 40 hectares. A experiência durou pouco. O tédio da terra firme foi mais forte que qualquer conforto. Ele desenhou as especificações de um barco pensado para uma única pessoa e encomendou a construção a um estaleiro local.

O cotre Anahita e os preparativos para a grande travessia

O cotre de 10 toneladas, 12,5 metros de comprimento, 3,5 metros de boca e 1,7 metro de calado foi lançado no início de agosto de 1936. Vinte dias depois, sem grandes testes, partiu.

O nome do barco não era casual. Anahita é a deusa das águas na mitologia persa. Ele queria uma protetora para a travessia.

O projeto foi pensado para navegação solitária. Cada detalhe das especificações considerava a operação por uma única pessoa em alto-mar.

A rota completa: 59 mil quilômetros em 21 meses

A primeira grande etapa levou-o à Madeira e depois a Mar del Plata, onde chegou em dezembro de 1936. Em janeiro de 1937 atravessou o Estreito de Magalhães.

Perto da Terra do Fogo sofreu um quase-chavire, mas o barco resistiu. Seguiu para a Ilha de Páscoa. No Taiti, adiantou o mastro em 25 centímetros.

Depois vieram o Estreito de Torres, as Ilhas Cocos, Maurício, Durban, Cidade do Cabo e, por fim, as Açores. Em 30 de maio de 1938, às quatro da manhã, atracou.

Desafios da navegação solitária nos anos 1930

Foram 21 meses e nove dias, com apenas 14 escalas curtas. Ele não buscou a fama. Não tinha rádio de longo alcance e não transformou a viagem em espetáculo.

Publicou o relato em 1939. O livro é técnico, preciso e sem romantismo. Fala de velas rasgadas, de problemas de leme, de noites de duas ou três horas de sono e de um barco que se comportava bem em mar grosso.

A média de 77 milhas por dia num cotre de 12,5 metros, nos anos 1930, era um desempenho notável. O fato de ter completado a viagem sem grandes avarias — apesar do quase-chavire na Terra do Fogo — reforça a solidez do projeto.

O discreto retorno e o esquecimento histórico

Na época, a imprensa local noticiou o retorno, mas o nome não entrou no panteão dos grandes aventureiros franceses. Um compatriota havia feito a volta em 1929. Este foi o segundo francês e, pela contagem mais aceita, o quinto solitário do mundo.

Depois da viagem, voltou à fazenda. Ainda navegou algumas vezes — inclusive ao Marrocos no pós-guerra —, mas nunca mais tentou outra odisseia.

Morreu em 29 de novembro de 1952, aos 68 anos. O barco passou por várias mãos e, no final, deixou de navegar.

Homenagem 90 anos depois no mesmo porto de partida

O esquecimento quase total é o que torna a homenagem de 2026 significativa. A associação cultural e a prefeitura decidiram marcar os 90 anos no mesmo dia e no mesmo lugar.

No sábado, 22 de agosto de 2026, a partir das 14h, o porto recebe um encontro de veleiros antigos. Vinte gaitas de fole tocam no cais. Uma exposição abre dentro do próprio estaleiro onde o barco foi construído.

Às 18h ocorre a inauguração de um painel, com a presença de membros da família. O quinto marinheiro solitário do mundo finalmente recebe, no lugar de onde partiu, o reconhecimento que a história demorou nove décadas para entregar.

A conexão com o Brasil e o imaginário dos navegadores

No Brasil, a história encontra eco. A primeira grande escala foi em Mar del Plata. A rota pelo Estreito de Magalhães faz parte do imaginário dos navegadores que, décadas depois, enfrentaram os mesmos mares.

O legado está na prova de que a navegação solitária era possível com embarcações modestas e determinação individual. As condições técnicas dos anos 1930 — sem GPS, sem comunicação via satélite, sem previsões meteorológicas precisas — tornavam a façanha ainda mais impressionante.

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