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Perda de 15% da força muscular já indica risco de mobilidade reduzida na velhice

Estudo com 4,5 mil idosos mostra que monitorar a evolução da força ao longo do tempo é mais eficaz que observar valores absolutos para prever declínio

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Dois idosos em uma cozinha
Imagem ilustrativa de um casal de idosos • Anna Bizon/Magnific

Aos 60 anos ou mais, manter a independência física depende de algo que muitas vezes passa despercebido: a capacidade de apertar a mão com firmeza. Parece um detalhe pequeno, mas essa medida simples funciona como um termômetro da saúde muscular de todo o corpo. Quando o aperto de mão começa a enfraquecer, é sinal de que pernas, tronco e outros grupos musculares também estão perdendo vigor.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da University College London identificou um ponto de alerta preciso: a redução de 15% na força muscular já é suficiente para antecipar a lentidão na caminhada, mesmo entre idosos que ainda apresentam força acima dos valores considerados normais. Esse declínio na velocidade é um alerta clínico relevante, pois a lentidão ao caminhar costuma indicar risco aumentado de quedas, hospitalizações e perda da independência para as atividades do dia a dia. O trabalho acompanhou 4.541 pessoas com 60 anos ou mais ao longo de 12 anos e foi publicado na revista GeroScience.

Por que o aperto de mão revela tanto sobre a saúde muscular

A força do aperto de mão (preensão manual) funciona como indicador da saúde muscular global porque o envelhecimento e a perda de massa muscular afetam o organismo de forma generalizada. Se o aperto de mão de um idoso está ficando mais fraco, é um alerta de que os músculos de outras partes essenciais do corpo também estão perdendo o vigor.

É um teste rápido, barato e que revela muito sobre a capacidade física geral da pessoa. Por isso, os cientistas usam essa medida como parâmetro para avaliar a condição muscular de idosos.

O que o estudo descobriu sobre perda de força e mobilidade

Os pesquisadores acompanharam a força do aperto de mão e a velocidade de marcha dos participantes do ELSA (Estudo Longitudinal Inglês do Envelhecimento), um dos maiores estudos sobre envelhecimento do mundo. A análise cobriu um período de 12 anos.

Os resultados revelam que os idosos que perderam entre 15% e 20% da força muscular ao longo dos 12 anos de acompanhamento tiveram um declínio de 0,007 metro por segundo (m/s) por ano na velocidade da caminhada. Entre os participantes que perderam mais de 20% da força, houve uma redução anual da velocidade de 0,004 m/s, acumulando perda total de 0,144 m/s ao longo dos 12 anos.

"Parece pouca coisa, mas, do ponto de vista clínico, trata-se de uma queda expressiva da velocidade de caminhada", explica Tiago da Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da UFSCar e coordenador do estudo. "Ela representa cerca de um quarto do valor que temos como referência. Velocidades abaixo de 0,8 m/s já são consideradas lentidão de caminhada e um importante sinal de alerta para a saúde do idoso."

Em ambos os casos, a perda foi maior do que a observada entre os participantes que mantiveram a força estável, dentro de uma variação de até 5%.

Por que monitorar a evolução da força é mais importante que valores absolutos

Tradicionalmente, a fraqueza é diagnosticada quando a pessoa idosa atinge valores abaixo de um limite preestabelecido, como menos de 27 kg de força manual para homens e 16 kg para mulheres. Mas o estudo traz uma perspectiva diferente.

"Mesmo os indivíduos que se mantiveram acima do limite mínimo, com a perda de 15% da força entraram num processo que culminou na lentidão da caminhada", conta Alexandre. Isso significa que não basta apenas estar dentro do valor padrão: é preciso acompanhar como essa força muda ao longo do tempo.

O pesquisador ressalta que não é o caso de ignorar os índices tradicionais de força muscular, pois continuam sendo de grande importância para identificar indivíduos que apresentam fraqueza muscular. O que o estudo traz de novo é um olhar mais personalizado, que compara a força atual do indivíduo com a que ele já teve no passado.

Essa abordagem permite identificar pessoas que, mesmo ainda acima do padrão mínimo, já mostram sinais de que podem perder mobilidade, um dos principais sinais de fragilidade. Essa condição aumenta o risco de quedas, hospitalizações e morte na velhice.

Como a força muscular sustenta a mobilidade na terceira idade

A força muscular é um dos pilares da mobilidade. Embora equilíbrio, ausência de dor, flexibilidade e capacidade cardiorrespiratória também influenciem, sem uma reserva mínima de força o corpo não consegue sustentar movimentos básicos, como se levantar, caminhar ou manter estabilidade em pé.

"O que descobrimos nesse estudo é que, mesmo em pessoas idosas com níveis acima do padrão mínimo de força, uma perda de 15% já é suficiente para colocar a mobilidade em risco", afirma Alexandre. Esse achado reforça a importância de acompanhar não apenas valores absolutos de força, mas a sua evolução ao longo do tempo.

Quando a perda de força se torna um sinal de alerta clínico

A perda de mais de 15% pode funcionar como um ponto de corte clínico para identificar precocemente idosos em risco de piora da mobilidade. Esse monitoramento na prática clínica é importante porque quanto mais cedo o risco de lentidão de caminhada for identificado, mais fácil será reverter esse quadro.

A reversão pode acontecer a partir da prática de musculação e alimentação adequada. O pesquisador destaca que o envelhecimento é um processo natural e esperado, mas exige atenção para o ritmo das mudanças e as particularidades de cada um.

"O envelhecimento ideal é aquele em que as mudanças fisiológicas acontecem dentro do esperado para a idade. O sinal de alerta surge quando a alteração é muito rápida, tanto de força quanto de peso ou comportamento. Nessas situações, é preciso investigar imediatamente as possíveis causas", alerta Alexandre.

O que fazer para proteger a força muscular e a mobilidade

Segundo os autores do estudo, o acompanhamento regular da força muscular deve ser incorporado à rotina de cuidados com a saúde na terceira idade. A prática de musculação e a manutenção de uma alimentação adequada são as principais estratégias para reverter ou prevenir o declínio.

A identificação precoce de perdas significativas de força permite intervenções mais eficazes. Quanto antes o problema for detectado, maiores as chances de recuperação e manutenção da independência funcional.

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