Luto não tem prazo: saiba por que cada pessoa vive a perda de um jeito
Especialistas explicam por que o luto não segue cinco etapas obrigatórias, não precisa terminar após um ano e pode envolver tristeza, culpa, raiva, alívio e até sintomas físicos, sem que isso signifique que a pessoa esteja vivendo o processo de forma errada

O luto costuma ser associado a uma sequência conhecida de cinco etapas: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. A ideia, porém, pode criar uma expectativa equivocada sobre como uma pessoa deveria reagir à morte de alguém próximo. Segundo especialistas ouvidas pelo Infobae, o processo não é linear, não possui uma duração universal e pode variar bastante de acordo com a história de cada indivíduo.
A forma de enfrentar uma perda é influenciada por fatores como a relação com a pessoa que morreu, as circunstâncias da morte, a história pessoal e a rede de apoio disponível. Por isso, não existe um roteiro que determine quais sentimentos devem aparecer ou em que momento.
As cinco etapas não são uma sequência obrigatória
O modelo das cinco etapas foi desenvolvido pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross para descrever reações diante da própria doença e da proximidade da morte. Com o tempo, a proposta passou a ser aplicada também ao luto pela morte de outra pessoa, embora não tenha sido criada como um caminho obrigatório para todos.
“Essas chamadas ‘cinco etapas do luto’ não constituem um percurso obrigatório nem universal”, explicou a psicóloga Fernanda Giralt Font, chefe do Departamento de Psicoterapia Cognitiva do Instituto de Neurologia Cognitiva (Ineco), da Argentina.
A especialista destacou que o problema aparece quando esse modelo é tratado como uma regra. Nesse caso, quem está sofrendo pode acreditar que está fazendo algo errado por não sentir determinadas emoções ou por vivenciá-las em uma ordem diferente.
A psicóloga Lorena Etcheverry, da Unidade de Cuidados Integrais do Hospital Universitário Austral, também ressaltou que as etapas não seguem necessariamente uma sequência. Segundo ela, diferentes sentimentos podem aparecer em momentos distintos enquanto a pessoa tenta se adaptar à nova realidade.
A terapeuta Iris Rubaja resumiu a experiência de outra maneira: “Não podemos reduzir um processo tão amplo e tão humano a cinco etapas”. Ela contou que seu próprio luto foi marcado por muitos momentos e estados diferentes, de maneira não linear e no seu próprio ritmo.
Tristeza, ansiedade, raiva, culpa, alívio e momentos de tranquilidade podem surgir alternadamente ou até ao mesmo tempo. Para Giralt Font, essas oscilações não significam necessariamente desorganização, mas fazem parte da tentativa de compreender e integrar uma realidade dolorosa.
Primeiro ano pode ser difícil, mas não existe prazo para o luto
O primeiro ano depois de uma morte pode ser especialmente difícil porque reúne aniversários, festas e outras datas que costumavam ser compartilhadas com a pessoa que morreu. Isso, no entanto, não significa que o sofrimento precise terminar depois de 12 meses.
“Não existe uma duração universal, e estabelecer prazos rígidos pode ser mais prejudicial do que útil”, afirmou Giralt Font.
Mais importante do que contar os meses, segundo a especialista, é observar como a pessoa está conseguindo reorganizar a própria vida. É possível continuar sentindo tristeza e, ao mesmo tempo, recuperar gradualmente atividades, relações e projetos.
O DSM-5-TR, versão de 2022 do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, considera o transtorno do luto prolongado em adultos quando, após 12 meses, existe sofrimento clinicamente significativo que prejudica o funcionamento cotidiano e ultrapassa o que seria esperado dentro do contexto cultural, social ou religioso. Isso não significa que o sofrimento se torne automaticamente um problema ao completar um ano.
“O sofrimento muda de forma e de intensidade. E nós também. Não voltamos a ser os mesmos”, afirmou Rubaja. Para ela, o processo envolve aprender a conviver com o que aconteceu, integrar a ausência e permitir que a vida volte gradualmente a encontrar novos sentidos.
Etcheverry destacou ainda que cada pessoa parte de uma realidade diferente quando enfrenta uma perda. Recursos pessoais, vínculos, circunstâncias da morte e capacidade de reconstrução influenciam a maneira como o processo evolui.
A intensidade do luto não depende apenas do parentesco
Perder um pai, uma companheira, um filho ou outra pessoa próxima produz impactos diferentes, mas o grau de sofrimento não pode ser determinado apenas pelo parentesco.
“O sofrimento não tem medida. Cada perda é única porque cada vínculo foi único”, afirmou Rubaja.
A morte de um pai pode representar a perda de uma importante referência familiar. A de um companheiro pode alterar rotinas, projetos, organização financeira e a própria identidade construída em conjunto. Já a perda de um filho pode modificar expectativas relacionadas ao futuro e provocar sentimentos de culpa ou de fracasso parental.
Para Giralt Font, entretanto, o parentesco é apenas uma parte da experiência. O papel que a pessoa ocupava na vida de quem ficou também é determinante.
“São principalmente nossos pensamentos sobre o papel que essa pessoa desempenhava em nossa vida que moldam a maneira como processamos sua ausência”, explicou.
Etcheverry também destacou a importância do lugar afetivo ocupado pelo morto. Assim, uma relação formalmente distante pode representar uma perda muito profunda, enquanto um parentesco próximo não necessariamente determina sozinho a intensidade do sofrimento.
Raiva, culpa e alívio também podem fazer parte do luto
Embora a tristeza seja frequentemente associada ao luto, outras emoções podem aparecer. Irritação, raiva, culpa e até alívio são possíveis, especialmente quando a pessoa morreu depois de enfrentar uma doença longa.
Esses sentimentos podem causar culpa porque parecem contradizer o amor pelo familiar ou amigo que morreu. Para Giralt Font, porém, sentir alívio não significa desejar a morte de alguém.
“O alívio não comemora a morte da pessoa querida, mas o fim do sofrimento do doente e do esgotamento extremo de quem cuidava”, explicou.
Rubaja relatou uma experiência pessoal para mostrar como esse sentimento pode ocorrer: “Eu senti alívio quando meu marido morreu. Eu o vi sofrer tanto que senti paz ao saber que ele já não sofria. Esse alívio não era por mim, era por ele”.
A raiva também pode aparecer, principalmente diante de mortes inesperadas, acidentes ou situações consideradas injustas. Nesse contexto, o sentimento pode coexistir com o amor e a saudade.
Uma doença longa pode preparar para a perda, mas não elimina o luto
Quando uma pessoa enfrenta uma doença prolongada, familiares e cuidadores podem começar a se adaptar emocionalmente às mudanças antes da morte. Esse processo pode envolver despedidas, conversas e outras formas de preparação. Isso, porém, não significa que a morte deixará de provocar sofrimento.
“Nada nos prepara completamente para a morte”, afirmou Rubaja. Segundo ela, mesmo quando a possibilidade já era conhecida, a perda concreta coloca a pessoa diante de uma realidade nova.
Etcheverry explicou que essas perdas ocorridas durante a doença fazem parte de processos de adaptação, mas não correspondem ao luto pela morte propriamente dita. “O luto chega quando a pessoa morreu”, afirmou.
Luto também pode provocar sintomas físicos
O sofrimento provocado pela perda não se limita às emoções. Alterações no sono, mudanças no apetite, cansaço, dificuldade de concentração, tensão muscular, dor de cabeça e problemas gastrointestinais também podem aparecer.
De acordo com Giralt Font, a dor emocional possui manifestações neurobiológicas e pode afetar sistemas como o imunológico, hormonal e cardiovascular.
A intensidade e a persistência dos sintomas, principalmente quando interferem na rotina, merecem atenção. Entre os sinais citados pela especialista estão insônia persistente ou sono excessivo, mudanças drásticas de peso, palpitações, sensação de pressão no peito, falta de ar e um nível de cansaço que dificulta até mesmo os cuidados básicos.
Etcheverry recomendou que sintomas físicos novos não sejam automaticamente atribuídos ao luto. “Sempre que houver sintomas físicos novos, é preciso fazer uma consulta”, afirmou, para que outras possíveis causas médicas sejam investigadas.
Também não é necessário esperar que o sofrimento chegue ao limite para procurar ajuda. Rubaja destacou a importância de aceitar o apoio de outras pessoas durante o processo.
“E também não é preciso chegar ao limite para buscar acompanhamento. Permitir-se ser amparado também faz parte do processo”, afirmou.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



