Ilha de quase 50 m² desaparece completamente no oceano e, 12 anos depois, escultura surge
Conheça a história de Kale, nas Ilhas Salomão, que sumiu completamente em 2014 e agora tem memorial artístico para alertar sobre mudanças climáticas costeiras

Gladys Habu Bartlett tinha 14 anos quando voltou de barco à ilha de Kale, nas Ilhas Salomão, em dezembro de 2009. O lugar onde os avós haviam mantido uma casa, uma horta e memórias sobre a história da família estava prestes a ruir. A areia branca, os manguezais e a floresta já cediam espaço ao oceano.
Cinco anos mais tarde, em 2014, não havia mais ilha acima da água. Kale perdeu toda a área de quase 50 mil metros quadrados e deixou no recife apenas troncos mortos e lembranças de quem conheceu aquele pedaço da província de Isabel. Doze anos depois do desaparecimento completo, uma escultura em tamanho real passou a ocupar o ponto em que Kale existiu, mudando de posição conforme a maré e servindo como memorial vivo do avanço das águas.
O desaparecimento progressivo da ilha Kale
A família de Gladys percebeu o avanço do mar ao se aproximar de Kale em 2009. O avô havia vivido ali décadas antes, numa casa cercada por plantações. A diversidade ecológica fazia parte do entorno: tartarugas chegavam à praia, aves faziam ninhos e moradores de ilhas próximas pescavam na região.
Quando retornaram em 2014, o barco da família já conseguia passar sobre o ponto em que ficava a faixa de areia. Restava apenas um tronco seco, usado pelas aves como apoio. O desaparecimento físico também atingiu a memória familiar, pois os filhos de Gladys não conheceriam o lugar preservado nas histórias dos mais velhos.
Como a ciência explica o desaparecimento de ilhas costeiras
O fenômeno não ocorreu apenas porque a água subiu como numa banheira. Cientistas compararam fotografias aéreas e imagens de satélite de 33 ilhas nas Ilhas Salomão, produzidas entre 1947 e 2014, em estudo publicado em 2016.
Cinco ilhas com vegetação desapareceram completamente, enquanto outras seis sofreram forte recuo da costa. Kale perdeu 48.890 metros quadrados, o equivalente a 100% da área medida.
Os pesquisadores observaram erosão mais rápida nos pontos expostos a ondas fortes. A combinação entre mar mais alto, correntes e energia das ondas deslocou a areia até retirá-la da plataforma do recife. Medições analisadas no estudo indicaram alta de 7 a 10 milímetros por ano desde 1994 na região.
Aceleração global do nível dos oceanos
O problema continua além do arquipélago das Ilhas Salomão. A Terceira Avaliação Mundial dos Oceanos da ONU informa que a alta global, inferior a 2 milímetros por ano antes de 2015, chegou a 4,3 milímetros em 2023.
Essa aceleração representa mais que o dobro da velocidade registrada há menos de uma década, afetando comunidades costeiras em todo o planeta.
A escultura que marca o lugar onde existiu a ilha
O artista britânico Jason deCaires Taylor criou a obra "The Solomon Siren" a partir da imagem de Gladys. Na escultura, ela aparece com a cabeça apoiada em uma árvore de aço inoxidável. A figura representa a ativista; os galhos lembram a vegetação e os recursos naturais perdidos.
A instalação foi encomendada pelo Alto Comissariado Britânico em Honiara e colocada na zona entre-marés em 2026. Quando as águas abaixam seu nível, o corpo aparece. Conforme a maré sobe, parte dele volta a desaparecer.
Gladys, que também é farmacêutica, levou a experiência da família ao debate climático e passou a defender comunidades costeiras do Pacífico. A escolha de seu rosto liga o fenômeno a uma história que pode ser localizada no mapa e contada por quem viu a terra pouco a pouco sumir.
As marcações temporais do memorial
As inscrições de 2006, 2016 e 2026 registram etapas da perda de Kale. A primeira marca lembra quando a subida da água se tornou alarmante. A segunda corresponde ao ano em que pesquisadores publicaram a confirmação científica. A última indica a instalação do memorial.
Outras duas datas, 2036 e 2046, apontam níveis futuros estimados a partir do avanço do oceano na região. Essas projeções servem como alerta visual do que está por vir se o ritmo de elevação das águas se mantiver.
Função ecológica da obra de arte
Taylor usou cimento de pH neutro, biochar e aço inoxidável de uso marinho na construção. A superfície porosa favorece a fixação de algas, corais e invertebrados, enquanto a árvore oferece descanso às aves.
A obra, portanto, não foi feita para permanecer igual. Aos poucos, algas, corais e outros organismos devem ocupar o mesmo espaço onde Kale um dia abrigou praias, florestas e ninhos de aves. A escultura funciona como substrato artificial para restauração ecológica parcial, permitindo que a vida marinha colonize a estrutura.
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