Gravidez: corpo pode levar até dois anos para se recuperar após o parto, explica especialista
Recuperação pós-parto vai muito além da barriga e envolve músculos abdominais, assoalho pélvico, hormônios, pele, pés e até mudanças no cérebro, segundo a ginecologista e obstetra Mercedes Fiuza

O nascimento do bebê marca o início de uma nova fase, mas também de um longo processo de transformação para o corpo da mãe. Embora alguns sinais da recuperação pós-parto apareçam nas primeiras semanas, outros podem permanecer por meses ou até cerca de dois anos.
A explicação foi dada pela ginecologista e obstetra Mercedes Fiuza durante uma edição do podcast argentino El Puente. Segundo a especialista, as mudanças não ficam restritas à região abdominal e envolvem diferentes partes do organismo, além de aspectos hormonais e cerebrais.
Útero começa a voltar ao normal nas primeiras semanas
Um dos primeiros processos após o parto ocorre no útero. Durante a gravidez, o órgão aumenta de tamanho para acompanhar o crescimento do bebê e, por volta da 20ª semana, ou quinto mês, chega à altura do umbigo. Esse crescimento também faz com que outros órgãos se reorganizem para dar espaço ao útero.
Depois do nascimento, começa o processo de retorno à posição habitual dentro da pelve. De acordo com Fiuza, essa etapa costuma levar entre seis e oito semanas. O mesmo período está relacionado ao fim das perdas que podem ocorrer depois do parto.
A especialista, no entanto, destaca que seis semanas não significam recuperação completa. Algumas mulheres podem voltar a ter relações sexuais ou iniciar atividades físicas depois desse período, mas isso não quer dizer que o organismo tenha retornado imediatamente ao estado anterior à gravidez.
“Há processos biológicos que vão levar mais de seis semanas, que podem levar seis meses, que podem levar dois anos”, afirmou Fiuza. Entre eles estão a estabilização hormonal, as mudanças na pele e no cabelo e as alterações de humor.
Por que a barriga pode continuar diferente depois da gravidez?
A persistência de volume ou flacidez na parte inferior do abdômen é uma das mudanças que mais despertam dúvidas no período pós-parto. Segundo a médica, uma das possíveis explicações é a diástase dos músculos retos abdominais.
Esses músculos ficam na parte da frente do abdômen, desde o esterno até o púbis, e são responsáveis pela formação dos chamados “quadradinhos”. Conforme o útero cresce, eles se afastam na região central para abrir espaço.
Essa separação é chamada de diástase dos retos e, de acordo com Fiuza, faz parte da fisiologia da gravidez e ocorre em 100% das gestantes. Após o nascimento, porém, os músculos podem não retornar completamente à posição que tinham antes da gestação.
A especialista explicou que uma pequena abertura pode ser considerada esperada. Já quando a separação chega a dois dedos ou mais, ela recomenda procurar avaliação e tratamento específico.
A recuperação deve ser progressiva e pode envolver exercícios para o músculo transverso do abdômen, exercícios hipopressivos e trabalho do assoalho pélvico.
Assoalho pélvico também precisa de atenção
Outro ponto destacado pela ginecologista é o assoalho pélvico, conjunto de músculos responsável por sustentar órgãos como bexiga, útero e reto.
A região sofre pressão durante toda a gravidez, inclusive quando o parto acontece por cesariana. Por isso, Fiuza defende uma reabilitação adequada antes da retomada de exercícios mais intensos.
A médica também alertou para o risco de voltar rapidamente aos treinos de força e levantar peso sem uma preparação adequada.
“Não é voltar a treinar força de uma vez e levantar peso, mas ir aos poucos”, recomendou.
A recuperação também pode variar de acordo com o tipo de parto. No caso da cesariana, por se tratar de uma cirurgia abdominal, pode haver maior dor nessa região. Nos partos vaginais, a atenção tende a se concentrar principalmente nos músculos do períneo, que fazem parte do assoalho pélvico.
Segundo a especialista, a reabilitação também pode ajudar a reduzir problemas futuros, como o prolapso, situação em que órgãos da região pélvica descem devido à fraqueza das estruturas que os sustentam.
Mudanças também acontecem no cérebro
A transformação provocada pela gravidez não termina no corpo. Fiuza também explicou que gestação, parto e amamentação estão relacionados a mudanças hormonais e cerebrais.
Um dos processos citados pela médica é a neuroplasticidade, capacidade que o cérebro possui de modificar suas conexões e funções. Segundo ela, algumas mães podem perceber esquecimentos ou uma atenção mais intensa voltada às necessidades do bebê.
Para a especialista, essas experiências estão relacionadas a um processo biológico e não devem ser encaradas simplesmente como uma característica individual da mãe.
Pele, quadril e pés também podem mudar
A pele é outra parte do corpo que passa por transformações durante a gestação. Ela se estende ao longo dos nove meses para acompanhar o crescimento do abdômen e pode não recuperar completamente sua tensão anterior.
A médica também citou adaptações na vagina, nos tecidos conectivos e na região do quadril.
Nos pés, as mudanças podem ser percebidas inclusive no tamanho dos calçados. Segundo Fiuza, entre 60% e 70% das mulheres podem notar alguma alteração durante a gravidez. A especialista relaciona esse processo à ação do hormônio relaxina sobre ligamentos e outras estruturas do corpo, além das mudanças na distribuição do peso e no apoio dos pés.
Recuperação não precisa ser uma corrida contra o tempo
Para Mercedes Fiuza, uma das questões centrais é evitar que a aparência do corpo seja usada como único parâmetro para avaliar a recuperação depois da gravidez.
A pressão para recuperar rapidamente o corpo anterior à gestação pode ser reforçada pelas imagens compartilhadas nas redes sociais, que nem sempre representam a variedade de experiências vividas pelas mulheres no pós-parto.
“Está tudo bem nos vermos como somos e está tudo bem nos cuidarmos se quisermos nos cuidar”, afirmou a ginecologista.
A avaliação da especialista é que cada mãe precisa encontrar um equilíbrio entre os cuidados com o próprio corpo e as necessidades do bebê. Nesse processo, o tempo de recuperação pode variar, e o acompanhamento adequado deve considerar as características de cada caso.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



