Mãe constrói casa com 7 toneladas de plástico reciclado e economiza anos na Costa Rica
Conheça o sistema que transforma garrafas e embalagens descartadas em blocos de encaixe para construção rápida, resistente e sustentável de moradias

Depois de nove anos juntando cada centavo que sobrava do salário de faxineira, Cindy Mora Abarca finalmente comprou o terreno onde queria criar o filho Fabrizio, então com 6 anos, em Alajuelita, região da Grande San José, na Costa Rica. O problema era que não sobrava dinheiro para levantar as paredes. A solução veio de uma parceria que usou 7 toneladas de plástico reciclado no lugar do tijolo tradicional.
A casa dela ilustra um sistema construtivo chamado Bloqueplas, no qual garrafas, sacolas e embalagens descartadas viram blocos que se encaixam como peças de Lego. Este guia mostra como funciona a construção com plástico reciclado, suas vantagens estruturais e o impacto ambiental real dessa alternativa.
Como funciona o sistema Bloqueplas de construção com plástico
O sistema Bloqueplas transforma resíduos plásticos em blocos de construção através de um processo de trituração e reprensagem. Garrafas PET, sacolas e embalagens descartadas são processadas e moldadas em peças que se encaixam umas nas outras.
O diferencial está no encaixe: os blocos funcionam como peças de Lego, dispensando argamassa entre um bloco e outro. A própria estrutura de encaixe segura a peça no lugar, o que acelera drasticamente a montagem no canteiro de obras.
Na casa de Cindy, foram usadas cerca de 7 toneladas de plástico que iriam para lixões. A montagem aproveitou esse sistema de encaixe para levantar as paredes sem o processo tradicional de assentamento com cimento.
Vantagens estruturais e resistência do bloco de plástico reciclado
O sistema foi desenvolvido para atender ao código de construção antissísmico costarriquenho de 2010, requisito essencial num país que sente terremotos com frequência. A Urbarium, empresa responsável pelo projeto, projetou os blocos para resistir a forças sísmicas e ao clima úmido da região.
Entre as vantagens atribuídas ao sistema estão: isolamento térmico e acústico superior ao do bloco tradicional de concreto, resistência a intempéries, capacidade de suportar abalos sísmicos e montagem rápida no canteiro.
A rapidez de construção se torna argumento social importante. Com os blocos chegando prontos para encaixe, é possível levantar habitação popular em menos tempo que os métodos convencionais, reduzindo também o entulho no fim da obra porque quase não há corte de peça.
O cenário do plástico descartado na Costa Rica
Para entender o peso ambiental das 7 toneladas usadas na casa, vale olhar o cenário do país. Em 2018, dados do Ministério da Saúde da Costa Rica citados pelo jornal La Nación apontavam que o país descartava cerca de 564 toneladas de plástico por dia e reciclava apenas 14 toneladas.
Uma única moradia consumiu o equivalente a meio dia de reciclagem do país inteiro. A comparação mostra que o projeto não resolve sozinho a crise do plástico costarriquenho, mas demonstra uso concreto para um material que costuma acabar em aterro.
O sistema aproveita garrafas, sacolas e embalagens que hoje contaminam rios, ruas e mangues, transformando passivo ambiental em estrutura habitacional.
Parceria entre empresas e organizações para viabilizar o projeto
A casa de Cindy foi viabilizada através de uma parceria entre a Procter & Gamble, a Habitat for Humanity Costa Rica, a Urbarium e a Ekojunto. Cada organização contribuiu com recursos, tecnologia ou mão de obra para transformar o sistema construtivo em realidade habitacional.
A Procter & Gamble forneceu apoio ao projeto, a Habitat for Humanity Costa Rica coordenou a execução voltada para habitação popular, a Urbarium desenvolveu a tecnologia dos blocos e a Ekojunto participou da implementação.
Esse modelo de parceria mostra que construção popular com material reciclado ainda depende de doação de material, de mão de obra voluntária e de um sistema construtivo que circula pouco pela América Latina. Não é receita replicável em escala sem apoio institucional.
Da economia de nove anos ao teto fixo no bairro Lámparas
Cindy Mora Abarca trabalhou como faxineira em Alajuelita por nove anos juntando dinheiro para comprar o terreno. Quando finalmente conseguiu, ainda precisou recorrer a um empréstimo para fechar a compra do lote.
Depois da aquisição, faltava o principal: material para construir uma casa que abrigasse ela e o pequeno Fabrizio. A solução com blocos de plástico reciclado permitiu erguer a moradia no bairro Lámparas.
Para quem passou a vida inteira sonhando com chão firme, aqueles nove anos de aperto viraram teto permanente. O caso mostra um caminho real para tirar lixo do meio ambiente e, ao mesmo tempo, dar habitação a quem economizou cada moeda.
Limites e alcance real da construção com plástico reciclado
O projeto demonstra viabilidade técnica da construção com plástico reciclado, mas não representa solução massiva para a crise habitacional ou ambiental. O sistema ainda enfrenta barreiras de escala, custo e replicabilidade.
A dependência de parcerias entre empresas, ONGs e organizações técnicas limita a expansão do modelo. Sem doação de material e mão de obra voluntária, o custo pode não competir com métodos tradicionais de construção popular.
Ainda assim, o caso prova que existe uso concreto para material que hoje vira poluição. Mostra caminho possível quando há articulação entre iniciativa privada, terceiro setor e conhecimento técnico para dar destino útil ao plástico descartado.
Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.



