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Mancha na pele que não melhora pode ser linfoma cutâneo de células T

Conheça os sinais do câncer raro confundido com alergia, como é feito o diagnóstico correto e quais tratamentos controlam a doença em cada estágio

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Mancha na pele que não melhora pode ser linfoma cutâneo de células T
IMAGEM ILUSTRATIVA • Canva/ Reprodução

A pele apresenta manchas avermelhadas, descama e provoca coceira intensa. Parece uma alergia comum, mas os tratamentos habituais não funcionam. Quando esses sinais persistem sem melhora, pode ser necessário investigar uma condição rara: o linfoma cutâneo de células T.

Esse tipo de câncer tem origem nos linfócitos T, células do sistema imunológico, e afeta principalmente a pele. As células sofrem alterações malignas, acumulam-se na pele e provocam lesões que podem se assemelhar a problemas dermatológicos mais comuns. Este guia explica como diferenciar a doença, entender o processo diagnóstico e conhecer as opções de tratamento disponíveis para cada estágio.

O que é o linfoma cutâneo de células T

O linfoma cutâneo de células T é um subtipo de linfoma não Hodgkin que se origina nos linfócitos T, células responsáveis pela defesa do organismo. Segundo Ricardo Helman, onco-hematologista e membro do Comitê Médico da Abrale, as células T sofrem transformações que as tornam malignas e fazem com que se concentrem na pele, causando lesões visíveis.

Dependendo do subtipo e da fase da doença, essas células podem atingir a corrente sanguínea, os linfonodos e outros órgãos. As manifestações incluem manchas, placas elevadas, alterações na textura da pele e tumores.

Em casos avançados, surge a eritrodermia, caracterizada por vermelhidão intensa que cobre mais de 80% do corpo. Também pode ocorrer coceira persistente, descamação e mudanças na espessura da pele.

Principais tipos da doença

Existem dois tipos principais de linfoma cutâneo de células T: a micose fungoide e a síndrome de Sézary. Segundo Thais Fischer, onco-hematologista do A.C.Camargo Cancer Center, a diferença está no aspecto das lesões, na extensão do acometimento, na presença de células alteradas no sangue e no comportamento ao longo do tempo.

A micose fungoide é a forma mais frequente e apresenta evolução mais lenta. As lesões iniciais aparecem como manchas avermelhadas, rosadas ou acastanhadas, geralmente finas, com possível descamação e coceira. Com o avanço da doença, as placas se tornam mais espessas e podem dar origem a tumores. As lesões surgem principalmente em áreas menos expostas ao sol, como axilas, mamas, tronco, nádegas e parte interna dos braços e coxas.

A síndrome de Sézary é mais agressiva e sistêmica. Caracteriza-se pela eritrodermia associada à presença de células malignas no sangue, chamadas células de Sézary. Pode haver aumento dos linfonodos e coceira intensa.

Por que a doença se parece com outras condições de pele

Segundo Adriana Pessoa, dermatologista do A.C.Camargo Cancer Center, a micose fungoide é conhecida como uma doença que pode imitar diversas outras condições dermatológicas. Nas fases iniciais, as lesões se parecem com problemas mais comuns, como psoríase, dermatite, hanseníase e reações a medicamentos.

Carlos Barcaui, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, considera essa semelhança um dos principais desafios diagnósticos. Segundo ele, é importante evitar que essa informação gere preocupação desnecessária na população.

"Como ele se assemelha muito nas fases iniciais a outras doenças, também não gostaria que todo mundo saísse pensando que qualquer alteração inflamatória, um eczema banal, é uma micose fungoide ou um linfoma", afirma Barcaui.

Diferença entre linfoma cutâneo e câncer de pele tradicional

Uma dúvida comum é por que o linfoma cutâneo de células T aparece na pele mas não é considerado um câncer de pele tradicional. A explicação está na célula que dá origem ao tumor.

Os cânceres de pele tradicionais, como melanoma e carcinomas, surgem a partir de células que pertencem à própria estrutura da pele. Já o linfoma cutâneo de células T tem origem em células do sistema imunológico que se acumulam na pele.

Segundo Carlos Barcaui, o linfócito T apresenta epidermotropismo, uma tendência de migrar para a pele. Por isso as primeiras manifestações costumam ocorrer nesse local.

Possíveis causas ainda em investigação

A causa exata do linfoma cutâneo de células T ainda não é conhecida. Existem algumas hipóteses estudadas, mas nenhuma foi comprovada de forma definitiva.

Segundo Thais Fischer, uma das teorias é que há uma estimulação persistente do sistema de defesa que faz com que os linfócitos T sejam ativados continuamente. Ao longo do tempo, algumas dessas células podem sofrer alterações e passar a se multiplicar de maneira descontrolada.

Também são investigadas possíveis relações com algumas infecções virais, exposição à radiação ultravioleta e o uso de alguns medicamentos.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico combina avaliação clínica, histórico do paciente e investigação anatomopatológica. Segundo Ricardo Helman, lesões persistentes ou recorrentes podem levantar a suspeita da doença, principalmente quando não respondem adequadamente aos tratamentos habituais para dermatites ou micoses, ou apresentam evolução e características diferentes das lesões anteriores.

O linfoma cutâneo de células T pode permanecer sem diagnóstico por meses ou até anos. A própria evolução da doença pode ser flutuante, com períodos de melhora e piora, o que dificulta ainda mais o reconhecimento.

Para investigar a suspeita, é indicado realizar uma biópsia da pele, na qual uma amostra da lesão é retirada e analisada por um patologista. Dependendo do caso, podem ser necessários exames complementares, como a imuno-histoquímica, que ajuda a identificar as características das células presentes na lesão, e estudos de clonalidade do receptor de células T.

Também podem ser realizados exames de sangue, de imagem e investigação de linfonodos ou de outros órgãos para determinar o estágio da doença.

Opções de tratamento para cada estágio

O tratamento depende do subtipo, do estágio da doença e da extensão do acometimento da pele. Segundo Thais Fischer, nas fases iniciais são utilizadas terapias direcionadas à pele, como medicamentos aplicados diretamente nas lesões e fototerapia, que utiliza luz ultravioleta de forma controlada.

Em fases mais avançadas, podem ser associados tratamentos que atuam em todo o organismo, incluindo o uso de medicamentos como retinoides, derivados da vitamina A. A radioterapia também pode ser indicada para determinadas lesões ou áreas mais extensas do corpo.

Para alguns pacientes com doença avançada ou que não respondem aos tratamentos, pode ser considerado o transplante de medula óssea.

Perspectiva realista sobre prognóstico e controle

Na maioria dos casos, o linfoma cutâneo de células T não tem cura definitiva, mas pode ser contido por meio do tratamento. O objetivo é controlar a doença, reduzir os sintomas, preservar a qualidade de vida e manter o funcionamento adequado do sistema imunológico.

Segundo Carlos Barcaui, ter o diagnóstico de linfoma cutâneo de células T não significa estar diante de uma sentença de morte, nem que necessariamente a doença vai progredir. "A maioria dos pacientes com micose fungoide é diagnosticada em estágios iniciais, nos quais a doença costuma ter evolução indolente e pode permanecer controlada por muitos anos", afirma o presidente da SBD.

O linfoma cutâneo de células T é considerado uma doença rara. No Brasil, não há uma estimativa consolidada sobre a doença. Nos Estados Unidos, a incidência anual da micose fungoide é estimada em aproximadamente 5,4 casos por milhão de habitantes. A síndrome de Sézary é ainda mais rara, com cerca de 0,2 caso por milhão de habitantes, segundo dados do Surveillance, Epidemiology, and End Results, um programa que reúne informações sobre casos de câncer nos Estados Unidos.

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