Itatiaia

Homem começa a recolher plástico e constrói um vilarejo inteiro

Conheça o sistema modular que transforma garrafas PET em paredes resistentes e isolantes térmicos, economizando recursos e dando destino sustentável ao lixo plástico

Por
Empresário canadense desenvolveu um método próprio de construção que usa garrafas PET
Empresário canadense desenvolveu um método próprio de construção que usa garrafas PET • Reprodução/Plastic Bottle Village

Robert Bezeau chegou ao arquipélago panamenho de Bocas del Toro em 2007 e encontrou praias cobertas de plástico. O que começou como uma tentativa de documentar o volume de resíduos na ilha Colón se transformou em um projeto de construção sustentável que já ergueu casas, hotéis e até um castelo com mais de um milhão de garrafas recicladas.

O empresário canadense desenvolveu um método próprio de construção que usa garrafas PET como material estrutural. As edificações resultantes são resistentes a terremotos e mantêm o interior até 35 graus mais fresco que a temperatura externa das paredes. O projeto, batizado de Aldeia de Botellas de Plástico, planeja construir 120 residências particulares em um terreno de mais de 330 mil metros quadrados.

Como funciona o sistema modular de construção com garrafas

As garrafas vazias são inseridas em jaulas de aço que comportam entre 120 e 300 unidades, dependendo do tamanho dos recipientes. Essas estruturas metálicas se encaixam entre si e são integradas às paredes dos edifícios, que depois são cobertas com uma capa de cimento de aproximadamente 2,5 centímetros em cada lado.

O ar preso dentro das garrafas funciona como isolante térmico natural, o que significa que o interior das moradias pode chegar a ser até 35 graus mais fresco que a temperatura exterior da parede.

A técnica também garante resistência estrutural. As construções suportam abalos sísmicos, o que é especialmente importante em regiões tropicais sujeitas a eventos naturais.

Da coleta de lixo à arquitetura sustentável

Em 2012, Bezeau reuniu um grupo de 15 pessoas para recolher e catalogar resíduos na ilha. Entre agosto e dezembro daquele ano, o grupo acumulou 60 mil sacos de lixo. Em um ano e meio, o número de garrafas coletadas ultrapassou um milhão de unidades.

A transição da simples coleta para a construção aconteceu quando o empresário, com experiência prévia no setor industrial, desenvolveu o sistema modular. As primeiras casas serviram como protótipos para refinar o método.

À medida que o projeto se consolidou, hotéis e restaurantes da região começaram a ceder seus resíduos plásticos como material de construção. Bezeau passou a recolher garrafas duas vezes por semana, com apoio de voluntários e funcionários contratados. Metade do material veio dessas coletas programadas; a outra metade, de campanhas de reciclagem na ilha.

O Castelo Inspiração e o recorde mundial

A construção mais emblemática do projeto é o Castillo Inspiración, edifício de quatro andares e 14 metros de altura erguido com 40 mil garrafas PET. A estrutura inclui quartos para hóspedes, área de jantar no terceiro piso e plataforma de observação no telhado.

Em 2017, a edificação recebeu o recorde Guinness de maior castelo do mundo construído com garrafas plásticas. Quatro anos depois, em 2021, Bezeau adicionou uma masmorra adjacente fabricada com mais 10 mil garrafas.

A masmorra foi adaptada como espaço de hospedagem temática, com capacidade para acomodar até 16 pessoas em celas transformadas em quartos.

Plano de expansão e modelo de vilarejo

O plano de longo prazo prevê 120 residências privadas distribuídas no terreno de mais de 330 mil metros quadrados na ilha Colón. As casas seguem projetos de escritórios de arquitetura panamenhos e oferecem vários modelos.

Cada residência incorpora sistemas de captação de água, tanques sépticos e conexões elétricas. Uma casa de dois andares com 280 metros quadrados totais tem custo aproximado de 70 mil dólares.

O complexo também contempla uma loja, horta comunitária, ecoescola e áreas para atividades ao ar livre. A ideia é criar uma comunidade autossustentável baseada em princípios de economia circular.

Sistema de adesivos para envolver a comunidade local

Para manter o fluxo contínuo de material, o projeto criou as Pegatinas de Huella de Carbono. São adesivos disponíveis mediante contribuição de cinco dólares em hotéis e estabelecimentos comerciais da ilha.

Os visitantes entregam os adesivos para crianças da região, que recolhem garrafas, colam os selos nos recipientes e os trocam por alimentos no Castillo Inspiración. As garrafas coletadas são destinadas diretamente à construção de novas moradias.

Filosofia do projeto e alcance internacional

O site do projeto já recebeu visitas de mais de 204 países, demonstrando o interesse global pela iniciativa. A filosofia de Bezeau está resumida em uma frase que aparece na plataforma digital: "Mude o mundo sem mudar a Terra".

A proposta central é demonstrar que resíduos podem se tornar recursos valiosos quando há criatividade e organização. O projeto busca inspirar réplicas em outras regiões que enfrentam problemas similares de acúmulo de plástico.

O modelo combina solução ambiental com geração de moradia acessível. A técnica pode ser adaptada a diferentes contextos e climas, desde que haja disponibilidade de garrafas PET e estrutura mínima para processamento do material.

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.

 

 

Belo Horizonte